O inverno…e a crise!

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E pronto, agora que as andorinhas foram embora, veio aquele mal-estar do velho inverno que sempre chega, umas vezes mais tarde e lentamente para nos irmos habituando, outras mais de repente. Ainda chegou risonho e cheio de genica mas, depressa se arrependeu e deu lugar a este cair de folhas, ensombrado, enevoado, gelado, como no fundo tinha que ser.

Aparecem agora, pequenos raios de Sol que inundam a terra rija forte e seca, fazendo esquecer o frio da humidade da noite e da geada que se formou, tornando branca a paisagem mesmo que ainda noite escura. Esse sol irradia alegria e faz cantar hinos suaves ao amor.


Os passarinhos saltitam no meio das ervas, batendo as asitas de uma forma acelerada, tentando-se aquecer das gélidas noites e nós, ainda nos alegramos ao vê-los cantando, pulando de galho em galho, felizes, sem contarem com um bago de chumbo que pode estar em qualquer lado. Contudo, se por acaso se salvarem das armas dos caçadores, não se safam de certeza dos pesticidas com que hoje enchemos as terras.

As batatas, aquelas que apareceram, já traziam a borboleta da terra. As azeitonas apanharam-se adoentadas, apesar da safra do azeite ter sido muito boa e nós, vamos resistindo a curá-las com produtos que afastarão os infestantes mas que, afectarão com toda a certeza os seres humanos que as utilizarem. As azeitonas e tudo o resto onde teimamos em não aplicar, vão-nos chegando às mãos cheias de bicho.

As uvas já foram apanhadas…o vinho em grande parte já foi provado e fechado nas cubas que irão servir para o guardar até ser engarrafado, vendido e bebido. Muito pouco ou nenhum entrará no mercado, ou melhor o que entrar, não vai ser contabilizado, fruto daquela economia paralela que sempre existiu e vai continuar a existir no nosso país.

Por isso meus amigos, vamos vendo aproximar o tempo da Primavera e a cada dia mais aceleradamente e toda a gente a dizer, que este ano é que a crise vai ser tremenda. Por isso, o medo instala-se em cada um de nós, no aproximar dos reflexos de uma crise que parece que veio para ficar. E aqueles, os mais pobres, mais uma vez passarão ao lado dessa mesma crise, comendo o prato da sopa de feijão, às vezes com um pouco de carne salgada ou um osso cozido e umas couves misturadas naquele caldo, que de quentinho lhes enche a alma, porque esses…os pobres, sempre viveram em crise!

Quanto a todos os outros, viverão no medo constante de não terem dinheiro para pagar as contas, as insolvências particulares aumentarão a cada dia que passar, as casas ficarão vazias entregar-se-ão aos bancos e retornar-se-á às casas dos pais e, as ilusões que nos alimentaram desfazem-se a pouco e pouco, nas promessas desvairadas e no aumentar de sonhos de que éramos ricos, quando nem sequer produzimos para comer.

De que nos vale agora a televisão digital anunciada, a fibra óptica, aos poucos espalhada pelo país, as caixas nos muros das nossas casas à espera do gás canalizado, as auto-estradas quase paralelas umas às outras, os imensos estádios de futebol, todas as obras megalómanas…que foram transversais a todos os governos, nada!

Agora, vamos esperneando nos nossos oitocentos anos de história, tentando fazer crer aos outros, “aqueles a quem devemos” que podemos pagar. No entanto, ficamos à espera como sempre estivemos de melhores dias, de novos tempos, com a paciência de Alentejano calejado pela vida e adormecido pelo Sol, com a fibra e a raça de Viriato chefe dos Lusitanos e com a determinação daqueles portugueses que tudo farão, para que a nossa terra possa mudar. Entretanto, só nos resta mesmo isso… esperar, só não sabemos até quando e como!