A laranja está podre?

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Passaram 3 dias sobre a demissão
de Vítor Gaspar. Muito ouvi falar sobre a sua carta de demissão. Os
comentadores políticos e os “fazedores de opinião” fizeram sobre este texto,
que classifico como um singelo acto de contrição do ex-ministro, as mais
variadas sinopses. Todos os que ouvi alinhavam por um mesmo argumento
estruturante: a carta de Gaspar é uma crítica acesa ao governo! Depois de ler
fiquei a pensar que alguém precisa de ter aulas de Português no sentido de
melhorar as suas competências no campo da interpretação. Posso ser eu, é um
facto, mas a minha imodéstia obriga-me a pensar que serão os comentadores e
fazedores de opinião. Estes, à falta de substrato, não têm um pingo de vergonha
de inventar e, parafraseando uma pessoa das minhas relações, “ de uma vírgula
fazem um orçamento de estado!”. O texto do Gaspar é o texto de um homem
derrotado, que, incapaz de continuar a apostar numa estratégia que ele há muito
sabe descabida e incapaz de dar os frutos para os quais foi (ou deveria ter
sido!) concebida joga a toalha ao chão, como faria qualquer derrotado num
qualquer jogo. Usa o argumento do “chumbo do tribunal” a algumas das alíneas do
orçamento, não lhe passa pela cabeça, e isso é que eu não entendo, que o
tribunal não falhou, quem falhou foi o governo ao fazer dois orçamentos que
violam repetidamente a constituição. Nesta matéria o erro do Tribunal foi abrir
o regime de excepção aquando da primeira vez. Este governo deveria ter vergonha
de ser incapaz e incompetente no cumprimento da constituição, que todos juraram
defender. Voltando ao texto do Gaspar, tenho dificuldade em vislumbrar a tão apregoada
crítica ao governo, excepção feita ao advérbio de modo (não sei se ainda se
chama assim…) “atempadamente” escrito em itálico e que de facto encerra em si
alguma dor, tudo o resto é simples e claro: a receita falhou, não se vai
conseguir tirar o pais do buraco recorrendo a estes fármacos, a única coisa
conseguida foi mais tempo de agonia para os portugueses com o prolongar do
tempo de resgate. Os comentadores contrapõem o valor incalculável da correcção
da despesa do estado (que raio de falácia é esta???) e da correcção da conta
externa (outra???) efectuadas por Vítor Gaspar, mas na vida das pessoas que
significa isto? Que ganhou Portugal ou o Povo português? Mais dificuldades,
mais sofrimento, mais desemprego, menos acesso à saúde, maior custo de vida…
raio, não será chegada a hora de os políticos encararem o país como algo mais
do que um território (por eles posto) a saque pela finança?

Também se pode inferir da carta
que, quando iniciou funções o país estava mergulhado numa profunda crise
orçamental e neste momento tem mais umas quantas em mãos a somar à primeira, a
financeira, a económica e, a mais terrível de todas, a social. Entristece-me
ver que este homem nem sequer assume a sua responsabilidade no actual estado de
crise social, esta mais da sua responsabilidade que de qualquer outro, embora
em parte derive da crise orçamental, e nesta só lhe poderá ser imputada a
responsabilidade decorrente da sua acção governativa e não a anterior.
Por fim vou regressar ao início, os comentadores
políticos que analisaram até ao inexistente a carta de Gaspar fazem-no em nome
de que deus? Até parece que estão ansiosos por eleições antecipadas, que
trabalham a favor de um qualquer partido, sob orientações directas ou
indirectas. Os portugueses confrontam-se com uma situação trágica, os dois
partidos que sempre foram governo, e que por isso são os únicos CULPADOS dos
actuais estados de crise, atravessam sérias crises de liderança, ou melhor
estão em plena guerra civil, logo ambos ganham com um cenário de eleições antecipadas,
podendo reformular as suas lideranças tendo por base os resultados eleitorais.
Mas teremos nós de suportar essas loucuras e megalomanias partidárias? Portugal
merece outra coisa que não a patetice de Seguro que nunca consegui articular
uma única ideia (credível) para o país, mas precisa de se livrar da tolice de
Passos Coelho, homem que se tornou primeiro-ministro por acidente legislativo,
que o seu partido bem lhe conhece o percurso. Claro que não podemos esquecer
Portas, o homem que conhece todas as estratégias para se manter aberto ( ou
Porta aberta…) a qualquer eventualidade. Que fazer? Que cenários se nos
apresentam? Cada vez mais me considero cidadã de um país entregue aos bichos, e
não me refiro aos do Torga…
Deixo para reflexão um artigo da Constituição da
Republica Portuguesa
Artigo 117.º
Estatuto dos titulares de cargos
políticos
1.
Os titulares de cargos políticos respondem política, civil e criminalmente
pelas acções e omissões que pratiquem no exercício das suas funções.
2. A lei dispõe sobre os
deveres, responsabilidades e incompatibilidades dos titulares de cargos
políticos, as consequências do respectivo incumprimento, bem como sobre os
respectivos direitos, regalias e imunidades.
3. A lei determina os crimes
de responsabilidade dos titulares de cargos políticos, bem como as sanções
aplicáveis e os respectivos efeitos, que podem incluir a destituição do cargo
ou a perda do mandato.

Anabela Bragança