Jaime Soares em entrevista ao Diário de Coimbra – Bombeiros vivem “momentos dramáticos” que podem acabar em “ruptura” *

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Bombeiro há meio século, Jaime Soares assumiu hoje presidência da Liga de Bombeiros Portugueses e faz um diagnóstico crítico da actual situação. Sem “papas na língua” o ainda comandante da corporação de Poiares acusa o Estado de não assumir as suas responsabilidades no que à protecção de pessoas e bens diz respeito e reconhece que muitas corporações estão “à beira da ruptura”
 Bombeiros: “uma escola de virtudes e bem-fazer

Ingressou nos Bombeiros Voluntários de Vila Nova de Poiares a 8 de Agosto de 1962 e «em boa hora o fiz», afirma Jaime Soares, para quem a escola dos bombeiros «é uma escola de virtudes, de bem-fazer», que desempenhou um papel fundamental na sua formação como homem e como cidadão. «Tudo o que sou devo-o aos bombeiros», afirma sem qualquer reserva, recordando o «puto arrebitado, irreverente, que gostava de coisas complicadas e difíceis» e se colocou na «primeira linha assim que se começou a falar nos bombeiros de Poiares».

Para Jaime Soares que está  ligado ao comando dos Bombeiros de Poiares há mais de 40 anos e durante 35 exerceu as funções de comandante daquela corporação, os bombeiros representam o «sentimento de solidariedade e de humanismo no seu mais elevado expoente», onde a «humildade» é, também, um dos valores mais significativos. E nesta “casa”, «muito antes do 25 de Abril já decidíamos utilizando o voto e as práticas democráticas», recorda ainda.

Uma escola de vida e de cidadania que considera fundamental em toda a sua actividade, nomeadamente política. «Se existe algum êxito nas minhas funções como autarca, não tenho dúvidas que isso se deve aos aconselhamentos que o homem bombeiro deu e dá ao homem autarca», assume.

Um comandante também chora

Com uma experiência de quase meio século a ajudar o próximo e a salvar vidas e bens, Jaime Soares reconhece que passou por algumas experiências dramáticas. «Ficar sem cabelo, sem pestanas ou sobrancelhas acontece muitas vezes», diz no meio de um largo sorriso, mas o semblante fecha-se e o silêncio impõe-se quando recorda outras situações, «algumas delas complicadas». Conta com emoção um acidente na Ponte da Mucela, concelho de Arganil, envolvendo uma família com três filhos. O casal foi socorrido e encaminhado para o hospital e às «duas crianças demos-lhe o necessário aconchego». Mas as pequenas só perguntavam «onde está a nossa irmãzinha?». «Não víamos criança nenhuma, mas um bombeiro alerta-me para o que parecia uma boneca e pega na suposta boneca, toda desarticulada. Era a irmãzinha morta». As lágrimas correm, livres, pelo rosto do experiente comandante e embargam as palavras. «Foi um dos piores momentos que vivi», diz, recordando que pegou nas «duas crianças e trouxe-as para minha casa e só as deixei quando as pude entregar à família».«Nunca mais os vi», mas há um ou dois anos, através da televisão, soube que o casal agradeceu publicamente o gesto.

Dramática foi, também, a «revolta da natureza» que, em poucos minutos destruiu vários hectares de floresta em São Mamede, concelho de Penacova. O comandante dos Voluntários de Poiares e os seus 15 homens ficaram «encurralados pelo fogo» e quando, sozinho, Jaime Soares foi procurar “caminho”, “esbarrou” com pilhas e pilhas de madeira a bloquearem os acessos. «Estava sozinho dentro da viatura, as lágrimas corriam-me e disse para a central: os heróis também morrem». A sorte esteve ao seu lado e acabou por descobrir uma “nesga” de caminho por onde puderam fugir, evitando o último recurso previsto que era refugiarem-se nos depósitos onde, à cautela, mantinham uma pequena reserva de água.

