Lampreia, ou se ama ou se odeia *

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Quer pelo seu aspecto esotérico com
uma boca circular que funciona como uma ventosa, quer por ostentar o
título de “vampiro do mar” por parasitar tubarões, bacalhaus e alguns
mamíferos marinhos para se alimentar do seu sangue, a lampreia não
ganhará decerto o prémio Miss Simpatia do Universo Marinho. 

De facto, este pitéu sempre
extremou posições em relação ao seu consumo. Se para os romanos era
presença indispensável nos seus banquetes, já para os judeus ainda hoje
é considerada um alimento proibido uma vez que não possui escamas. E a
lampreia não possui escamas porque não é um peixe na verdadeira
acepção da palavra, é um ciclóstomo. É inclusive do domínio comum dizer
que não é carne nem peixe… É lampreia! E o mais interessante é que
também do ponto de vista nutricional a lampreia tem uma composição
muito própria que a coloca num limbo nutricional entre carne e peixe.
Senão vejamos, a lampreia tem uma quantidade de gordura bastante
assinalável (cerca de 15%) para um “peixe”, o que a equipararia a um
peixe gordo como a sardinha e o salmão. Mas o mais interessante é que o
perfil de saturação das suas gorduras a torna mais próxima da carne ao
ter maior teor de ácidos gordos saturados do que polinsaturados, sendo
no entanto os monoinsaturados a possuírem o maior destaque.

Esta flutuação nutricional
entre peixe e carne faz igualmente com que a lampreia seja uma
excelente fonte de zinco e ferro, este último ainda mais potenciado em
preparações culinárias que utilizem o sangue, como o típico arroz de
lampreia. De resto, o arroz de lampreia é um autêntico festim
nutricional onde para além do ferro, abundam muitos outros nutrimentos e
compostos antioxidantes resultantes dos maravilhosos condimentos que
lhe possam ser adicionados como cebola, alho, azeite, vinho tinto ou
vinho do Porto, noz-moscada, cravinho, pimenta entre outros. E já dizia o
ditado popular “até Março para o patrão e em Abril para o criado”, o
que é o mesmo que dizer que o início da época lampreia marca a melhor
altura para a degustar.

A
lampreia ocupa então um lugar muito distinto no nosso património
gastronómico, estando longe de ser consensual quer quanto aos seus
apreciadores quer quanto à sua composição nutricional. Lampreia é
lampreia não se pode comparar com mais nada! 

 I

Professor
Assistente Convidado da Faculdade de Ciências da Nutrição e
Alimentação da Universidade do Porto. Este artigo foi escrito com a
colaboração do Dr. Mário Jorge Araújo (MIGRANET – CIIMAR/UP) –
pedrocarvalho@fcna.up.pt

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