Religiosidade – (re)ajustes à modernidade

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Desde sempre a religiosidade assumiu-se como uma matéria que movimenta e apaixona milhões de pessoas em todo o Mundo. A defesa intransigente pelos ideais como sendo perfeitos e inquestionáveis, num acto de cegueira doentia e delirante, originou a que se cometessem as maiores atrocidades da História. Porém, ainda bem que esses tempos estão, em parte, ultrapassados, apesar de principalmente no Médio Oriente deslumbrarem-se comportamentos que colocam em causa o respeito pela diversidade religiosa, factor ameaçador da liberdade individual, premissa que se encontra consagrada em vários documentos universalmente aceites, sendo um exemplo a Declaração Universal dos Direitos Humanos, datada de Dezembro de 1948.

A virtude da tolerância é assim, um aspecto fundamental no relacionamento entre povos, e acima de tudo no diálogo ecuménico entre as várias religiões.

Ainda bem, que com o fim do período medieval, terminou também a imposição de determinada crença religiosa através do poder político e militar. Contudo, escrevo este texto não para analisar o passado da Religiosidade que têm tanto de fantástico, como de tenebroso, mas sim para analisar o presente das várias Religiões, mais concretamente a Igreja Católica, que entre outras advém do Cristianismo, por ser a realidade que melhor conheço.

Ao longo destas duas últimas décadas, as várias Religiões enfrentaram desafios, que provavelmente a nível histórico foram dos mais exigentes, e ao mesmo tempo dos mais fustigantes, no que concerne à perda de fiéis, que são no fundo, e na minha opinião, o que representa a afirmação da “grandiosidade” das religiões. Convém frisar que o Cristianismo é a religião com mais seguidores, estimando-se que cerca de 33% da população Mundial é Cristã. Isto só por si é um dado revelador da grandeza desta Religião.

Mas voltando à questão que está na base da elaboração deste pequeno texto de opinião, a Igreja Católica teve que adaptar-se nos últimos anos aos desígnios da era moderna, nomeadamente aos avanços da Ciência que colocam em causa a Teoria Criacionista da origem do Universo, como também a outras questões igualmente fracturantes, não só da Religião como também da Sociedade, como o uso do preservativo, a transformação do conceito redutor de família, a interrupção voluntária da gravidez, o “casamento” entre pessoas do mesmo sexo, entre outros assuntos que no fundo vieram abalar aqueles dogmas, verdades inquestionáveis que durante séculos não foram questionados, ou sequer reflectidos.

Confesso que sou um Cristão não praticante. Raramente vou à missa, mas não é por esse facto que não deixo de reflectir sobre a realidade da Igreja e sobretudo a realidade do Mundo. Gosto de debater estes assuntos, e entendo que ser Cristão, acreditar em Deus e em Jesus, tal como me foi ensinado, ainda que numa lógica um pouco de imposição, é mais do que ir à missa, ou rezar todos os dias, etc… Ainda esta semana faleceu uma figura querida de Penacova, da qual gostava muito, e entendo que é um acto muito mais religioso, e espiritual acompanhar aquele cortejo fúnebre, prestando uma derradeira homenagem aquela pessoa, do que propriamente frequentar “religiosamente” uma missa, sem saber o mínimo significado daquele momento, e ainda depois ter uma filosofia de vida não de entreajuda, mas sim de um egocentrismo e egoísmo que em nada se coadunam com os ensinamentos da Igreja Católica. Mas isto é um conceito de religiosidade, e cada um têm o seu, e há que o respeitar a visão de cada um.

Para além da própria política de religiosidade adoptada por uma determinada Religião, os representantes têem um papel preponderante na afirmação da Religião na Sociedade. Variadas são as ocasiões em que somos confrontados com o sensacionalismo dos media, e ouvimos nas notícias mais uns escândalos envolvendo padres ou bispos, que no fundo, e é inegável esta realidade, também contribuem para o afastamento das pessoas da Religião. Mas como tenho a concepção que um padre, é um Homem como outro qualquer, dotado de defeitos e virtudes, e com natural apetência para fazer “coisas” erradas, estes episódios espantam-me tanto como ver um marido matar uma mulher, ou outros acontecimentos tétricos, que acontecem com periocidades assustadoras, sendo esse um assunto capaz de gerar reflexão, e também acção!

Mas permitam-me que aqui faça uma alusão, e é esse o objectivo deste artigo, à realidade de Penacova, mais concretamente à realidade nas Freguesias de Penacova, Carvalho e Friúmes para enfatizar o que disse anteriormente. Há quatro anos atrás fomos confrontados com a vinda de um novo Padre. Lembro-me na altura de ouvir comentários, da autoria principalmente de pessoas mais velhas, sobre a juventude de um pároco desconhecido da maioria das pessoas, mas que nas primeiras semanas “abalou” um pouco a pacatez de Penacova. Mas a realidade é que o Padre Rodolfo Leite fez um trabalho extraordinário, não só a nível Religioso, mas também a nível Social. Perdoem-me se me engano, mas não me recordo, de ver outro padre a preocupar-se a ir visitar as crianças à Escola, demonstrando um grande Humanismo, e sobretudo uma grande preocupação. Recordo-me de uma vez, numa conversa informal junto de um grupo de amigos em comum, o Padre Rodolfo ter dito que tinha ido levar bolachas às escolas, actividade que pelos vistos realiza com frequência, mas seguidamente rematou “não pensem que vou à escola levar bolachas para os miúdos gostarem de mim, mas sim para lhes incutir o espírito de partilha; para partilharem aquelas bolachas com os colegas e os amigos”. Devo-vos dizer que fiquei aqui rendido… a tão grande personalidade, e acima de tudo a tão grande profissional; sim pois não têm mal nenhum referir este termo “profissional”, que no sentido mais lato da palavra significa entregar-se na totalmente à sua actividade, transmitindo essencialmente aquilo em que acredita.

Fico contente por ter conhecido um padre diferente, com visão aberta, sem problemas de falar frontalmente de assuntos mais delicados, e que até possam por em causa tudo aquilo que acredita. É disso que a Igreja Católica necessita – mentes abertas, não pensamentos encerrados num idealismo balofo, jogando ao faz de conta que não existem doenças sexualmente transmissíveis, que o sexo não é só para procriação, e que até há pessoas que amam outras pessoas do mesmo sexo. Esta é a realidade, e não há como fugir dela. Não vale a pena recorrer a velhos e retrógrados cenários de que a família existe só para procriação, entre outras pseudo-verdades que em nada engrandecem e credibilizam o papel de tão nobre instituição como é a Igreja Católica.

Tenho a firme convicção que o Padre Rodolfo significa isto – significa a abertura de horizontes e a mudança, mas gostaria também de deixar umas palavras finais para o Padre Rodolfo, palavras essas que serão certamente poucas e parcas para descrever o trabalho que realizou em Penacova, consolidado em todo o carinho e amizade que ao longo destes 4 anos desenvolveu nas gentes de Penacova, mas disso resta-me a franca convicção que o Padre Rodolfo continuará o seu caminho, como até agora, com dedicação, afinco e sobretudo lutando pelo que acredita.
Pedro Alpoim

1 COMENTÁRIO

  1. Bom e oportuno texto Pedro. Também considero que o Padre Rodolfo conseguiu (voltar a)reunir os cristãos de Penacova. Rodeou-se de homens e mulheres que o ajudaram nessa tarefa, a qual, sem a sua fé e o seu empreendedorismo, muito dificilmente seria alcançada. Penacova ganhou e a Igreja também.