Uma demissão nunca vem só

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Em boa verdade, a demissão de Vítor Gaspar não causa
surpresa. Tal como até não causa surpresa a demissão de Paulo Portas. Da mesma
forma que não causa surpresa o discurso atabalhoado e lamentável de Passos
Coelho quando ensaiou uma triste explicação ao País, indigna de um
primeiro-ministro de Portugal. Nada disto nos provoca surpresa por uma razão
simples: com este Governo, temos a certeza que o pior é sempre possível.

A austeridade atinge os portugueses? O Governo
encarrega-se de a agudizar. O desemprego desassossega as famílias? O Governo
incumbe-se de extinguir postos de trabalho. As pessoas queixam-se dos impostos?
O Governo mandata o fisco para levar o resto. Os cidadãos estão desprotegidos?
O Governo celebra com a Troika a amputação do Estado Social.
Diante disto, o triste teatro das demissões e dos
desamores de Passos com Portas, é apenas mais um acto funesto no nosso
degradado ambiente político. PSD e CDS cavaram esta crise. São os únicos responsáveis
por ela e pelas suas consequências.
Parecendo viver um pesadelo, os portugueses nem
acreditam que o Governo moribundo continue de pé, fingindo existir, à revelia
do povo. O PSD e o CDS mantêm um casamento de conveniência quando a crise
conjugal já atingiu um nível insustentável. A solução hipócrita (consentida
pelo Presidente da República) em manter as aparências, fingindo que afinal tudo
está bem, que os cidadãos vivem satisfeitos e que o País segue uma linha próspera
de crescimento e de emprego, entorpece a democracia e mina a confiança dos
cidadãos nas instituições democráticas.
A verdade é que PSD e CDS não confiam um no outro,
mesmo que agora finjam ou ensaiem um novo entendimento. E os portugueses já não
confiam em nenhum deles! Mas o mais estranho é que nenhum consiga perceber que
o País já não tem paciência para eles. O País agradece que emigrem, como mandou
o líder do PSD fazer aos nossos jovens e desempregados! Esta é uma coligação em
aflição que teima em segurar-se ao poder, sem rumo, sem ar e em agonia.
Portas demitiu-se por não gostar do nome da ministra
das Finanças. Amuou e deitou o Governo abaixo. PSD e CDS ignoram que não é
apenas dos rostos que as pessoas mais se fartaram, mas sim de uma política que
nos empobrece e que favorece os mais fortes e enfraquece a grande maioria dos
portugueses.
Cavaco demora a ouvir a voz os Partidos. Espera tempo
demais. Sabe que terá à sua frente uma voz poderosa. Uma voz que representa a
grande maioria dos cidadãos.
Cavaco, com esta demora, quer manter o Governo mais
tempo ligado à máquina, fingindo, ele próprio, que acredita num novo acordo
entre CDS e PSD que sabe que não é possível, nem credível nem duradouro.  
O Presidente sabe que o País se está a afundar. Sabe
que o dilúvio está instalado. Permitiu a fuga para a frente, quando pela frente
está o povo, debruçado sobre a desgraça em que o Governo o deixou. Chamar os
cidadãos a pronunciar-se nas urnas seria o mais sensato! Quem tem medo da voz
do povo? De costas voltadas para o dilúvio, vejo o PSD e o CDS. Vejo ambos a
brincar à chuva. Uma mão amiga e presidencial protege-os da chuva com um chapéu
roto, que a indignação do povo se encarregará de rasgar.
 

*artigo de opinião originalmente publicado na edição impressa do Diário de Coimbra de 08.07.2013