CULTURA – Penacova e a República na Imprensa Local *

0
2
Da autoria de David Almeida e editado pela Câmara Municipal, foi apresentado no dia 5 de Outubro de 2011 o livro “Penacova e a República na Imprensa Local“. O Jornal Nova Esperança publicou uma entrevista, procurando saber mais alguns pormenores sobre aquele trabalho historiográfico.



NE: Como surgiu a ideia de escrever e publicar esta obra?
DA: O gosto pela história conduziu-me há alguns anos atrás a consultar alguns jornais que se publicaram no concelho de Penacova no início do século passado. No contacto com essas fontes saiu reforçado o interesse pela história local, dado que nesses periódicos se encontram muitos episódios que retratam a vida social e política da época que coincidiu com os tempos conturbados da implantação da República. Em conversa ocasional com o Prof. Doutor Luís Reis Torgal falámos das comemorações do Centenário da República no nosso concelho e logo aí aquele historiador me convidou a participar num colóquio programado pela Câmara e que estava a estruturar na qualidade de membro do CEIS20, que é um Centro de Estudos da Universidade de Coimbra. O Colóquio teve lugar em Fevereiro passado, tendo a minha intervenção focado o republicanismo em Penacova. Daí surgiu então o incentivo, quer do Prof. Reis Torgal quer da Câmara, para que o tema ficasse registado em livro.

NE: O livro foi apresentado ao público no dia 5 de Outubro. Teve boa receptividade? Onde se pode adquirir?
DA: Creio que sim. A sessão de lançamento, integrada nas comemorações concelhias do 5 de Outubro, teve lugar na Sala Dr. Leitão Couto, na Biblioteca/Centro Cultural de Penacova e foi presidida pelo Senhor Presidente da Câmara. A apresentação da obra coube ao Prof. Reis Torgal que também escreveu o prefácio. A sala foi pequena para a assistência e até ao momento tenho recebido muitas mensagens de apreço por este trabalho. Dado que se tratou de uma edição da Câmara Municipal, com o apoio científico do CEIS20, encontra-se à venda quer no Posto de Turismo quer na Biblioteca, em Penacova. Não tenho qualquer interesse financeiro no assunto. O facto de poder partilhar, com o apoio da Câmara, este conjunto de elementos que considero importantes para a nossa identidade enquanto penacovenses já é muito gratificante.

NE: O Jornal de Penacova de 8 de Outubro de 1910 noticia o modo como foi aclamada a República em Penacova. O livro centra-se nesse acontecimento ou traz algo de menos conhecido dos penacovenses?
DE: Esse é um ponto importante, sim. Além do relato da imprensa local, o livro reproduz também o Auto de Aclamação, onde podemos ver as assinaturas de cerca de sessenta pessoas que no dia 7 (uma vez que no dia 6 a Câmara estava fechada e não havia livro de Actas) subscreveram aquele acontecimento vivido com entusiasmo em Penacova. De facto muitas pessoas de Penacova já conheciam tudo isso, mas considero que o livro apresenta elementos que eram menos conhecidos, como por exemplo, todo o movimento republicano anterior a 1910 que teve um episódio marcante em 1890, quando o pai de António José de Almeida se torna republicano e apresenta o pedido de demissão do cargo de Presidente da Câmara que então exercia. Outro acontecimento muito pouco conhecido é o grande comício que, em 1909, juntou 3000 pessoas em S. Pedro de Alva.

NE: E depois do 5 de Outubro? Há algum aspecto que gostaria de salientar?
DA: Há um aspecto que o livro contempla que é traçar alguns aspectos biográficos dos republicanos que mais se destacaram, quer antes, quer nos tempos que se seguiram, quer promovendo palestras e criando comissões republicanas locais, quer assumindo as rédeas dos poder a nível concelhio. Também o papel da imprensa local (alguns jornais desconhecidos de muitas pessoas, como o Ecos de S. Pedro de Alva e O Progresso Lorvanense, é desenvolvido no livro e é traçada uma síntese da imprensa local em Penacova, no período de 1901 a 1937, estudo que não estava feito. Resumo que pode ser o embrião para uma história da imprensa local no século passado.

NE: Sendo António José de Almeida natural de Penacova, que lugar ocupa no livro?
Há um capítulo dedicado a esse aspecto, dado que considero que este Político e Estadista Penacovense foi, de facto, uma figura tutelar do republicanismo no nosso concelho e desempenhou, juntamente com o Jornal de Penacova, dirigido por Amândio dos Santos Cabral, um papel catalizador dos acontecimentos que antecederam 1910 e que se seguiram. O Partido Evolucionista, por si fundado, teve em Penacova muitos seguidores, mas desde muito cedo, a começar pelos tempos de estudante e activista republicano em Coimbra, a sua influência doutrinária se fez sentir em diversos momentos.

NE: Gostaríamos de saber como se estrutura o livro
DA: Penacova e a República na Imprensa Local tem cerca de 200 páginas. Apresenta algumas ilustrações, quer de paisagens de Penacova em 1909, quer de algumas figuras republicanas, dos cabeçalhos e páginas dos jornais da época e como já se referiu, do Auto de Aclamação. Em termos de capítulos destacaríamos: últimos anos da Monarquia: dinâmicas sociais e políticas; militância republicana e proclamação da República; transição e consolidação político-administrativa; afirmação republicana depois do 5 de Outubro; reflexos da questão religiosa; comemorações do 5 de Outubro; António José de Almeida – figura tutelar das movimentações republicanas em Penacova; algumas personalidades republicanas (membros da comissão republicana em 5 de Outubro, personalidades que ocuparam cargos de projecção nacional, alguns nomes ligados ao núcleo republicano do alto concelho e outros republicanos penacovenses). Ainda, um capítulo sobre a Imprensa Local, em especial o Jornal de Penacova, A Folha de Penacova, O Progresso Lorvanense, Ecos de S. Pedro d’Alva e A Voz de S. Pedro de Alva.

NE: A terminar, que mensagem gostaria de deixar?
DA: Considero que este trabalho, sendo um modesto contributo para a nossa história local, pode ser um ponto de partida e um desafio para que outras pessoas aprofundem estes temas. Também gostaria de recordar aqui algumas palavras do Prof. Doutor Reis Torgal quando no prefácio escreve: “… Fica assim esta obra a assinalar o Centenário da República. Só falta coroá-lo com a compra pelo Município, e utilização conveniente, da casa onde nasceu António José de Almeida, em Vale da Vinha. (…) Deve criar-se em Penacova uma casa que tenha como patrono o único Presidente da Primeira República a cumprir o mandato completo (…) Assinalará não propriamente um regime (…) mas os seus ideais mais significativos, a respublica, o amor à “coisa pública”, na qual todos nos devíamos rever, esquecendo interesses pessoais, de classe ou de grupo, ou, pelo menos, não os sobrepondo aos interesses nacionais.”
* Publicado no Nova Esperança, edição relativa a NOV 2011