Encerramento do Hospital de Lorvão impõe mudança radical na freguesia

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O encerramento do Hospital Psiquiátrico de Lorvão (HPL), ainda este ano, vai mudar radicalmente o quotidiano desta localidade do concelho de Penacova, cujos autarcas e população partilham diversas preocupações quanto ao futuro.


Dezenas de doentes, que residem no antigo mosteiro de Lorvão, continuam a passear na rua, a frequentar os cafés e a conversar com os vizinhos. Muitos ainda não se aperceberam da profunda mudança de vida que os espera com a transferência para outros locais.


O HPL “é património da nossa terra, porque garante emprego, dinamismo e movimento”, declara à agência Lusa o presidente da Junta de Freguesia de Lorvão, Mauro Carpinteiro.
A utilização do edifício é “uma das grandes preocupações” do eleito do PSD. Na sua opinião, o imóvel deveria manter serviços nas áreas social e da saúde.


“Foi-nos sempre alimentada a ideia de que estas instalações poderiam continuar enquanto resposta social”, lamenta.


O autarca, no entanto, critica a promessa do anterior Governo de construir de raiz duas unidades de cuidados continuados, para homens e mulheres.


Recorda que a própria ex-ministra da Saúde Ana Jorge, enquanto candidata a deputada do PS por Coimbra, defendeu essa solução nas últimas legislativas. O Estado “tem de olhar para o seu património. A menos que desista de cuidar daquilo que é seu”.


Ao considerar que o encerramento do hospital “prejudica muito” a economia local, Mauro Carpinteiro, licenciado em Direito, alerta que os comerciantes “vivem numa grande angústia”.


Integrado atualmente no Centro Hospitalar Universitário de Coimbra (CHUC), o HPL “foi o maior gerador de emprego” e impulsionou “uma grande dinâmica” associativa local, nos últimos 50 anos.


“Temos de sentarmo-nos à mesa para definir uma estratégia para o futuro”, defende. Sem excluir uma eventual resposta ligada à saúde, a comunidade “poderá tirar partido” do edifício para atividades de cultura, desporto e formação.


Funcionária da Junta do Lorvão há 30 anos, Bela Santos lamenta a saída dos doentes, um processo que está a ser estudado por uma comissão liderada pelo psiquiatra Pires Preto, que prevê a desocupação total do HPL ainda em 2012.


“Muitos doentes fazem parte de Lorvão. A população e os funcionários do hospital são a sua família”, sublinha.


Para Júlio Madeira, trabalhador do hospital e presidente da Assembleia de Freguesia, a extinção do HPL traduz-se numa mudança “extremamente complexa” para a vila.


António Marques, enfermeiro, salienta o papel da comunidade na reabilitação dos doentes. “Por vezes, mais valia estarem em contacto com a população meia dúzia de horas do que tomarem a medicação oito dias”, assegura.


Pires Preto admite à Lusa que, na sua maioria, os 89 doentes que residem no Lorvão poderão ser acolhidos por duas instituições de Condeixa-a-Nova e Miranda do Corvo.


Os doentes agudos e inimputáveis, médicos, enfermeiros e outros funcionários partiram há três anos para o antigo Hospital de Sobral Cid, em Coimbra.


Logo se notou uma “grande quebra” no comércio, lembra a dona da farmácia Pais dos Santos. “Estranhou o comércio e estranhou toda a população. Lorvão ficou muito deserta”, acentua Maria Ercília Santos.


Reunidos em dia soalheiro no exterior do HPL, alguns utentes fazem apostas sobre o seu futuro. Ironicamente, uma placa indica os 25 quilómetros que os separa de Coimbra.