FERNANDO ALVES conta-nos, na T.S.F, a sua paixão pela “Livraria do Mondego”

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Quantas vezes passámos pelo IP3 e não pusemos a leitura em
dia. Se vai conduzir não leia? Ora, balelas, se até lá estão as placas em cor
castanho, que é a cor do interesse patrimonial, se lá estão as placas apontando
as curvas do rio anunciando, justamente a “Livraria do Mondego”.

Quantas vezes saímos da via rápida e fomos espreitar as
novidades à montra de quartezíticos do ouro do vício, alfarrábio de 400 milhões
de anos, geomonumento classificado por Galopim e
tudo, a dois passos de Penacova, onde as doces e claras águas do Mondego, assim
tratadas por Camões, recebem as do Alva?

De cada vez que passamos apressados e não vemos senão a
placa, não sabemos o que perdemos. Ficai sabendo, perdemos talvez, uma das 7 maravilhas
de Portugal, na categoria de Grandes
Relevos. A candidatura já foi firmada pela Câmara de Penacova, cujo
presidente explicou, ontem ao Diário
de Coimbra, a intenção de devolver visibilidade e notoriedade a um
monumento que tem estado um tanto esquecido. A sete de Fevereiro, daqui a um
mês, saberemos o resultado de uma primeira triagem, e talvez isso nos obrigue a
uma, digamos, reedição do olhar em trânsito, mesmo se já não há barcas
serranas, trazendo o pão e o vinho, rio abaixo desde Penacova, mesmo se o Alva
já não transporta o olhar de Fernando Vale que o viu correr durante um século
tumultuoso das janelas da casa de Côja. Lá o escutei uma tarde, narrando
conversas e fraternas barricadas com o Torga, na Portagem, onde o médico e
poeta tinha consultório, e onde passou cinquenta anos de desassossego, a ver correr
serenas as águas do Mondego. E há também os versos do Antero. «Lindas águas do
Mondego, por cima olivais do monte, quando as águas vão crescidas, ninguém
passa além da ponte. Lindas águas do Mondego, nos salgueiros a cantar, quando a
cheia é de tristeza, ninguém a pode passar».

Esta candidatura de um monumento natural, que o tempo
esculpiu lentamente, como se arrumasse livros numa estante de quartzo, lembra
os apressados viajantes do IP3, e os que, nas aprazíveis margens do “basófias”,
reconhecem as águas cantantes «do choupal até à lapa», que o maior rio
inteiramente português, tem também sim, uma livraria a montante. E isso é uma
maravilha de Portugal, ó alfarrabistas dos rios.”