Outros tempos – O Moleiro

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A profissão de moleiro, que se perdeu com o passar do tempo, foi uma ocupação de grande destaque na região de Penacova nos séculos XIX e XX. Praticamente todas as freguesias deste concelho tinham alguém que se dedicava a esta profissão, tendo em conta que o pão era um dos principais alimentos das populações. Era uma profissão dura, sem horários. No Inverno era o aproveitar a água das chuvas que corria abundantemente nos ribeiros e fazia mover a roda da azenha; no Verão era o vento a energia que fazia mover a velas dos moinhos.
  As azenhas , construídas junto aos ribeiros , eram ao mesmo tempo, em alguns casos, a casa de habitação do moleiro e sua família. Ainda hoje poderemos encontrar algumas azenhas nos lugares do Pisão, Vimieiro, Ponte da Mata e Carvalho. Muitas outras já sucumbiram à passagem do tempo, como as azenhas das Corgas, (em Sazes do Lorvão) e na Ribeira dos Palheiros.
  Os moinhos de vento ficavam nas zonas mais altas e ventosas. O caminho era, por vezes, sinuoso e estreito, sendo o burro o principal meio de transporte e de carga. Existiam diversos núcleos de moinhos de vento, que felizmente chegaram até aos dias de hoje, sendo os mais importantes os moinhos da serra da Atalhada, Portela da Oliveira e Gavinhos.
  O processo da moagem dos cereais era semelhante tanto para a azenha como para o moinho de vento.
  Colocados os grãos (podia ser de trigo ou milho) dentro da “moega”, estes caiam quase um a um, entre as duas mós em movimento, sendo esmagados no intervalo destas. A trituração formava montículos de farinha que era prontamente ensacada.
  Por vezes o pagamento deste trabalho era feito em géneros, neste caso concreto, em farinha – a chamada “maquia”. Exemplo: por cada 50 quilos de trigo moído, o moleiro retirava para si 2.5 quilos, através de uma medida de madeira, chamada de “salamim”.
  A manutenção das mós era necessária. Como o processo da moagem leva ao polimento das mós, diminuindo o seu rendimento, o moleiro tinha de virar a face trituradora e com a ajuda de um martelo de cabeça aguçada (o picão) ele picava a mó, deixando-a áspera e pronta para moer mais cereal. Esta operação tinha o nome de “picadura”.
  Depois da moagem feita, o moleiro corria as aldeias para distribuir a farinha aos seus fregueses e ao mesmo tempo recolher os sacos com cereais para moagem.
  A maior parte da farinha era utilizada para consumo próprio na confecção da broa e pão de trigo. A esse tempo, nas aldeias, quase todas casas tinham o seu forno, onde coziam o seu pão.
  O aparecimento das grandes moagens industriais levou ao consequente desaparecimento da profissão de moleiro e, por arrastamento, o encerramento  e desaparecimento dos moinhos de vento e azenhas. Todos ficamos a perder, pois nunca mais poderemos saborear aquela broa caseira, tão saborosa e saudável, cozida com a farinha do moleiro, mestre na arte de moagem.