MONTALTO: romaria secular cheia de tradições (revisitado)

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Mesmo em tempos de
apreensão quanto ao presente e ao nosso futuro, continua a fazer todo o sentido
falar das tradições locais. Para os penacovenses, em especial para aqueles que
vivem à sombra do Monte Alto, o dia 8 de Setembro é dia de Romaria. Data importante
que para muitos merecia ser dia de feriado municipal, em vez do actual 17 de
Julho. Este ano até calha bem e esse problema não se coloca, porque além dos motivos para  ser
feriado municipal, muitas vezes o que está em causa e se reclama,
é a disponibilidade em termos de emprego para poder celebrar determinada festividade ou efeméride.

 

Nas nossas leituras de
muitas crónicas que ao longo dos tempos foram sendo registadas em livros e em jornais
locais,  fomos encontrar um texto escrito
há cerca de setenta anos e que, por sua vez, relata a romaria do Monte Alto nos
finais do século XIX. Está assinado por um “Zé do Mirante” e faz
parte de um conjunto de crónicas intituladas “In Illo Tempore”. Hoje,
dia 8 de Setembro, parece-nos oportuno deixar aqui um resumo do mesmo, bem como
imagens do evento recolhidas nos anos oitenta pelo conhecido fotógrafo Varela Pècurto e
publicadas no seu livro sobre Penacova.


“Naquele tempo
toda a noite chiavam os carros de bois pela ladeira do Monte Alto com melancias,
melões, bojudos barris de vinhos e caixas de pirolitos.



Ainda o sol não
despontava na Serra da Atalhada e já as tias Vitais subiam a  ladeira com
a saias açoleiadas com os cântaros de
água fresca e as tendeiras de Algaça e Santa Maria iam de enfiada com os açafaites
de quinquilharias, tagarelando futuros lucros.



Ao meio da manhã, antes
do calor apertar, aprestavam-se os primeiros ranchos concentrando-se na Costa
do Frio. Depois partiam em fila indiana. As criadas e as pobres mães iam ajoijadas com os cestos dos farnéis. Pelo
cheirinho se adivinhava o que eles continham. Havia três poisos: ao cimo da
Quinta, para fazer  arruaça aos que
ficavam; à Pedra Poisa para refrescar a garganta e à Cadeirinha para rezar uma Avé
Maria à santinha no seu altar de pedra.


O Joaquim Catarino e
o Benêjo andavam a trote a juntar os farnéis para os carros de bois da D. Maria
da Pureza enquanto na casa da D. Joaquina de Melo e da D. Natividade se fazia
outro tanto. Só pelas onze horas é que deslizava a caravana com os carros
cobertos de verdura para ser mais fresco


O caminho de 4
quilómetros levava três horas a percorrer enquanto a ladeira levava 20 minutos
a subir; de forma que os estômagos faziam as suas reclama ções mas…o almoço
era só depois da festa…


Arraial à cunha. Findava
o sermão que o sr. Padre Pedro sabia na ponta da língua. Finalmente o almoço.
Ajeitavam-se assentos de feto, estendiam-se no chão, sobre o mato, alvíssimas
toalhas e vá de distribuir pratos de canja, lombo com batatinhas tostadas…



A sombra dos
pinheiros ia fugindo: era a hora da corrida aos petiscos. Uma perninha de
galinha? Uma isca de presunto? Um pires de arroz doce? Um copo de vinho? um
calice de rija? Vá um cafezinho…


Os estômagos bem
compostos é a altura de ir correr o arraial. À sombra enorme  do cedro os montões de melancias: havia-as de
10 reis a 4 vintens. Mas estas davam talhadas para vinte pessoas; as tendeiras
estendiam-se até à portaria da Chã, com bugigangas de mil feitios, anéis de
metais baratos e que luziam como oiro, assobios e flautas de lata…padeiras de
Gondelim e S. Paulo, com bolos untados de azeite; aos lados do arraial as
barracas do ti Daniel e do Ladroeira, as mais afamadas, porque tinham peixe do
rio frito nessa noite; limonadas às duzias e todas não tendo mãos a medir, num
vai-vem a caminho da fonte do Azevinhal…


Na capela era grande
a azáfama para receber as ofertas de trigo, centeio e milho, alinhando-se os sacos
já cheios ao lado dos mesários Arcipreste Leite e João Serra; o Zé Craveiro num
sarilho a guardar farnéis e a regular a distribuição da água da pipa. O Joaquim
Cabral a ralhar aos garotos que até os figos verdes comiam. O Casimiro a deitar
foguetes sem conta e o Francisco Guedes a comandar, gaiatamente, o gaiteiro.O ti Zé Carvalho a arrebanhar o rancho da
vila para irem dançar no lugar clássico- para o lado da vila.


Novos e velhos pobres
e ricos todos dançavam e cantavam modas apropriadas:



– Senhora do Monte Alto

Quem vos varreu o terreiro?

– Foram mocinhas da vila

Com raminhos de loureiro

A Senhora do Monte Alto

Mandou-me agora chamar

Que não desse trela a rapaz

Que não fosse p’ra casar…


Já o sol se escondia
para lá dos moinhos de Gavinhos e não havia pressa para descer a ladeira. Mais
uma vénia à Senhora do Monte Alto com uma súplica de lábios emudecidos… e
acabavam por partir.



Mas, noite alta ainda
no alpendre se ouvia a voz apiteirada
do Julião, a “pregar” o sermão do Padre Santo António e o Daniel e o Ladroeira
 a despacharem os fregueses e beberrões,
por já não terem mais vinho para misturar na água…”


David Almeida (08.09.2012)