OPINIÃO – A importância de um Presidente de Junta…!

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Durante algum tempo, antes de um cidadão deste concelho ter sido libertado, ao fim de ter cumprido uma grande parte de uma pena, que lhe foi sentenciada, (cerca de oito anos) fui, enquanto Presidente de Junta, várias vezes contactado por alguém do Instituto de Reinserção Social.

A ideia base, era tentar convencer-me, de que devia tentar por intermédio do trabalho e não só, inserir essa referida pessoa na Freguesia que o viu nascer, fazendo com que não existisse nenhum ambiente adverso, por parte das pessoas e contribuir assim para que ao fim de tantos anos a sua inserção na sociedade pudesse acontecer com alguma naturalidade.
Como já o conhecia desde pequenino, e sabia a realidade da vida dele e da família, procurei com toda firmeza segurar as pontas dum lençol, que sabia à partida iria voltar a ficar curto. Depois de muita insistência lá aceitei alguma responsabilidade, mesmo que só moralmente e tentei ajudar esse cidadão a integrar-se. Sabia que depois de duas condenações, (ambas por violação), não ia ser fácil, mas como a vida não nos trás só coisas boas e neste caso, até se misturava muita tristeza, com alguma alegria, tentei fazer o possível para que tudo corresse bem.
Enquanto o homem esteve preso, era telefonemas quase todas semanas, na tentativa de conseguir os intentos, mas a partir do momento em que o homem foi solto, nunca mais recebi um telefonema de ninguém. Do próprio Município e da assistência social só recebi telefonemas, quando essa pessoa, já estava a entrar numa fase decadente outra vez.
Preocupado tentei perceber o que se passava e desloquei-me a Penacova, para falar com quem de direito, mas deparei-me com o medo das pessoas e com outras situações que me melindraram ainda mais. Esse cidadão, estava a amedrontar pessoas que pela sua profissão estavam a tentar ajudá-lo e isso fez-me muita confusão.
Foi considerado livre com alguma pena ainda por cumprir, em Maio de 2010 e volta a ser preso em Dezembro de 2010, sob suspeita de crime de violação novamente e encontra-se a aguardar julgamento. Para quê este texto perguntarão vocês? Qual a finalidade? Valerá a pena? Eu pelo menos, senti-me na obrigação de o escrever e dar a conhecer às pessoas, para que percebam, como é por vezes a vida de um Presidente da Junta.
O que fica de tudo isto, é o desleixo que é dado a pessoas que cometeram crimes e que a meu ver, deviam ser melhor acompanhados pelo estado, no sentido de os tentar inserir na sociedade, em vez de ficarem à espera sentados no sofá, que os criminosos voltem a cometer os mesmos crimes, degradando cada vez mais a sua vida e a de pessoas que estavam sossegadas cá fora tentando ser felizes, mas que por casualidade do destino e da conversa enganosa do criminoso, caíram na mão de pessoas como ele. 
Sei que já tem no rol de condenações, três ou quatro violações e agora é suspeito de mais duas e isso é que me entristece. É que com que tudo isto, estas mulheres vão sofrendo na pele, uma das maiores baixezas que se pode fazer a uma mulher, ao feri-las na sua intimidade, na sua dignidade, na sua integridade e que afecta para toda a vida qualquer cabeça por mais forte que ela seja.
No fim de tudo isto, e pelo que foi noticiado nos jornais, mais uma mulher de 17 anos e outra de 27, foram violadas e as suspeitas são muito fortes, mas ainda me pergunto outra coisa, quantas não terão sido até ao momento, sabendo nós, que nem todas terão a coragem de fazerem a acusação e tentam guardar para elas, essa mágoa de toda a vida, da qual nunca vão conseguir libertar-se.
Tenho pena de pertencer a uma sociedade que estranha, que não pergunta, que não se importa, que não quer ver, que não tem coragem e acima de tudo, vergonha de saber que quem devia e podia ter nas mãos outras soluções, esquece-se pura e simplesmente dos outros e vão para casa, deitar a cabeça no travesseiro e adormecer enquanto a vida acontece lá fora.
Mas acima de tudo, tenho pena de ser Presidente de Junta e só quererem saber de mim quando precisam de descarregar as responsabilidades. Quando estou a falar de mim, falo dos milhares de Presidentes de Junta a quem farão a mesma coisa. De resto, acabo por ter alguma pena deste criminoso olhando à vida que teve desde criança, mas podem crer que tenho muito mais pena de todas as mulheres que por ele foram violadas e que nunca mais viverão descansadas, porque as marcas são eternas.

António Catela

PS: Quando estava para publicar este texto, começou um incêndio na aldeia, supostamente ateado pela pessoa em causa, daí só agora o publicar e voltar em breve a este assunto.