Dia Mundial da Floresta

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Com um conjunto de iniciativas, um pouco por
toda a parte, celebra-se hoje o dia Mundial da Floresta com o objetivo de recordar
a importância vital que a árvore tem para a preservação do ecossistema, tal
como o conhecemos, e na sua função decisiva para a manutenção da vida de cada
um de nós.
Apesar disso, a floresta continua a ser
desbaratada, esquecida, abandonada, mal tratada e só nos lembramos
verdadeiramente dela, exatamente neste dia e no Verão quando a vemos desaparecer
sob o efeito terrível dos incêndios florestais.
Durante todo o ano, quando devíamos cuidar
dela, limpá-la e preservá-la andamos distraídos, porventura com outras coisas também
importantes, mais mediáticas e valorizadas no curto prazo. Depressa chegam o
Verão e o calor, e, novamente, os incêndios florestais voltam a lembrar-nos que
afinal existe floresta. Nesta altura, os culpados do costume, os Bombeiros, a
falta de equipamento, a escassez de meios aéreos, a falta de formação e de
profissionlismo. Vamos todos a correr, fazer inquéritos, relatórios, livros
brancos. Apresentam-se com pompa e circunstância e alguma polémica à mistura
para dar um pouco de picante. Muda-se a legislação, aumentam-se as coimas. Tudo
parece voltar a ficar resolvido.
Após os grandes incêndios de 2003 e 2005 os
Bombeiros Portugueses foram acusados de impreparação e incapacidade para fazer
face às grandes dificuldades. O poder político, à época, não acreditando na
capacidade dos Bombeiros, ou apenas para mostrar serviço, criou outra estrutura
de combate no seio das forças de segurança, instituiu o Comando da Proteção
Civil e julgou que com isso resolvia o problema. Nada mais errado.
Os anos seguintes foram de alguma acalmia,
devido essencialmente às condições meteorológicas, mas quando estas voltaram a
ter um grau idêntico de severidade, como em 2010 e 2013, os incêndios voltaram
a ter exatamente a mesma expressão.
Isto prova que a dimensão do problema não está
no combate, prova que não é a falta de preparação dos Bombeiros Portugueses, prova
que também já não é a falta generalizada de equipamento. Antes pelo contrário,
não temos dúvidas em afirmar, que face ao envelhecimento da população, o
abandono progressivo do interior e à desertificação das nossas aldeias, tudo
seria bem pior se não fosse a enorme capacidade dos Bombeiros Portugueses e a
confiança que a generalidade da população neles deposita.
O problema é por isso muito mais abrangente e
necessita ser continuamente aprofundado.
Nos últimos anos, a floresta e tudo o que a
rodeia tem sido alvo de inúmeros estudos e trabalhos científicos. Não podemos estar
mais de acordo com esta estratégia de uma aposta continuada na formação, na
investigação, no conhecimento científico colocado ao serviço dos agentes dos
diversos pilares a defesa da floresta. Mas isso só não chega.
O conhecimento já produzido nos gabinetes
precisa ser transferido para o terreno. A rede viária florestal, as faixas de
proteção, o ordenamento e a diversidade de espécies florestais, a limpeza das
bermas, as faixas de gestão de combustível. Não, nada disto se faz no conforto
do gabinete. Trabalho real, objetivo e concreto na floresta é o que precisamos.
Precisamos continuar a prevenir mais do que a remediar.
Precisamosinverter o modelo e investir mais na
prevenção do que no combate.
Precisamos colocar a floresta permanentemente
no topo das agendas política, económica, mediática e social e não apenas no dia
que lhe é dedicado.
Este é o novo paradigma que precisamos abraçar,
sem calculismos, sem interesses, sem acusações.
Oxalá que este dia sirva de reflexão. 

António Simões, Presidente da Federação dos Bombeiros do Distrito de Coimbra – texto originalmente publicado na edição impressa do AS Beiras de 21.03.2014

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