Quem se indigna ?

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Vocês são execráveis. Estão a
falar em números que me constrangem: 25 mil euros por mês não vos chega para
viver? Ao longo dos últimos anos capitalizaram. Isto é uma fantochada”.
As televisões estavam lá e os
telejornais abriram com este episódio, mostrando o ex-funcionário do BCP,
Fernando Loureiro, que ousou erguer-se dirigindo-se a Filipe Pinhal,
ex-presidente do mesmo banco e um dos fundadores do Movimento dos Reformados
Indignados – mostrando-se indignado com alguns indignados.
A partir daí levantou-se um coro
de críticas aos membros deste recém-criado movimento. Dos mais anónimos aos
mais mediáticos. Com algum destaque para Silva Lopes, antigo ministro das
Finanças, que considerou que o valor da pensão de Filipe Pinhal, é uma
“extorsão”, ripostando ao que Pinhal dissera aquando da apresentação
do seu movimento, classificando de “extorsão” os cortes que a sua
pensão iria sofrer. Lembro que o ex-presidente do BCP está reformado pela
instituição e foi, durante o polémico processo de saída, após o escândalo das
“off-shores”, acusado de receber uma reforma milionária.
Os incidentes que têm marcado a
indignação com os indignados suscita alguma reflexão e merece que nos
detenhamos a colocar em perspectiva aquilo que está em causa. A estrutura
liberal das democracias admite a diferenciação de vencimentos, que se torna
mais aguda quando estamos perante tendências neoliberais de recuo do Estado e
emersão de iniciativa privada. Este é um princípio económico incontornável.
Todavia, a perversão espreita à esquina. E permite que pensões elevadas (que
podem rondar, neste caso, os 70 mil euros mensais), esmaguem a moralidade
pública, tratando com um gritante menosprezo o desemprego e as remunerações
mais baixas. Concordo que quem trabalha, produz e gera riqueza para si e para a
sua comunidade tenha direito a uma certa diferenciação. Mas a diferenciação
infinita é perniciosa e muitas vezes desumana, sobretudo quando assistimos no
País aos muitos que têm pouco.
Há cada vez mais gente a viver
com menos recursos. E não nos podemos deixar de nos indignar com isso! Fica
mais patente neste caso a ideia de luta de classe que se impôs a toda a leitura
política contemporânea. A ideia verídica de que há os que têm e os que não têm.
Uma ideia de que a opressão – que tem várias faces – só oprime quando se
reconhece opressiva e não apenas quando se reconhece opressora.
Há uma nova tenda moral que temos
de armar na sociedade. Uma enorme tenda onde todos caibamos. Uma tenda onde teremos
de nos entender, em que teremos esclarecimentos a fazer, solidariedade a praticar.
Uma tenda com novos propósitos, reerguendo o primado republicano de igualdade,
liberdade e fraternidade.
Um novo contrato social, em que o
Estado Social não é suprimido e uma moralidade democrática assente nos
princípios éticos de respeito pelo ser humano.

Artigo de opinião originalmente publicado na edição impressa do Diário de Coimbra de 18.03.2013