Triste e revoltante!

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Ser Bombeiro Voluntário, para mim, sempre foi uma coisa perfeitamente normal! Cresci, tal como outros, a correr até o Mirante para ver o “Land Rover” a atravessar a ponte, desejando um dia nele poder ir, de preferência a tocar a sirene! 

Perigos, já naquele tempo existiam, mas eram perigos pouco calculados, mais relacionados com a falta de sensibilidade para as questões que mais tinham a ver com a segurança, ou falta dela, que envolvia aqueles que pretendia chegar ao incêndio, do que com a atuação dos voluntários no “teatro de operações”. Era comum vermos bombeiros dependurados nas traseiras, ou em cima do tanque das viaturas, desafiando com destreza, alguma sorte e ingenuidade, a gravidade das curvas e contra curvas da estrada que os levava ao incêndio.

Hoje, ser bombeiro voluntário é, acima de tudo, ser um pilar de sustentação da sociedade! Quanto mais forte e coeso se mantiver, melhor capacidade tem para enfrentar os desafios que todos os dias, com cada vez mais frequência, se lhe apresentam. É fundamental a existência de alguém que nos acuda e proteja nos momentos que mais nos afligem!


Ser bombeiro hoje, é muito mais do que era há 20 ou 30 anos atrás, quando não existiam equipamentos e instalações adequados, quando as botas daquele que estava a descansar, serviam para aquele que tinha acabado de se levantar. 


Ser bombeiro hoje, e a meu ver, para além de ser bonito e vistoso, ao ponto de fazer qualquer um sentir-se orgulhoso, é estar preparado para enfrentar os mais perigosos desafios que a natureza tem para nos demonstrar. Combater um incêndio de grandes proporções é um exercício que tem tanto de exigente como de extenuante, para o qual poucos estarão preparados. Não bastam os melhores e maiores meios para acudir ao desespero! Não bastam as promessas de que, para o ano tudo será diferente e nada será como dantes. A solução está a montante, na forma como cada um lida com a floresta, na capacidade que temos de a tornar menos vulnerável aos fogos que todos os anos, por ela alastram sem controlo. 

É triste e revoltante que uma jovem que quis ser bombeira, talvez na expetativa de, com isso, poder acabar o curso superior para, quem sabe, servir cada vez mais e melhor, a casa e a causa que escolheu servir, sucumba à violência de uma realidade que deveria ser enfrentada por homens e mulheres, dedicadamente preparados para o fazer.
É triste e revoltante, que quem manda olhe para os voluntários como a única, e última, solução para acabar com a tragédia que todos os anos se abate sobre as nossas florestas, numa luta sem quartel e traiçoeira, fruto da irresponsabilidade de muitos daqueles que desprezam a ideia de lhes dar o reconhecimento merecido.

Com a morte da Rita, subiu para três o número de mortes que ocorreram este ano, vítimas da traição e da impetuosidade do fogo!

Quantas mais vidas serão precisas para que os responsáveis pela proteção civil do nosso país, entendam que apagar fogos não é tarefa que se exija a voluntários, mas sim a profissionais que se dediquem em exclusivo e aturadamente, a esse desafio?

Quantos mais bombeiros terão que sucumbir, até que os nossos governantes percebam que o combate aos incêndios não começa no verão, mas sim muito antes, dando incentivos aos interessados e impondo castigos aos desleixados, por uma gestão mais cuidada das florestas.
É triste que ainda pensem que tudo se resolve com milhões de euros, e que aqueles que tombam em serviço, acabem por servir de estímulo aos que ainda vão resistindo ao sufoco cíclico de uma inexorável realidade. 


O fogo é o maior ladrão, sempre ouvi dizer. [foto]

Pedro Viseu

3 COMENTÁRIOS

  1. Não conheço a realidade de Portugal nas suas entranhas, mas sei das diversas dificuldades que esse país enfrenta, até porque tenho amigos portugueses que vez ou outra relata algum episódio ou situação. Minha vontade é de um dia poder conhecer esse maravilhoso país. Parabéns Pedro Viseu pela belo texto. Pelo que percebi ele relata uma realidade de descaso pelas autoridades do bom uso da prevenção. Continue sempre assim, dando voz a toda a gente. Sou Gideone Rosa do Brasil, da cidade de Jataí no estado de Goiás e dono do Jataí News. Abraço forte e sucesso sempre.