Regresso ao passado

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Germano Agostinho Alves herdou a arte de trabalhar o metal do seu pai, quando ainda viviam em Avô, de onde são naturais. No dia de “Todos os Santos” do ano de 1958, já com 19 anos, trocou aquela aldeia serrana e  muda-se para Friúmes, terra natural da sua mãe, onde o seu pai já havia construído uma oficina para o sustento da família.
Até ir para a tropa manteve-se por ali e foi vivendo daquela arte. O pai, e mais alguns empregados, mantinham em bom ritmo os trabalhos da oficina. Para além das feiras, que percorriam um pouco por todo país, também faziam caleiras e outros trabalhos em zinco. Mais tarde, já depois do serviço militar cumprido, optou por continuar a trabalhar como latoeiro, só que desta vez sem ter que sair de casa, pois os clientes que foi fidelizando, são suficientes para não ter que o fazer. Mantém assim a oficina em funcionamento, muito por culpa da procura que, ainda assim, justifica a manutenção da actividade. São coisas cujo plástico ainda não conseguiu substituir e que, por isso mesmo, ainda não perderam a sua utilidade.
As Lanternas, as ladras, os mata-galinhas, os caça-toupeiras, as nevadeiras, os regadores-fios-de-ovos, as enxofradeiras, os medidores e os cântaros, são tudo peças em metal que enchem as prateleiras e decoram as paredes da oficina onde o sr. Agostinho e o sr. Mário passam os dias, e algumas das noites da semana, tantas vezes ajudados pelo Nuno, jovem estudante de mecânica, a quem o avô logo incumbiu de modernizar a oficina.
É um trabalho ao qual se tem que dedicar bastante tempo, sobretudo quando os clientes se tornam cada vez mais exigentes, seja pelo tempo seja pela qualidade do produto, altura em que um dia normal não chega para satisfazer as encomendas. É nessas períodos que se apercebem da necessidade de terem mais dois braços para trabalhar, o que se torna cada vez mais difícil, tendo em conta que, para contratar mais alguém, é necessário ter ganhos regulares e consistentes, o que nesta actividade, apesar de não faltar que fazer, não acontece, dada a pouca margem que têm para aumentar o preço do produto.
Mas pronto, para além de ter gostado de tudo o que vi e ouvi, apreciei o facto de saber que, bem perto de nós, é ainda possível ficar a conhecer ao vivo uma latoaria e a forma como ao longo de mais de 60 anos se tem conseguido manter activa, apesar de se poder considerar quase artesanal e por isso mesmo aparentemente mais vulnerável às regras do mercado, não deixa de ser convidativo visitá-la, quanto mais não seja pelo prazer de termos no presente, uma actividade do passado, cuja evolução tecnológica não conseguiu tornar obsoleta.

 

2 COMENTÁRIOS

  1. É triste ver estas profissões a desaparecer paulatinamente…
    É a má face da moeda do progresso.
    Não creio que, em nome dele, estejamos ou venhamos a ser mais felizes…
    Bom documento, que fica…

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