Memórias com Penacova – “A Barragem e a Foz do Dão”

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Nota do autor: Esta crónica pretende ser a primeira de algumas que, sem calendário fixo, serão aqui publicadas e que retratam Penacova e os seus lugares, tempos, espaços, geografias e estados, vividos e sentidos na pessoa do seu autor e às quais não deve ser imputado rigor histórico.
                                    Inauguração da “Ponte Salazar”, na Foz do Dão, em 1935.

                   

«Não era tanto o conceito em si que
impressionava mas o que havia à volta dela. Um bairro construido porque a
barragem crescia, no vale do rio, e as casas dos operários com as famílias
dentro delas foram postas ali, para o efeito e as pessoas eram de todo o lado
vivendo portanto lado a lado com a construção do grande muro de cimento que
travava as águas. 

Considerava-a um lugar distante porque cheio
de gente de muitos lados e era como se ir lá fosse uma viagem a um outro país,
porque as pessoas estranhas enfiadas em casas de madeira 
pré-fabricadas
para as quais as pessoas das aldeias vizinhas
olhavam de soslaio porque não de cimento e tijolos e por isso as perguntas
sobre a sua solidez, os estores brancos e os tapetes na entrada, as casas
alinhadas, coladas umas às outras, todas iguais, as mulheres à janela
espreitando os filhos deslocados na rua, outras estendendo a roupa nas cordas e
pelo canto dos olhos as panelas no fogão por via dos caldos não saltarem das
paredes e o fogão sujo.
Ao
lado das casas, crescendo pelas encostas do vale, a grande parede em
construção, cinzenta e cheia de ferros e tábuas, máquinas que se aprontam junto
a ela e a fazem crescer, juntamente com os homens que como formigas as manobram
ou lhe esfregam as costas, sendo que o esfregar as faz crescer, como aliás tudo
as faz crescer, crescer para parar as águas rebeldes do rio.
A
dada altura alguém me explicou que uma aldeia que visitava frequentemente iria
desaparecer na ditadura das águas que entretanto iriam começar a trepar as
encostas do vale onde as casas se arrumavam sem ordem, casas que iriam
desaparecer no escuro das águas e a velha Ponte de Salazar a desaparecer com
elas e Salazar, já quieto na tumba, sem expressão, morto e as raízes da
oliveira a entranharem-se-lhe por entre o que restaria do seu corpo branco.
A
Foz do Dão era uma aldeia que se resumia à ponte e as lampreias, uns bichos
compridos, bastante feios, algures entre as cobras e as enguias e que via estrebuchar
nas bacias lá de casa, aguardando o arroz da companhia, adivinhando a morte e
depois às postas em travessas, cobertas de sangue cozido. 
Por
lá passava a estrada para a vila de Santa Comba Dão, ambas benzidas pelo rio
que se lhes entranha no nome e pela sombra de Salazar que deu nome à velha
ponte em 1935, uma figura presente, feita raíz funda nos espaços e na
respiração das pessoas. Algumas ainda falavam dele enquanto faziam vénias de
respeito e deferência, como se o pressentissem por trás dos seus ombros


Ouço o que dizem de mim!
e o cuidado na
escolha das palavras, no tom e sempre o velho Presidente de nariz adunco,
beirão, vigiando as sombras por baixo da expessura das sobrancelhas, escutando
as vozes, esfíngico na sua expressão de uma secura beirã.
Quando as águas subiram comecei a
ter medo porque as casas da aldeia vazias de vida e gente, a ponte já submersa
a ligar escuridões quietas nas margens que passaram a ser fundo, sendo
engolidas num vagar de tortura pelos limos e nem mais uma motorizada, um trator
ou um carro de bois, uma viuva com um feixe de lenha à cabeça e avental
cinzento por cima das roupas escuras, rebanhos de ovelhas e cabras tilintando
chocalhos, os cães soltos cambaleando as línguas e ladrando à aragem e às
biciletas e o focinho encostado às pedaleiras, ladrando nervos, atirando-se aos
pneus dos poucos carros, no tropel das quatro patas e com as orelhas
recolhidas.
Depois
a barragem pronta. 
Enorme e tanta água parada atrás dela e o bairro ao lado,
uma terra que se plantou ali, cresceu e decidiu ficar, servindo de aviso às
povoações vizinhas cujos filhos deveriam evitar porque mal frequantada, os
estigmas da gente de fora, sem amarras, sem referências, sem amor à terra, de
passagem, de modos que a barragem mudou o mundo ali à volta que não apenas as
águas do rio e depois dela os nevoeiros, aldeias fantasma e  tantos retratos rasgados, paredes sem
molduras e pessoas solenes fotografadas, olhando-nos à mesa, sem salivar a
ementa, entes já entregues que por vazes parecem gritar de dentro das molduras,
a suspeição de um movimento, um piscar de olhos e no entanto nada. 
Mudos e
quietos, já não naquelas paredes bloqueadas pela água fria e as memórias
subindo em pequenas bolhas até à tona e se não rebentadas pelos peixes,
espalham-se ao sopro dos ventos desfazendo-se, nas cozinhas alguidares vazios
de lampreias porque estas presas pela grande parede que não entendem, o tempêro
nos frascos, o arroz nos pacotes e as cozinheiras dedilhando as cinturas com o
nervoso das mãos.»

©António Luís

 

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