Carnaval «Momento colectivo de esperança e encenação da força de um povo

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O
Carnaval é historicamente um «momento colectivo de esperança» e também
«a encenação da força de um povo» e «um período de transgressão
simbólica contra os poderes instituídos», segundo os sociólogos
Albertino Gonçalves e Moisés Espírito Santo
.

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«Uma
festa puramente pagã» que antecede a quarta-feira de cinzas, o dia que
marca o início da Quaresma, a Igreja Católica nunca se lhe associou,
explicou o sociólogo Moisés Espírito Santo, professor catedrático
jubilado da Universidade Nova de Lisboa doutorado em Sociologia das
Religiões.

Depois de o Governo ter anunciado, pela primeira vez nos últimos 19
anos, que não haverá tolerância de ponto para os funcionários públicos
na próxima terça-feira de Carnaval, 21 de Fevereiro, o sociólogo
Albertino Gonçalves, professor de Sociologia da Cultura, dos Estilos de
Vida e da Arte na Universidade do Minho, defendeu que o Carnaval tem,
historicamente, tal importância para as pessoas que «é justificativo de
acções às vezes extraordinárias».

«Mexer no Carnaval simbolicamente tem custos, porque o Carnaval não é um
evento qualquer para as pessoas, é um evento estruturante do seu
calendário e revitalizador das suas energias», disse o académico.

Estrutura o calendário das pessoas, porque é uma festa que «se situa
normalmente perto do fim do Inverno, portanto, perto do fim de um
período de muitas dificuldades económicas», explicou.

«Digo
tradicionalmente, porque nós agora quase já não temos estações… O
Carnaval aparecia, antes da Primavera, como um momento colectivo de
esperança, era uma espécie de prenúncio da fartura que estava para vir, a
fartura das colheitas. Era um momento mágico, no sentido de que as
pessoas encenavam no Carnaval aquilo que esperavam que acontecesse dali a
uns meses», descreveu.

«Enterravam o velho, como se faz em vários sítios, que é o Inverno, a
fome, as dificuldades, e encenavam a fartura. O Carnaval é o tempo dos
banquetes, das comezainas, é aquele tempo em que, embora haja muito
pouco, se consegue juntar quase tudo para fazer uma grande festa».

Por exemplo, a ideia da Terça-feira Gorda, prosseguiu, é que «não há
Carnaval sem fartura e abundância de comida e de bebida – e partilhada,
não é cada um sozinho em sua casa; faz-se um grande banquete colectivo,
da mesma maneira que se faziam os banquetes no fim dos livros do
“Astérix”».

Era também uma época de revitalização de energias, esperando-se que «a
comunidade ressurgisse forte, porque durante o inverno ela enfraquecia,
cada um na sua casa, poucos acontecimentos públicos, poucas partilhas…
Então, o Carnaval é também uma encenação do que é a força de um povo –
eu diria mesmo a sua potência», sustentou Albertino Gonçalves.

«E engraçado é que a ideia com que se fica dos Carnavais é a de muita
gente a fervilhar, que faz um barulho de ensurdecer… É uma espécie de
corpo colectivo exuberante. Os corsos carnavalescos são elementos disso,
mas não são os únicos. O Carnaval encena, de algum modo, a potência [de
um povo], aquilo que ele é capaz de fazer acontecer, aquilo que é capaz
de realizar», frisou.

Com a passagem do tempo – e a passagem de uma sociedade eminentemente
rural para uma sociedade mais urbana, marcada pelo consumismo –, «a
celebração do Carnaval não faz o mesmo sentido, porque há muita coisa
que mudou», admitiu o sociólogo.

«O Carnaval também tem essa faceta de crítica e de pressão social e de
libertação em relação aos poderes. E depois, os carnavais que existem
ganham outros sentidos: o sentido do turismo, o sentido da festa…. Em
alguns casos é até um carnaval muito profissional, as pessoas estão
meses e meses a preparar-se», observou.

Segundo
Albertino Gonçalves, apesar de se terem alterado as condições iniciais,
o Carnaval continua a ser um fenómeno muito forte, e essa força, «que
ele reganha agora um pouco», advém-lhe de uma coisa nova.

Por seu lado, Moisés Espírito Santo sublinhou o aspecto de o Carnaval
ser historicamente uma festa de «libertação simbólica de todos os
constrangimentos, de toda a autoridade», em que «as pessoas mudavam de
papéis sociais, se disfarçavam daquilo que não eram» e criticavam
abertamente as instituições, a começar pelo Estado e pela Igreja
Católica.

Mas vincou igualmente que, com a ausência de tolerância de ponto na terça-feira «não se vai perder nada».

«O que se vai perder talvez sejam esses Carnavais espectaculares,
turísticos. Mas o Carnaval popular não perde nada com isso. O povo já
não tinha a terça-feira como feriado e o Carnaval não desaparece por
isso. É possível até que regrida para esse estatuto anterior, da
diversão pós-laboral».

Inquirido sobre se pensa que, devido ao período de austeridade que se
vive em Portugal, o Carnaval poderá «transvazar», Albertino Gonçalves
disse que «poderá haver um ou outro percalço» que, neste contexto,
«poderá ganhar uma visibilidade muito grande».

«Agora, há é uma outra coisa que não vai acontecer: o Carnaval de que eu
falei é um momento de esperança e este nosso Carnaval de terça-feira
não vai ser lá grande momento de esperança», concluiu.

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