Os acidentes são, reconhece, as situações mais complicadas. «Às vezes não sabemos se é uma perna ou um braço», mas o imperativo é sempre o socorro. E na linha da frente, nos fogos ou nos acidentes, tem de estar, defende Jaime Soares, o comandante. «O comandante deve ser o primeiro a dar o exemplo, tem de estar sempre mais bem preparado que qualquer dos seus homens», afirma, considerando que esta é a atitude certa para «se fazer respeitar». Ser comandante é, em suma, «ser o primeiro» e «não apresentar os galões, deixar que os outros trabalhem e ficar com os louros».

“Estarei na Câmara até ao último minuto”

«Estarei na Câmara até ao último minuto», afirma peremptoriamente Jaime Marta Soares, a quem não passa pela cabeça deixar a autarquia que lidera há 37 anos para assumir em regime de exclusividade o cargo de presidente da Liga de Bombeiros. «Continuo a ser bombeiro e, como bombeiro que sou, terei, certamente, capacidade para superar as dificuldades», quer numa, quer noutra “frente de batalha”. Significa, assume, que «terei de acorrer, ao mesmo tempo, a duas situações, pelos menos nestes próximos dois anos», ou seja, até ao final daquele que é, por lei, o seu último mandato como presidente da Câmara de Vila Nova de Poiares.

Jaime Soares reconhece que estas duas “frentes” «me irão obrigar a um renovar de esforços, a uma entrega total e absoluta às duas situações». «Toda a gente sabia que eu não iria deixar a Câmara e não deixarei», promete, assumindo que se vai repartir nesta dupla gestão «como bombeiro voluntário que sou e que não tem medo das dificuldades».

Bombeiros vivem “momentos dramáticos” que podem acabar em “ruptura”

Bombeiro há meio século, Jaime Soares assume amanhã a presidência da Liga de Bombeiros Portugueses e faz um diagnóstico crítico da actual situação. Sem “papas na língua” o ainda comandante da corporação de Poiares e presidente da Federação dos Bombeiros de Coimbra acusa o Estado de não assumir as suas responsabilidades no que à protecção de pessoas e bens diz respeito e reconhece que muitas corporações estão “à beira da ruptura”

DC:  Mas só por si, as autarquias não garantem a sustentabilidade das corporações…

JS:  As autarquias estão conscientes do seu papel, mas já não é assim em relação ao poder central, a quem compete garantir as estruturas de defesa das vidas e haveres das populações. Consta da Constituição Portuguesa. O Serviço Nacional de Protecção Civil é da competência do Governo e é o Governo que tem de criar condições para o desenvolvimento das estruturas de protecção civil. O Governo, ao longo dos anos, tem vindo a utilizar – é o termo correcto – as estruturas dos bombeiros, principal agente da protecção civil, sem ter em consideração, em termos de financiamento, a prestação diária de tantos milhares de mulheres e homens, instalados nas 456 associações e corpos de bombeiros voluntários e 27 corpos de bombeiros dependentes das câmaras. As câmaras, através da Associação Nacional de Municípios têm procurado soluções, sem resultado. Se é grave relativamente aos municípios, mais grave se torna para as associações de bombeiros, porque estão dependentes dos associados, da prestação de serviço de socorro e transporte de doentes, já que de todos os serviços públicos os bombeiros não são ressarcidos, a não ser nos serviços particulares que lhe são solicitados.

DC:  O Estado “usa” e faz questão de não pagar?

JS: Há aqui uma questão muitíssimo importante: somos tutelados pelo Ministério da Administração Interna mas em relação aos serviços de saúde somos tutelados pelo Ministério da Saúde, que não considera estes serviços – tanto de socorro de emergência como de transporte de doentes – no âmbito da protecção civil. Especialmente nos últimos tempos há uma insensibilidade do Ministério da Saúde que pode arrastar os bombeiros portugueses para uma situação de confronto que nós não desejamos, que nós não procuramos, porque a nossa função é servir as populações…

DC:  Soldados da paz em confronto?

