Contrastes do dia do orçamento

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Enquanto à hora do almoço conversava com outra pessoa na Praça da República, em Coimbra, vejo um homem dos cinquenta e tais anos a remover os caixotes do lixo e a esvaziar os sacos de papel do Mac Donald, provavelmente à procura de restos de batata frita ou de hambúrguer. Nada encontrando, foi continuar a busca para o jardim da sereia, onde os jovens costumam comer este tipo de farnel.

Passados cinco minutos somos abordados por outro homem, na casa dos 40 anos, fato de ganga limpo e de bons modos, pedindo-nos uma ajuda para comprar “um pão com manteiga”. “Sabem, só tenho uma laranja, podem ver”, mostrando-nos o saco, “mas preciso de comer mais qualquer coisa”. Já estou desempregado há muito, … acrescentou.
Demos-lhe a nossa ajuda e despedimo-nos.
Saí dali com um enorme nó na garganta.
À passagem pela banca dos jornais, verifico os títulos:
Correio da Manhã dizia “Ministro das Finanças esconde salários milionários. Gestor da dívida pública ganha 300 mil euros” e no Expresso dizia que o Estado injeta 600 milhões de euros para ‘salvar’ o Banif.
E tudo isto no dia em que o governo apresenta na Assembleia da República o pior orçamento das últimas décadas, já classificado como bomba atómica, arrastão fiscal, assalto à mão armada, monumental roubo ao povo português, etc.
Percebe-se assim porque é que cada vez mais gente procura a sobrevivência nos caixotes do lixo e o aparecimento de cada vez mais mulheres à beira da estrada, expondo o corpo, à espera de um qualquer freguês!
E cumpre-se assim também a recomendação do Cardeal Patriarca de Lisboa: “Temos que fazer sacrifícios”, dizia ele há dois dias.
Até quando?
Eduardo Ferreira