A Interioridade é uma atitude!

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O Primeiro-ministro deslocou-se hoje a Penacova.
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José Sócrates esteve esta manhã em Penacova, na EB1, para assinalar a extensão das “Redes de comunicações de Nova Geração” às zonas rurais. Não me pronunciarei sobre como o veio fazer, com que objetivos veio fazer, para quem veio fazer, ou o local específico onde entendeu fazê-lo. Esteve em Penacova e o concelho deve orgulhar-se de o Chefe do Governo ter entendido visitar a vila para uma iniciativa governamental.

Na sua intervenção o Primeiro-Ministro deixou clara a tónica de que vinha a Penacova deixar claro que, desta vez, a “revolução” (a palavra é nossa) tecnológica tinha chegado, mesmo, ao interior! E usou sempre a palavra interior, por várias vezes!

Eu confesso que fiquei incomodado com a declaração. Não pelo seu conteúdo em concreto, porque tenho conhecimento de que a cobertura de telemóvel ou de internet nalgumas zonas do concelho de Penacova é muito má. Confesso que o que não consigo aceitar é a geografia! Penacova não é interior!

Eu até aceito que no discurso politico (e popularucho) da auto-comiseração, entre penacovenses, se diga que Penacova é interior. Mas reconheçamos que não é verdade.

Não é objetivamente verdade, porque está geograficamente no litoral (verdade de La Palisse?). A vila de Penacova está a 58,4 km do mar (na Praia da Tocha). O concelho de Penacova faz fronteira com o concelho de Coimbra, uma das maiores cidades da Região Centro – Gavinhos, Roxo ou Aveleira são interior ou litoral?

Não é subjetivamente verdade, porque as populações vivem nas mesmas condições de conforto do que qualquer congénere dos concelhos limítrofes de Coimbra ou da Mealhada (que estarão assumidamente no litoral). E as dificuldades que têm são análogas a problemas que têm concelhos à beira-mar.
– Porque um concelho não é do interior só porque as localidades estão dispersas entre serranias muito arborizadas. Ou porque há uma serra íngreme entre duas terras que distam 5 km uma da outra.
– Porque um território não é do interior só porque as suas localidades sofrem problemas de desertificação – tantas vezes apenas por causa da transumãncia da população para localidades contíguas onde os apartamentos até já estão construídos, ou onde vive a namorada ou o futuro marido.
– Porque não se é do interior apenas porque há uma larga franja da população que ainda vive do setor primário – nomeadamente da produção de madeira.
– Porque não é a distância das principais cidades que define a interioridade, nem o acesso a centros comerciais ou a 10 salas de cinema (até há bem pouco tempo, Coimbra tinha duas salas de cinema)!
– Porque também no litoral há estes problemas.
Porque Portugal é um país que só tem interior na cabeça das pessoas – há alemães que se deslocam diariamente 300 km entre a sua residência e o local de trabalho e não vivem no interior.

A interioridade é uma atitude!
Contava-me o meu amigo Pedro Costa que Pedrogão Grande que é o que poderá dizer-se – com alguma legitimidade – ser uma vila do interior foi “das primeiras em todo o mundo a oferecer internet Wifi aos seus cidadãos”. Como tem Mortágua, por exemplo. “Quando Los Angeles fez a mesma coisa, abriu telejornais. Pedrogão Grande já tinha: mais de um ano antes de Los Angeles”, dizia-me hoje o Pedro, no Facebook.
A interioridade só chegará a Penacova quando os penacovenses se acomodarem a esse estigma que só pode ser imposto. Quando com a tal auto-comiseração aceitarem que são isso.
Porque honestamente, eu não vejo interioridade só porque as pessoas gostam de conviver, são fraternas e amigas umas com as outras, vivem num território natural, arborizado, pouco industrializado.
Em Penacova, as pessoas viverão no interior quando começarem a ter pena delas próprias! Não porque isso caracterize o interior, apenas porque isso significa aceitar que alguns provincianos dos meios urbanos os convençam a ser uma coisa que objetivamente e subjetivamente não são!
A província está na cabeça das pessoas, não está no chão onde têm as raízes!

Até à vista! [2.]

1 COMENTÁRIO

  1. Concordando com quase tudo o que escreveu, permita-me discordar com a simpática comparação com a realidade alemã! Se quiser entrar na realidade de vencimentos da Alemanha comparada com Portugal, pior ainda.
    Não fazendo as deslocações a 300 mas o trabalho ser tipo no Porto, para quem mora em Coimbra (ou lá perto como Penacova), sao +/- 100 kms para cada lado. De transporte público (autocarro, CP) ou fazendo a viagem de automovel (combustivel mais portagens) não gasta menos de 500/600 mês. Acha que pode existir essa comparação? Claro que não, os nossos ordenados são 3 ou 4 vezes inferiores aos "deles". Agora para quem ganha cerca de 2500/3000€/mês, aí o conceito de "interior" fica um pouco para plano secundário!
    Cumprimentos