SAÚDE – Encerramento dos Hospitais Psiquiátricos reduzem doentes para menos de três centenas

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O número de doentes
residentes em hospitais psiquiátricos caiu mais de 40% desde 2007, uma redução
que resulta da reorganização dos serviços de saúde mental e do encerramento de
unidades psiquiátricas, prevista no Plano Nacional de Saúde Mental que está a ser
concretizado até 2016.

Segundo dados
do Programa Nacional de Saúde Mental, em 2007, quando o plano entrou em vigor,
havia cerca de 700 doentes residentes em hospitais psiquiátricos públicos, um
número que desceu para 412 no ano passado.

Depois do
encerramento, em 2011,
do Hospital Miguel Bombarda, em Lisboa, nos últimos dois meses foram também
encerradas mais duas unidades psiquiátricas na região Centro – o Centro
Psiquiátrico de Recuperação de Arnes e o Hospital do Lorvão. Com o encerramento
destes hospitais, os doentes, na maioria dos casos com internamentos muito prolongados,
têm sido transferidos para instituições particulares de solidariedade social.

De acordo com
o director do Programa Nacional de Saúde Mental, Álvaro de Carvalho, das
grandes unidades de psiquiatria “já não há mais nenhuma para
encerrar”, ficando apenas a funcionar, no sector público, o Hospital
Sobral Cid, em Coimbra, o Hospital Júlio de Matos, em Lisboa, e o Hospital
Magalhães Lemos, no Porto. No entanto, no âmbito da reforma dos serviços de
saúde mental está prevista também a transferência de algumas valências que são
hoje prestadas pelos hospitais psiquiátricos para os departamentos de
psiquiatria dos hospitais gerais, como os serviços locais de saúde mental.

“É o fim
de um ciclo na saúde mental em Portugal. Julgo que é a opção correcta porque nos
permite direccionar os recursos hospitalares para os casos mais agudos,
enquanto estes doentes, crónicos e com internamentos muito prolongados, terão
respostas mais próximas da comunidade”, diz Reis Marques, director do Serviço de Psiquiatria dos Hospitais da
Universidade de Coimbra, a unidade responsável pela transferência e acompanhamento
dos doentes que se encontravam nos hospitais de Arnes e do Lorvão.

O
encerramento destas unidades psiquiátricas vai ao encontro da estratégia
definida no Plano Nacional de Saúde Mental, que aposta no desenvolvimento de
respostas de cuidados continuados integrados para doentes mentais graves, em
vez de ficarem confinados em instituições psiquiátricas. “As respostas
psicossociais para doentes mentais graves e estabilizados permitem estimular
capacidades perdidas – as pessoas têm um prognóstico muito melhor no longo
prazo. Para além disso, as estruturas hospitalares psiquiátricas de grande
dimensão são muito caras”, justifica Álvaro de Carvalho.

Reduzir
custos

Num hospital
psiquiátrico, a diária de um doente ronda os 83 euros. Com os protocolos
assinados com instituições particulares de solidariedade social, esse valor
desce para metade. “A questão financeira é importante, porque esta
transferência permitiu reduzir sensivelmente para metade os custos das diárias
dos utentes. Mas as condições que exigimos são boas instalações e a prestação
de cuidados terapêuticos e de reabilitação de qualidade”, afirma Reis
Marques.

Apesar de
toda a legislação de cuidados continuados para a área da saúde mental estar
feita, as respostas no terreno não estão ainda todas criadas em todo o país.
Segundo Álvaro de Carvalho, estas respostas serão desenvolvidas de acordo com
as possibilidades financeiras na área da saúde: unidades de convalescença,
residências inseridas na comunidade, unidades sócio-ocupacionais, equipas de
apoio domiciliário e equipas de saúde mental comunitária são algumas das
valências previstas no Plano Nacional de Saúde Mental.

“O
grande desafio é que, não havendo um acesso tão fácil ao internamento hospitalar, as
respostas das instituições de saúde aos utentes terão de ser muito mais
rápidas. Isto exige um trabalho em rede, de articulação dos hospitais com as
respostas inseridas na comunidade. E isso será um desafio, porque os hospitais
estão porventura demasiado autocentrados e virados para dentro”, defende
Álvaro de Carvalho.


Fonte www.publico.pt