OPINIÃO – Cortes Salariais – A maneira mais fácil

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Este mês de Janeiro os salários da função pública, com vencimentos brutos acima de 1500€, vieram reduzidos em percentagens variáveis desde 3,5 até 10%. Esta medida está a ser muito aplaudida por umas luminárias internacionais, responsáveis pela sanidade económica da zona euro e que, tendo em conta o estado da dita, atrevo-me a afirmar que não percebem nada do assunto. Não se trata de uma medida consensual e está a gerar polémica. As polémicas podem ser potenciadoras de crescimento quando estão associadas a debate público de ideias. Não é o caso, na minha humilde opinião. Sobre este tema assistimos, uma vez mais a uma clivagem social, aproveitada com mestria pelos politicozitos que nos governam. Pensemos bem sobre o que se tem dito. Desde que o cobardolas que abandonou o governo rumo a um bom tacho europeu que não passa pelo crivo do julgamento público, que se tenta resolver o problema da crise. Aqueles, trabalhadores por conta do estado ou por conta de privados que recebem menos de 1500 € aprovam a medida. Por acreditarem que este vai ser este o remédio milagroso, que vai sarar a quase moribunda economia nacional? Não me parece. Pedindo desculpas a todos os que não vêm esta medida da maneira que vou expor, atrevo-me a dizer que o sentimento de base é a vulgar e comezinha inveja. Este sentimento é demasiado comum entre nós e faz com que aplaudamos medidas governamentais desprovidas de justiça, de bom senso, de pudor e mesmo de vergonha. Comecemos a exigir aos políticos medidas inteligentes e justas e, eventualmente, acabamos com os problemas económicos. Deixemos de nos alegrar com a desgraça do nosso vizinho e o mundo será mais alegre e risonho para cada um de nós e por conseguinte para todos.


Pensemos na justiça dos cortes salariais. O estado em que se encontram as contas públicas é da responsabilidade dos trabalhadores ou dos decisores? Quantos de nós, trabalhadores por conta de outrem, somos chamados a decidir sobre a forma como as nossas empresas são geridas? Que investimentos fazer ou que parceiros captar? Numa empresa privada um mau gestor é despedido, no estado os maus gestores têm vindo a ser regiamente indemnizados! Temos um país à beira do colapso, isso é um facto que ninguém pode escamotear, mas será que o sacrifício que está, uma vez mais a ser pedido aos mesmos de sempre, é a solução? Se até aqui todos os apertos de cinto que foram impostos, com congelamentos salariais, não progressão nas carreiras, aumento de impostos, etc., não surtiram efeitos positivos, antes pelo contrário, esta não será mais uma medida de uma estupidez alucinante? A meu ver, esta é mais uma das muitas medidas, tomadas por mentecaptos afectados por uma arrogância doentia que os impede de ver a própria estupidez de tão concentrados que estão no próprio umbigo, que apenas nos vai afundar mais e mais. Um dia acordamos e o buraco em que estamos metidos é tão fundo, mas tão fundo que já nem a luz se consegue ver.


A crise que estamos a atravessar não é culpa, nem da responsabilidade (exclusiva!!) dos funcionários públicos com salários brutos superiores a 1500 euros, logo não se pode pedir que sejam eles a pagar a factura. A não ser possível a justiça de pagar quem prevarica pelo menos que paguemos todos….


Termino com uma citação, que espero nos deixe a todos a pensar.


“ Colbert! Tu pensas como um queijo, como um penico de um doente! Há uma quantidade enorme de gente entre os ricos e os pobres: os que trabalham sonhando em vir a enriquecer e temendo ficarem pobres. É a esses que devemos lançar mais impostos, cada vez mais, sempre mais! Esses quanto mais lhes tirarmos mais eles trabalharão para compensarem o que lhes tirámos. É um reservatório inesgotável.”

Anabela Bragança