JS:  Este é um momento dramático na vida dos bombeiros porque, não sendo lucrativo, o transporte de doentes criava condições de alguma entrada de verbas e colmatava muita da nossa prestação de serviços. O Ministério da Saúde devia tratar os bombeiros como um parceiro essencial , até porque foi o Serviço Nacional de Saúde, ou seja as estruturas dependentes do Ministério da Saúde, que solicitaram aos bombeiros que adquirissem equipamentos de qualidade, formassem os seus recursos humanos e tivessem todas as ferramentas adequadas a uma prestação de serviço qualificada. É esse mesmo Ministério que agora nos põe de parte, entende como parceiros menores e não quer assumir a sua responsabilidade, entendendo os  serviços de saúde numa dimensão economicista. Com esta perspectiva desumana, sem coração, visando a poupança, introduziu no sistema informático a requisição do transporte de doentes e conseguiu um corte de credenciais. Perante esta situação, de um momento para o outro, os bombeiros defrontam-se com a diminuição drástica dos transportes, diminuiu também drasticamente a facturação, que nalguns casos atinge 30, 40, 50 por cento ou mais.

DC:  Há corporações que já só garantem o transporte de doentes urgentes…

JS:  Mesmo diminuindo, o Estado, como sempre fez, paga tarde e a más horas, o que me permite dizer que o cenário que se vislumbra é de funcionarmos como financiadores do Serviço Nacional de Saúde. Isto é absolutamente inadmissível, absolutamente incomportável e pode levar, a curto prazo, a generalidade das corporações à ruptura financeira e à impossibilidade de exercer cabalmente a sua função, porque sem recursos não podermos fazer sair as ambulâncias. Mas ainda há outra questão. Esta falta de coração e de humanismo leva a que muitas pessoas que continuam a sofrer e a necessitar de transporte e não o têm através da requisição paga pelas administrações regionais de saúde, se dirijam aos bombeiros e os bombeiros não são insensíveis a essa situação. Enquanto tiverem gasóleo para as viaturas, não deixarão ficar na valeta nenhum cidadão que precise de socorro. A situação é muito complicada, diria que se está a tornar dramática. A nossa missão é socorrer quem precisa e estamos, no fundo, a substituir o Governo nas suas competências e obrigações. O Governo não pode fazer uma análise politicamente inconsciente das necessidades dos portugueses. Isto é desumano!

DC:  Em termos de equipamento, que diagnóstico faz da generalidade das corporações?

JS:  As estruturas de equipamento estão equilibradas, porque os bombeiros ao longo dos anos, com meios próprios, apoios locais e alguns da estrutura estatal, foram adquirindo equipamento. Mas também é verdade que as viaturas garantidas pelo Governo há cinco anos, só há menos de meio ano estão a ser entregues. Muitos equipamentos foram adquiridos à custa de capacidade ou engenharia financeira das corporações e com recurso a viaturas compradas no estrangeiro, algumas com 10, 15 anos. Por isso, defendemos na nossa Carta de Compromisso, que apresentámos no Congresso, a tipificação ao nível do município, para definir as estruturas, humanas e materiais, de forma a haver uma racionalização e rigor relativamente aos equipamentos, evitar a duplicação e aposta na especialização. É preciso ter em conta que as nossas viaturas são sujeitas a esforços absolutamente anormais, daí a necessidade de substituição. O mesmo acontece relativamente à intervenção da mulher e do homem bombeiros. Oito horas exercidas por um bombeiro correspondem a mais de uma semana de actividade de qualquer cidadão no seu local de trabalho.

DC:  Falou nos homens e mulheres bombeiros, ainda há condições para o voluntariado?

JS:  O povo português é o povo mais solidário e humanista do universo. Por essa razão não há ainda dificuldade em aparecerem pessoas para, voluntariamente, servirem o outro. Mas colocam-se duas questões muito importantes, pois o voluntariado é sustentado pelo associativismo e o associativismo está, hoje, mais em crise que o próprio voluntariado. É cada vez mais difícil recrutar cidadãos que queiram assumir a administração de corpos de bombeiros, porque os vários governos, nomeadamente o último, criaram legislação a torto e a direito, alguma ainda não regulamentada, que em vez de promover condições de incentivo ao associativismo e ao voluntariado, fez exactamente o contrário. Por exemplo, acabou-se com o corpo auxiliar dos bombeiros, que reunia pessoas e profissionais capazes, porque não cumprem 60 horas de formação. Estamos a ver se é possível ultrapassar essa situação. O próprio bombeiro se não fizer as necessárias horas de formação, passa para o quadro de reserva, o que significa que no segundo ano vai para a rua. O que se tem feito em Portugal é achincalhar o voluntariado com legislação. Outra das nossas prioridades é reformular a legislação, para criar incentivos e potenciar o voluntariado.

