PREVENÇÃO – Bombeiros de Penacova recebem formação para operar com desfibrilhadores automáticos

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Por ano, morrem mais de 700 mil adultos em toda a Europa, vítimas de doença cardiovascular, fazendo desta a primeira causa de morte no mundo ocidental.

Segundo dados tornados públicos pelo INEM, destes, pelo menos 40 por cento morrem de morte súbita cardíaca, antes de chegarem ao hospital.

Com base nesta realidade, o INEM propõem-se, através do programa de DAE, melhorar a taxa de sobrevivência de pessoas que sofrem morte súbita cardíaca. Porque a legislação em vigor impõe especificações sobre o treino das pessoas que podem utilizar estes equipamentos (operacionais de DAE), e porque os bombeiros são o ‘braço direito’ do INEM
na área da emergência pré-hospitalar, o instituto deu início a uma série de acções de formação.

O Desfibrilhador Automático Externo é um dispositivo portátil que permite, através de eléctrodos adesivos colocados no tórax de uma vítima em situação de paragem cardio-respiratória, analisar o ritmo cardíaco e recomendar ou não um choque eléctrico. O DAE regista som, electrocardiograma, fornece indicações aos reanimadores, analisa os dados e indica o choque ou não, segundo o algoritmo predefinido. Eventuais falhas neste tipo de procedimentos são considerados “erros fatais” por constituírem um perigo para a saúde e podem justificar o “chumbo” dos bombeiros na formação, explica ao “BP” um dos formadores.

Os principais cuidados a ter antes do choque eléctrico passam por verificar se a vítima tem algum dispositivo implantado por baixo da pele, designadamente ‘pacemakers’ (neste caso o DAE dá indicação do procedimento a seguir), retirar adesivos cutâneos e limpar a pele, porque alguns têm nitroglicerina (altamente inflamável), ou rapar o peito no caso dos homens peludos. Os eléctrodos são então ligados por baixo do peito esquerdo e abaixo do ombro direito da vítima e todos os procedimentos são relatados em voz alta pelo formando, para que o aparelho grave.

O DAE dá ordem para as pessoas se manterem afastadas, ordem que é repetida em voz alta, enquanto se assegura de que todos estarão em segurança durante a descarga eléctrica, caso seja essa a recomendação, após a análise da vítima.

As botijas de oxigénio também exigem um cuidado especial, por serem inflamáveis, devendo ficar afastadas num perímetro superior a metro e meio. Após a descarga elétrica, as compressões para massagem cardíaca devem ser retomadas e o aparelho nunca deve ser desligado até indicação médica.

Estas são regras que não podem ser esquecidas e, por isso mesmo, são repetidas pelos formadores até à exaustão.

“Quem não as assimilar, não ficará habilitado a utilizar o DAE”, refere o formador num tom grave.

“Já presenciei uma paragem cardio-respiratória em que a utilização do DAE poderia eventualmente ter sido decisiva, aumentando a probabilidade de sobrevivência da vítima”, conta ao “BP”, Pedro Marques, 23 anos, estudante na Escola Superior de Enfermagem de Coimbra, e bombeiro voluntário de 3ª, na corporação de Penacova.

Ao fim de cinco anos de missão nos bombeiros, Pedro conta que novo “ganhou o gosto pelo voluntariado”.

“Sempre gostei e tive curiosidade pelo trabalho que era desenvolvido na associação de bombeiros e não hesitei em ingressar logo que me foi possível.

Depois a proximidade com a população ainda mais motivação me deu. Tive também sorte em ingressar num corpo de bombeiros que sabe estimular e aumentar o gosto pela causa”, sublinha o jovem bombeiro que passou pela formação do INEM, em Coimbra.

A área da “emergência préhospitalar” é a vertente que mais gosta e talvez essa seja a explicação para “valorizar” a formação em DAE:

Como entidade de proximidade para com a população, acho que é de extrema importância o alargamento do programa DAE aos corpos de bombeiros. Esta mais valia pode agora chegar com mais eficácia a maior número de cidadãos, sendo o socorro mais eficaz e ficando mais fortalecida a cadeia de sobrevivência”.

Sobre a metodologia utilizada pelo INEM nas acções de formação descentralizadas, diz que é “muito positiva”, tanto para quem intervém como para a própria vítima. Sobre os formadores, Pedro Marques sublinha a forma “atenciosa”, “disponível” e “muito empenhada” dos docentes que tentam sempre “tornar as situações de treino o mais reais possível”. Para o voluntário de Penacova, só há um pequeno detalhe a assinalar: “ A formação é muito intensiva, talvez se fosse distribuída fosse mais benéfica”.

Os níveis de formação na área da saúde tiveram um grande incremento, principalmente na última década, uma realidade que o bombeiro Rafael Silva faz questão de sublinhar.

Assalariado nos Bombeiros Voluntários da Batalha, o jovem de 27 anos assume que gostou da formação ministrada pelo INEM, especialmente pela forma como “foi orientada”.

“O feedback desta formação é de facto excelente, tanto ao nível de instalações, como a nível dos formadores, que após um longo período de trabalho, esforçaram-se com o objectivo de nos darem o seu melhor. Considero que nos últimos anos existe uma franca melhoria na qualidade do socorrismo feito em Portugal, e este curso veio comprovar isso mesmo”.

Rafael Silva ingressou no corpo de bombeiros em 2000 por “mero acaso”. “Apesar deste mundo sempre me ter fascinado, não tinha qualquer tipo de relação, quer familiar ou de amizade, com ninguém que fosse bombeiro. Certo dia a minha irmã desafiou-me para tentar perceber como podia ser voluntariado. Já lá vão 11 anos”, conta.

Ainda sobre o Programa de DAE, Rafael Silva diz que é uma mais-valia para todos os bombeiros, sobretudo para os profissionais de saúde que lidam “diariamente” com situações extremas. Também o Rafael considera que o concurso devia “ser mais alargado” , talvez dois dias para reforçar a “componente prática”.

Já para Rui Leitão, os bombeiros são um “vício” que nasceu com ele. Também para este bombeiro dos voluntários de Santa Comba Dão, a área da Saúde é a sua principal “paixão”, que junta à que nutre pelos bombeiros. “Tenho vários familiares nos bombeiros – pai, irmãos, primos e tios. Desde miúdo que sempre gostei disto.

Ainda na escola primária, mal acabavam as aulas ia para os bombeiros para junto do meu pai, e era lá que fazia os trabalhos de casa. As minhas férias eram passadas no quartel de manha à noite e aos dez anos já vestia uma farda feita por medida”, lembra.

Pegando na formação que recebeu no INEM em Coimbra, Rafael conta que os Bombeiros Voluntários de Santa Comba Dão foram já “abrangidos” por um programa do género denominado “Choque para a Vida”.
“Dispomos de dois equipamentos e tive o prazer de trabalhar com colegas que são operacionais de DAE. Já foram salvas algumas vidas com ajuda deste meio.

Sobre a formação, Rafael Silva refere ao “BP” que “excedeu” todas as suas expectativas.

“Só tenho de dar os parabéns à instituição e aos seus formadores pelo trabalho desenvolvido”.

Patrícia Cerdeira – Bombeiros de Portugal