Barca Serrana: “Sem a vela não tem piada” *

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É uma parte da magnífica descrição, elaborada em texto e fotos, por Rafaela Carvalho, directora do jornal “A Cabra“, acerca daquilo que, nos tempos que correm, é a vida do barqueiro, rendido que está à evolução dos meios de transporte e ao aproveitamento turístico de uma profissão, hoje quase desaparecida, mas que durante algumas centenas de anos serviu para ligar Coimbra às demais gentes do Mondego. Delicie-se com o excerto que escolhemos para si ou, se preferir, leia o texto completo.
“…A viagem não dura mais de uma hora. À ida, a embarcação é movida à força de braços e a dança da vara ao entrar e sair do leito liberta pequenos salpicos de água. O retesar dos músculos dos corpos dos dois barqueiros contrasta com a suavidade com que a Barca Serrana atravessa os reflexos cristalinos na superfície das águas. O silêncio da viagem é apenas interrompido pelas indicações entre Jaime e Lino. “Ponha o leme para a borda”. “Tira a vara”. “Vira agora!”.
São palavras de ordem que nascem da experiência e marcam a coordenação dos dois barqueiros. Jaime Oliveira acredita que “o saber vale muito; a força vale mas não sabendo fazer o serviço não dá”. Ao chegar à Ponte de Santa Clara, os peões olham curiosos a embarcação. A bordo, Lino do Espírito Santo propõe que se ice a vela. Jaime contesta pois são apenas dois a manobrar a barca: “Não ergas a vela. A vela é com três”. “Isto sem a vela não tem piada, chegamos lá ao fundo e tiramos”, diz Lino do Espírito Santo, enquanto liberta as cordas que prendem o grande tecido branco. Durante o resto do percurso, de volta à margem, a embarcação segue à confiança do vento…”