DC:  Sempre criticou a estrutura da Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC) considerando-a “elitista e gastadora”, constituída por “generais sem tropa”. Agora na presidência da Liga vai haver declaração de guerra à ANPC?

JS:  Não direi declaração de guerra, porque somos soldados da paz, mas também não tenho dúvidas nenhumas que declararemos guerra a quem ponha em causa a nossa paz. Continuo a entender, hoje como ontem, que há que refundar todo o sistema de protecção civil no que concerne aos serviços intermédios. E nos serviços intermédios está, efectivamente a ANPC e tudo o que lhe está hierarquizado. A ANPC não comanda a GNR, o Exército, a Marinha, a Força Aérea, a Cruz Vermelha, os Serviços Florestais, não comanda nada, a não ser os bombeiros, que não têm dependência nenhuma do Estado, em termos de apoios.

DC:  O que se deve fazer?

JS:  Deve-se reajustar a função do antigo Serviço Nacional de Bombeiros, que fazia uma organização perfeita da intervenção no teatro de operações e funcionava bem, em detrimento de uma estrutura elitista, com generais, que consomem tudo aquilo que faz falta aos bombeiros no terreno. A protecção civil em Portugal não é só exercida pelos bombeiros, mas é na ordem de mais de 98 por cento exercida pelos bombeiros, e por isso deviam ter um funcionamento autónomo, integrado num comando único. Não fizeram nada disso, criaram super-estruturas e temos generais, mas não temos tropas. Tentaram remediar, criando estruturas dependentes, nomeadamente os FEB (Força Especial de Bombeiros) e os GIPS (Grupo de Intervenção de Protecção e Socorro) na GNR.

DC:  Que sempre lhe mereceram grandes críticas…

JS:  Defendo a sua imediata extinção. Os GIPS devem regressar aos quartéis, onde tanta falta fazem ao nível da segurança, mas não perder a sua formação, podendo a qualquer momento integrar-se no combate e no apoio, sobretudo no Verão, fazendo vigilância, patrulhando a floresta, mas sem que ganhem 14 meses para funcionarem três. Também a força dos FEB, é importante, atendendo à sua especialização, mas deviam estar disseminados por todo o país, nos quartéis, debaixo do comando da estrutura onde estiverem integrados, para que, em caso de necessidade de resposta, mesmo internacional, possamos ter um grupo altamente especializado para intervir. Podem ter, também, uma redução grande de efectivos. Em suma, temos de desengordurar a estrutura, para com o mesmo fazermos muito mais e muito melhor, diria mesmo, com menos fazermos mais e melhor.

DC:  O que representa a presidência da Liga?

JS:  Uma carga de trabalhos à qual me podia ter escusado, mas senti que, nesta passagem de testemunho, já que o dr. Duarte Caldeira não se queria recandidatar, poderia encarar essa possibilidade. Talvez, pela minha postura, pela minha forma de estar e viver os bombeiros, muitas pessoas se me dirigiram, dizendo que confiavam em mim e defendendo que eu poderia ser a resposta para a situação complicada que vivíamos. Disponibilizei-me para avançar, até porque havia outros candidatos nos quais não me revia. Dissemos ao que vínhamos, esclarecemos e definimos estratégias que, no fundo, serão o nosso manual de funcionamento e criámos as condições para que, no congresso mais participado dos bombeiros portugueses, tivesse a grata satisfação de ser eleito para presidente do Conselho Executivo da Liga Portuguesa de Bombeiros Portugueses. Mas logo no dia do encerramento do congresso fiquei muito preocupado…

DC:  Porquê?

JS: Porque os bombeiros estão a pôr as expectativas muito altas em relação à minha pessoa e já não há super homens, se é que alguma vez houve. Sou um cidadão como outro qualquer, efectivamente sei os caminhos que é necessário percorrer para encontrarmos as melhores soluções, mas a força do Conselho Executivo está na capacidade de entendimento do conjunto de mulheres e homens que fazem parte desta estrutura e dos órgãos sociais no seu todo. Mas, acima de tudo, a grande força vem dos bombeiros.