OPINIÃO – Escolas Máximas

2
2


Um pouco na senda do Óscar e do António, também eu decidi escrever sobre as escolas primárias de Penacova. Não tanto através de uma abordagem histórica, mas mais procurando simplesmente encará-las como as escolas onde aprendemos as primeiras letras e os primeiros números e também, onde aprendemos a dar importância àquilo que era nosso e português, numa altura em que a ditadura nada nos dizia e em que a falta de liberdade, que tanto afectava os adultos, não nos impedia de fazermos tudo aquilo que, supostamente, não colidia com os interesses do Estado Novo e totalitário.



Construídas, também elas, na lógica do Plano dos Centenários, situam-se na entrada norte da vila de Penacova. Composto por dois edifícios, aquele centro escolar reúne duas zonas ajardinadas, uma zona de floresta e ainda um campo de jogos que se insere num recreio, quase digno desse nome, onde todos os nós podíamos, apenas com as estridentes e constantes advertências da menina Aida, extravasar as nossas energias, hoje classificadas de hiperactividade, com alguma dose de stress e frustração, talvez provocadas pela permanência sufocante da sala de aula e pela exigência dos então professores, a quem prontamente obedecíamos, sem sequer pensarmos duas vezes, muito por culpa de sabermos o que imediatamente se seguia caso assim não acontecesse.


Eram tempos em que não existiam transportes que nos levassem de casa para a escola, e vice-versa, e em que o percurso era todo feito a pé, quer chovesse, quer fizesse sol e sem que algum dos nossos progenitores nos acompanhasse. Lembro-me daqueles dias de inverno, frios e chuvosos, e da vontade que tínhamos de chegar à escola, apenas para nos secarmos um pouco, ao lume da lareira que a D. Maria do Carmo ou a menina Aida, já tinham previamente acendido, para aconchegar um pouco mais a sala e alma.



Recordo-me, ainda hoje, do leite que bebíamos durante a manhã, da panela onde era confeccionado e da concha de sopa utilizada para encher os copos que, de vários tamanhos e cores, todos nós éramos obrigados a ter disponíveis só para aquele efeito. Depois saíamos da cantina em direcção ao alpendre da escola, onde continuávamos a beber aquele leite com bolhas de gordura a flutuar, enquanto mantínhamos o olho na bola que não parava de rolar naquele campo de cimento improvisado.

Quando o tempo o permitia, jogávamos no campo de futebol, também ele improvisado, e mesmo que não tivéssemos adversário, sempre poderíamos contar com as inúmeras oliveiras, que faziam daquele espaço um autêntico campo armadilhado, onde por diversas vezes, as raízes salientes, tomavam o lugar do adversário, e nos “passavam” as rasteiras, cujo efeito tão doloroso, ficava marcado nos nossos tenros joelhos. Mais tarde, foram arrancadas para darem lugar a um campo semelhante ao que hoje lá podemos encontrar.


Com a abertura do novo Centro Escolar de Penacova, aquelas e outras escolas do nosso concelho, encerraram definitivamente portas. Hoje em dia podemos encontrá-las totalmente devolutas e, em alguns casos, bastante danificadas, quer pelo tempo, quer pela mão de indivíduos, incapazes de preservar um património que ainda poderá ser bastante útil às colectividades do concelho. Recordo-me do exemplo da escola primária da Riba de Baixo, de Carvalhal de Mançores ou da Rebordosa ou ainda mais recentemente, da escola primária de Laborins, que foram aproveitadas para acolher actividades diversas, preferencialmente as que mais beneficiam as populações, tão prejudicadas que foram por, de um momento para o outro, deixarem de poder contar com a alegre presença das crianças.



Destinos a dar à Escola Primária Maria Máxima? Existem muitos, ou não se situasse ela numa zona com bastante potencialidade, devido à sua dimensão e localização. Inicialmente falou-se no terminal rodoviário, mas parece que a sua concretização não será para os tempos mais próximos. Mais recentemente, falou-se na vontade que o executivo de Humberto Oliveira tem em transferir para um dos edifícios lá existentes, o Tribunal Judicial de Penacova, uma vez que o poder político nunca, em vinte anos, conseguiu resolver o imbróglio gerado à volta da construção do Palácio da Justiça, na zona da Eirinha, e que remonta ao tempo em que Laborinho Lúcio era ministro da justiça. Mas enfim, seja qual for a utilidade que queiram dar àqueles imóveis, o importante é que façam alguma coisa no sentido de evitar que os habituais actos de vandalismo comecem a tomar deles conta, e antes que os efeitos devastadores do tempo se antecipem à acção reparadora do homem. Se forem céleres a esse ponto, então poderão contribuir para adaptar aos novos tempos, um local que, desde sempre, esteve ligado à formação dos futuros homens e mulheres da nossa terra.

Pedro Viseu

2 COMENTÁRIOS

  1. Bonito texto Pedro, emociona, faz voltar no tempo, que bom que escolhestes este tema para colorir esta página, com certeza tocará o coração de muitos que, como tu, viveram esta época de sonhos e espectativas, onde tantas emoções e sentimentos puros, cheios de esperança povoavam as cabecinhas dessas crianças portuguesas. E que bom que possam existir planos e gente com bom intuito, como o da preservação. Abraço.