OPINIÃO – Um hotel em Penacova…

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QUEM, como eu, gosta desta vila de
Penacova, imaginou sempre a construção de um hotel, de onde se pudesse
vislumbrar a paisagem única que dali se avista, que é, sem dúvida, uma das mais
belas do distrito de Coimbra. De resto, seria voltar aos “bons velhos tempos”
(que nunca foram tão bons como os retemos na memória), altura em que um grande hotel
ocupava grande parte do largo do terreiro, que agora foi objecto de obras de
reconstrução urbanística. Obras discutíveis, como todas as do género, mas que
pretenderam afinal dar maior dignidade à praça do município e até um lugar mais
representativo à estátua de um dos maiores símbolos da Primeira República,
António José de Almeida, República (“coisa pública”) que este Governo tanto tem
desvalorizado, inclusivamente com a eliminação do feriado de 5 de Outubro.


Imaginou esse hotel nas imediações
do Penedo do Castro, cuja concepção se deve ao notável viajante das serras do
Buçaco, Augusto Simões de Castro, ou no meio da vila, de cujo largo sai a ramada
projectada pelo arquitecto Raul Lino, ou no promontório onde o visionário da
assistência Bissaya Barreto criou um Preventório, para educar crianças e preveni-las contra
situações de perigo de contágio (da tuberculose ou da sífilis, que constituíram
verdadeiras epidemias de morte), lugar onde no início do século XX se levantou
um mirante, por obra da Sociedade de Propaganda de Portugal e que tem o nome de
um dos seus dinamizadores, Manuel Emídio da Silva.


Os ares de Penacova — dizia-se —  faziam bem à saúde e os “aristas”
procuravam-nos, como os aquistas buscavam as águas medicinais do Luso ou da
Cúria e os banhistas as ondas do mar na cidade da Figueira da Foz ou nos
palheiros de Mira ou da Tocha. Outros tempos, mas em que as pessoas também se
cansavam e procuravam o repouso em Penacova, como encontro, deliciosamente descrito,
numa carta dos anos trinta do século passado enviada por Caetano Gonçalves a
Joaquim de Carvalho, dois dos prefaciadores (outro foi Hernâni Cidade) da colectânea
dos escritos de António José de Almeida. Afinal algo de idêntico ao que se vê
agora, talvez com mais intensidade, pois sentimos este vertiginoso movimento provocado
pelos automóveis, pelos comboios, pelos aviões, pelo computador e pela
Internet, pelo movimento dos centros comerciais e pelo seu consumismo, pelo
excesso de imagens e de sons da televisão e do telemóvel…, mas principalmente
pela pressão a que nos querem submeter. O Progresso foi sempre o progresso e
sempre trouxe desenvolvimento, a par do cansaço e da falta de sentido de
humanidade e de solidariedade. O Homem é sempre ele e as suas circunstâncias e também
o Homem unidimensional, que não muda, quando parece que tudo se altera.


O que queremos que permaneça é o
bem-estar, o qual também é um desejo de todos os tempos, embora só usufrua dele
quem pode, pelas vicissitudes da vida e da bolsa, situação grave em tempo de
crise. Como ontem me dizia a empregada de uma loja: “Crise?! Só para alguns. Para
outros nunca isto esteve tão bom”. Seja como for, um hotel num sítio como Penacova
é bom para todos ou quase todos: para os turistas, para as gentes da terra, para
a economia da região e do país.


Esse hotel surgiu, exactamente no
edifício do Preventório. Um hotel bonito, confortável, de bom gosto, embora,
naturalmente, com aspectos menos interessantes, que aqui se poderiam referir.
Mas, o Hotel de Penacova — que começou por ser o Palacete do Mondego e que, com
este nome parolo e inadequado, parecia pressagiar um futuro difícil — passou,
como o país, por variadas crises, sem dúvida por culpa das sucessivas
gerências, que recebiam mal ou menos bem não só os turistas de fora como os de
dentro (teria sido fundamental que um hotel de uma pacata vila, como esta, se
virasse também para os habitantes de Penacova, de Coimbra e das suas regiões),
e que tinha afirmações de novorriquismo (patego, como é sempre o novo rico),
esquecendo a simplicidade e a arte de boa hospedagem, que nos devem
caracterizar e que são a chave do sucesso.


Agora ali está, outra vez, o
velho Preventório abandonado, à espera que o tempo e o vandalismo o vão destruindo,
assim como sucede com o velho hospital, mesmo ao lado, que poderia e deveria
ter sido o prolongamento do hotel. Nem a Misericórdia, sócia maioritária do
empreendimento, nem a Câmara, que tem o dever de velar pelo desenvolvimento da
terra, e muito menos os sócios minoritários resolvem o seu problema. E assim,
para vergonha de todos nós, ali vemos o velho casarão sem vivalma, ao mesmo tempo
que a sinalética turística continua a apontar teimosamente para o seu caminho,
ostentando a placa inútil “Hotel de Penacova”.


Afinal imaginámos um hotel em Penacova,
ele fez-se, com as honras da inauguração pelo Presidente da República, e
rapidamente se desfez. Tal qual a sina deste país do
Fado, que todos os dias vê desfazer-se a imagem da democracia social com que
sonhámos. Poderá celebrar-se nesta vila o feriado municipal em 17 de Julho, dia
em que nasceu, em 1866, António José e Almeida, mas, se não houver qualquer
mudança, poderá hastear-se no dia 5 de Outubro a bandeira da República e
tocar-se o hino que é também da República (goste-se dele ou não), mas jamais será feriado nacional. Em 2012
terminará essa festa da Nação, por obra e graça deste Governo.


Um hotel não é, obviamente, tão importante
como um dia nacional, mas ambos são símbolos importantes, um da Pátria e outro
do Turismo da Região. Esperemos que nenhum deles morra de vez.

*Artigo de Opinião de Reis Torgal originalmente publicado na edição do Diário de Coimbra de 29.08.2012