ENTREVISTA com Daniel Pinheiro, autor do documentário “Vida selvagem do Mondego”

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Aliar o gosto pela imagem ao gosto pela biologia. Foi o que fez Daniel Pinheiro, um jovem de Coimbra, que no âmbito de um projecto final de mestrado decidiu mostrar ao mundo a vida selvagem do rio Mondego. Quatro meses foi o tempo necessário para a viagem desde a Serra da Estrela até à Figueira da Foz. O feedback nas redes sociais foi bastante bom e a estação televisiva SIC fez questão de passar o documentário cujo share de 31 por cento ficou a par dos da BBC.

Agora, o jovem está a preparar novos projectos e a procurar financiamento para eles. Ao VerPortugal conta a luta feita para tornar realidade um sonho, mostrando-se satisfeito com o produto final que, na sua perspectiva, só devia ser um pouco maior. 

VP – Como é que surgiu a ideia de fazer o documentário sobre a vida selvagem do rio Mondego?

Insere-se no projecto final do mestrado em Documentários de Vida Selvagem que fiz na Universidade de Salford, Reino Unido. Escolhi o Mondego porque, por um lado, queria que o primeiro trabalho fosse em Portugal e, por outro, porque estudei em Coimbra e moro nos arredores, sendo este um rio especial para mim.
O documentário mostra a história clássica de um rio com uma diversidade grande de paisagens e de espécies, desde a Serra da Estrela até à Figueira da Foz. Encontram-se sempre situações novas quer em habitats quer em espécies. Com este trabalho também é possível dar a conhecer as actividades sócio-económicas ligadas ao rio, além do lado selvagem.

VP – Ao longo do percurso efectuado para realizar o documentário o que foi encontrando?

A viagem pode ser dividida em três grandes áreas: a primeira é a montanha (Serra da Estrela), depois o planalto (mais ou menos de Celorico da Beira até Coimbra) e, em terceiro o Baixo Mondego de Coimbra até à Figueira da Foz.
O que se encontra no primeiro é o típico de habitats de montanha com o rio a correr muito rápido. Ali habita o melro de água que é uma das espécies principais da zona.
Na zona do planalto foquei-me essencialmente em anfíbios e répteis. Já no Baixo Mondego os personagens principais são os milhafres. Aliás na zona de Coimbra existe a maior colónia europeia de milhafres. Já na zona do estuário o foco foi para as aves limícolas. Devo referir que escolhi espécies características de cada habitat.

VP – Como é a vida selvagem em Portugal? Acha que temos uma boa vida selvagem?

Sim temos. Aqui residem muitas espécies endémicas da Península Ibérica, algumas das quais são exclusivas de Portugal. Temos uma grande variedade de espécies, principalmente aves e anfíbios que o grande público não conhece. Daí que uma das grandes vantagens deste tipo de documentários é divulgar as espécies endémicas que temos. Foi o que tentei fazer no caso da Salamandra Lusitânica.

VP – Qual foi o objectivo do filme? Só por causa do mestrado?

O objectivo foi integrar no mestrado mas, é óbvio também divulgar e promover Portugal como primeiro trabalho. O ponto de partida para outros. Tenho tido um feedback muito bom a julgar pela aceitação nas redes sociais, exibições públicas, seminários e conferências onde tenho participado. Foi-me também atribuído o prémio Seeds of Science especial 2012 e o “Mondego” está a concurso em vários festivais.

VP – Algum desses festivais com realização para breve?

Em Maio no Madeira Film Festival. A nível europeu também vou concorrer a alguns, mas será mais para o final do ano.

VP – Quanto tempo demorou a fazer este documentário?

Quatro meses, divididos em três fases. Um mês de pesquisa necessária para fazer o guião, investigação científica e contactar cientistas nacionais e estrangeiros. Um mês de filmagens cá em Portugal divididas em duas semanas na Serra da Estrela e outras duas em Coimbra e Figueira da Foz. Por fim, dois meses de edição.

VP – Durante esse tempo teve pessoas que o ajudaram. Alguma que queira destacar?

Não. Foram várias as pessoas que me ajudaram incluindo amigos, professores e biólogos. Não quero, por isso, destacar nenhum. Estou muito agradecido a todos. Toda a ajuda que tive fui decisiva para o sucesso do documentário.

VP – Teve aulas com David Attenborough, célebre produtor e apresentador de documentários da vida selvagem da BBC. O que aprendeu com ele?

Foi um dos professores convidados no curso. Tivemos um masterclass com ele. Este serviu para, além de aprender sobre produção de documentários, ficar a conhecer um pouco mais sobre o percurso dele e as aventuras que teve em mais de 50 anos de actividade. Ele é um comunicador excepcional. Não foi aquela aula típica, foi mais uma aula divertida onde nos pôs à vontade para o interpelarmos e nos deu alguns conselhos para a vida, profissionais e pessoais.

VP – Projectos para o futuro. Disse que este documentário foi o ponto de partida para outros. Já estão a ser preparados?

Sim. Tenho alguns projectos em mente e estou a procurar algum financiamento mas, por enquanto, ainda não tenho nada em concreto a não ser filmagens que vou fazendo para portefólio. Os grandes projectos estão numa fase muito embrionária.

VP – Qual a sua formação académica?

Fiz licenciatura em Comunicação e Design e Multimédia no Politécnico de Coimbra. Especializei-me em áudio e trabalhei dois anos na Fundação Calouste Gulbenkian.
Não segui Biologia por acaso, mas desde miúdo que tenho paixão pela natureza. Então vi aqui a melhor forma de conciliar as duas coisas. O audiovisual e a biologia, daí os documentários de vida selvagem. 

VP – Divulgou recentemente em Seia o documentário. Qual o feedback?

Gostaram muito, porque grande parte do documentário foi filmado na Serra da Estrela e os habitantes da região gostam de ver as suas paisagens e animais que têm por perto, alguns dos quais até desconhecem.
Em Coimbra, já tive oportunidade de o exibir e o feedback também foi muito bom. A atenção de quem assistiu centrou-se, sobretudo, nos milhafres e na história de Coimbra levemente abordada no documentário.

VP – Como é que olha agora para este documentário?

Com algum distanciamento agora vejo-o um bocadinho curto. O projecto tinha potencial para pelo menos o dobro do tempo. As pessoas também me perguntam porque é que não é maior. Por exemplo, um documentário da BBC ocupa um espaço horário de 50 minutos. O meu tinha no entanto limites como projecto final de mestrado. Tinha de ter entre 10 a 15 minutos e eu fui mesmo ao máximo. Tive de comprimir bastante daí dar a ideia de uma viagem muito rápida.

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