Alípio Padilha estreia-se nas artes de palco

0
12
O espectáculo I Love Broadway, de Diogo Bento e Inês Vaz, leva mais um néon até ao Cais do Sodré. Catarina Homem Marques foi entender o fascínio de ter sempre quem nos apanhe quando caímos, como nos musicais.

E viveram felizes para sempre. Este é o fim que nos espera em I Love Broadway, o espectáculo de Diogo Bento e Inês Vaz que vai estar a partir de terça-feira na Casa Conveniente. Os criadores autorizam o avanço desta revelação porque não é mesmo nada um spoiler. É simplesmente como as coisas acontecem no mundo dos musicais.

“Nos musicais, quando cais há sempre alguém para te agarrar”, diz Inês Vaz, a recordar uma frase do filme musical Dancer in the Dark, de Lars Von Trier. Uma frase que entra também em I Love Broadway e que encerra em si o fascínio do género e que aqui também serve a reflexão. Por alguns dias, a Casa Conveniente, no Cais do Sodré, vai ter o seu próprio sinal de néon em estilo Broadway, e enormes telas com as estrelas do espectáculo, como acontece nos teatros do famoso bairro nova iorquino. “Brincamos com o maior símbolo da indústria de entretenimento num dos sítios mais alternativos de Lisboa. Algo que compete com o exterior mas que também o integra”, explica Diogo Bento.

A Broadway que se ama no espectáculo passa a ser também ali, neste sítio construído onde há tanto para dizer sobre a Broadway. E até sobre a vida. “A ideia de Broadway interessa-nos por ser uma indústria muito apoiada em valores financeiros, jogamos com esse lado mais podre que afecta as questões artísticas. Ao mesmo tempo, interessa a Broadway como um sítio utópico onde tudo corre na perfeição. Apropriamo-nos do american dream. Aí não interessa se a Broadway é perfeita ou não. Interessa que em alguns momentos o fascínio da Broadway crie uma ideia de perfeição”, diz Inês Vaz.

Não há a intenção de moralizar. Há mesmo canto, dança, purpurinas e tudo o mais a que o entretenimento tem direito. “O encanto da Broadway também vem dessa verdade, porque as pessoas acreditavam mesmo no que está para lá do arco-íris. E mesmo quando sabemos que é uma indústria, há um momento nos musicais em que nos deixamos levar pela fantasia”, conta Diogo Bento. Ou seja, dá para pensar na crise enquanto contraste, e dá para reflectir sobre o que significa pertencer a uma indústria de arte e aprender a vender um espectáculo, mas a ideia é que também se recorde os tempos em que achávamos possível uma rua cheia de gente a dançar em conjunto.

Diogo Bento e Inês Vaz não tiveram possibilidade de ir até à Broadway. Mas sentaram-se e viram dezenas de musicais na televisão. À Broadway, juntam então o fascínio da old Hollywood. E há ainda o poder renovado do género, representado pela série-fenómeno Glee, que até aparece no blogue do espectáculo com um mashup entre “Umbrella” de Rihanna e “Singing in the Rain”, a recordar Gene Kelly.

O texto do espectáculo é uma reunião disto tudo. “Noventa por cento do texto é uma colagem exaustiva de frases de musicais, que ainda assim têm de fazer sentido enquanto todo. É quase uma tese, que reflecte a ideia de que vimos tantos musicais que já não conseguimos falar com outra linguagem”, explica Inês Vaz. E há até uma mini-orquestra a um canto, números de sapateado, um lustre, projecção de vídeo e muitas luzes.

Neste musical interessa a localização, como já foi referido, com os bares e outras indústrias do Cais do Sodré em redor. Mas interessam sobretudo as circunstâncias da dupla de criadores. Em Han Shot First, o primeiro espectáculo que fizeram, reflectiam sobre a ideia de começo. Agora que se estão a estabelecer burocraticamente, reflectem sobre a indústria. “E isto vai ser uma trilogia. No próximo espectáculo queremos fazer teatro, o maior dos clássicos, como fazem os consagrados”, contam. Para já, não esquecer que na indústria da Broadway tudo se vende, mesmo que à porta deste espectáculo cada um só vá pagar aquilo que quiser.

“I Love Broadway” estreia-se terça-feira e fica em cena até 6 de Março, às 21.00, na Casa Conveniente. Cada pessoa paga o que achar justo pelo bilhete.

Texto originalmente publicado aqui

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui