O Voluntariado, os Bombeiros e a Juventude

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As Associações de Bombeiros são na sua essência, agrupamentos de civis que de forma organizada promovem a salvaguarda dos bens e haveres dos cidadãos, apesar de terem sido inicialmente constituídos à mais de 600 anos com a função de combate a incêndios, as funções dos bombeiros alargaram-se para quase todas as áreas da proteção civil


O objetivo principal de qualquer Associação de Bombeiros é manter um Corpo de
Bombeiros – unidade operacional tecnicamente organizada, preparada e equipada
para o cabal exercício de missões de auxílio e socorro.
Na
sua orgânica são compostas por uma Direção que é constituída por 3 órgãos, a
saber: A Assembleia Geral, O Conselho Fiscal e o Órgão Executivo, têm por
função, gerir administrativamente e financeiramente as atividades decorrentes
da prestação de serviços de Proteção Civil, bem como criar condições
financeiras para dotar o Corpo de Bombeiros de capacidade técnica, equipamentos
e formação, para que os seus elementos possam atuar com segurança e
conhecimentos que permitam participar nos mais diversos cenários de emergência.
O
Comando tem a seu cargo a supervisão operacional do Corpo de Bombeiros, por
inerência é o elemento de ligação entre a gestão operacional e administrativa
das Associações de Bombeiros.
Em
Portugal existem quatro tipos de Corpos de Bombeiros: Bombeiros Profissionais
(oficialmente denominados Bombeiros Sapadores), Bombeiros Voluntários,
Bombeiros Militares e Bombeiros Privativos (de empresas industriais, florestais,
etc.). Existem ainda corpos mistos, compostos por Voluntários e Profissionais,
denominados Bombeiros Municipais.
Os
Corpos de Bombeiros Sapadores e Municipais existem por regra nos municípios
mais importantes, constituindo um departamento dependente da respetiva Câmara
Municipal. Enquanto os Corpos de Bombeiros Sapadores são inteiramente
constituídos por profissionais, os municipais englobam tanto profissionais como
voluntários em tempo parcial.
Atualmente
existem apenas os seguintes corpos de Bombeiros Sapadores:
Batalhão
de Sapadores Bombeiros do Porto; Companhia de Bombeiros Sapadores de Gaia;
Regimento de Sapadores Bombeiros de Lisboa; Companhia de Bombeiros Sapadores de
Coimbra; Companhia de Bombeiros Sapadores de Braga; Companhia de Bombeiros Sapadores
de Setúbal.
Bombeiros
Militares pertencem ao Exército, Marinha e a Força Aérea, dispõem de Corpos de
Bombeiros para combate a incêndios e operações de socorro em algumas das suas
unidades. Os Bombeiros das bases da Força Aérea Portuguesa são chamados
Operadores de Sistemas de Assistência e Socorro (OPSAS). Os Bombeiros das
unidades da Marinha são chamados Especialistas de Limitação de Avarias.
Na
Guarda Nacional Republicana foi criada em 2006 uma unidade especializada em
operações de combate denominada Grupo de Intervenção de Proteção e Socorro
(GIPS). O GIPS funciona como uma força de bombeiros de elite cujas equipas
atuam rapidamente, transportadas por helicópteros ou veículos ligeiros, em
áreas ameaçadas de catástrofe, realizando uma primeira intervenção até à
chegada de reforços com equipamento mais pesado.
Ao
longo da História os Bombeiros têm-se adaptado à evolução das atividades
humanas, inicialmente no Séc. XIV eram conhecidos como «os pregoeiros» da
cidade, D. João I ordenou que saíssem de noite pela ruas, a avisar, em voz
alta, os moradores, de que deveriam tomar cuidado com o lume em suas casas.
  
Mas
só no Séc. XVI, se introduziu em Lisboa, o sistema usado em Paris, tendo o
Senado aprovado a aquisição de diverso material e equipamentos, foi nesta
altura que foram criados os primeiros Quartéis de Bombeiros que não passavam de
lojas onde eram armazenadas as ferramentas de combate a incêndios.
  
Apenas
em 1681, forma adquiridas na Holanda, duas bombas e uma grande quantidade de
baldes de couro, sendo distribuídos 50, por cada bairro. Os pedreiros, os
carpinteiros e outros mestres passaram a ser alistados para o combate aos
sinistros, ficando sujeitos a uma pena de prisão por cada incêndio, a que não
comparecessem.
Em
1722, no Porto foi fundada A Companhia do Fogo ou Companhia da Bomba, era
constituída por 100 “homens práticos”, capazes de manobrarem a “Bomba, machados
ou fouces”.
 
O
termo “Bombeiro”, que está intimamente ligado às bombas, um dos equipamentos
mais avançados para a época, e que as Corporações consideraram da maior
utilidade, surgiu, pela primeira vez, em Lisboa, no ano de 1734. Neste mesmo
ano foram adquiridas mais quatro bombas, em Inglaterra.
Aos
homens dos serviços dos incêndios, por trabalharem com as Bombas, passaram a
ser designados Bombeiros. Encontramos aqui a origem da denominação de bombeiro,
assim como a razão de ser da origem do nome “Companhia da Bomba”.
A
exceção é Lisboa que por razões desconhecidas em que a primeira Companhia de
Bombeiros de Lisboa, criada, em 17 de Julho de 1834, pela Câmara Municipal, que
ficou também conhecida por Companhia do Caldo e do Nabo.
A
partir do ano 1868, foram introduzidas as bombas a vapor, originando a
obrigatoriedade dos proprietários instalarem boca-de-incêndio nos prédios.
Apareceu também a escada “Fernandes”, percursora da “Magyrus” e foi instituída
a classe de Sotas – Bombeiros permanentes, cuja denominação era atribuída aos
Capatazes dos antigos aguadeiros.
O
movimento Associativo dos Bombeiros começou com a Companhia de Voluntários Bombeiros
de Lisboa, criada, em 1868, e que depois, em 1880, passou a Associação de
Bombeiros Voluntários.
Apenas
há 134 anos é que nasceram as Associações de Bombeiros tal qual as conhecemos
hoje, economicamente dependentes de 3 tipos de receita, Apoios em forma de
subsídios do Poder Central, Poder Local (Câmaras Municipais e Juntas de
Freguesia) e
Receitas
Próprias, através do transporte de doentes, quotização de sócios e donativos.
Como
o nome indica “Bombeiros Voluntários” as atividades são prestadas por elementos
voluntários mas com o aumento da quantidade, da exigência e da complexidade das
intervenções, as Associações tiverem que se ajustar a estas realidades e
começaram a admitir nos seus quadros um conjunto de bombeiros profissionais
pagos, para fazer face a esta evolução da ação humana.
A
questão que hoje nos prende é «que futuro» há quem diga que o futuro a Deus
pertence, é certo que esta é uma perspetiva religiosa, mas não deixa de ser uma
perspetiva passiva, deixa passar deixa fazer logo se verá …entendo que a
continuidade dos Corpos dos Bombeiros prende-se mais com a sua sustentabilidade
do que com a alma, espírito solidário ou até mesmo com a capacidade de
renovação da massa humana voluntária necessária para a prestação do socorro.
As
Associações de Bombeiros Voluntários atravessam hoje uma grave crise de
sustentabilidade económica e financeira, é urgente que se reponha o equilíbrio
financeiro, é urgente a reformulação do modelo de financiamento, sob pena de
poder ser tarde de mais para muitas Associações, mesmo para quem vai
conseguindo sobreviver, por mais imaginação que os seus diretores possam ter,
torna-se impossível criar as condições ideais para acolher todos os jovens que
querem dar um pouco do seu tempo nesta tão nobre causa.

com muito empenho e dedicação é que podemos afirmar felizmente que para o
voluntario este termo «crise de sustentabilidade» encontra-se fora dos seus
horizontes, acredito que a principal razão é porque voluntário e juventude
conjugam-se na perfeição e será bom que assim seja por muitos e longos anos.
O
crescimento pessoal implicado pelo desempenho de trabalho de voluntariado é
atestado pelo reconhecimento da população em geral.
O
voluntariado deve consistir de forma geral no desenvolvimento de atividades de
participação cívica, por vontade própria e de uma forma organizada, para ajudar
a resolver problemas de grupos sociais ou até da sociedade em geral.
 
Tenho
como certo que cada vez mais a abrangência do serviço dos Bombeiros irá
assentar na defesa do Estado Social, no combate à pobreza e na luta pela
inclusão social, devemos procurar, assim, contribuir para uma sociedade mais
justa e mais solidária.
É
inquestionável que o trabalho voluntário da juventude contribui de forma
decisiva para gerar benefícios sociais. Muitas instituições e muitos grupos de
cidadãos o têm sentido no seu quotidiano.
Para
além dos Corpos de Bombeiros, encontramos voluntários ajudando doentes ou os
seus acompanhantes nos hospitais, colaborando em diversos peditórios nacionais
(Banco Alimentar Contra a Fome, Liga Portuguesa Contra o Cancro, etc.),
participando na reconstrução de zonas atingidas por catástrofes, só para
adiantar alguns exemplos de contextos onde eles intervêm.
 
O
desempenho de atividades de voluntariado implica a adesão a uma causa social e
promove o enriquecimento pessoal, contribuindo para o desenvolvimento de muitas
competências. Sentido de responsabilidade, espírito de colaboração,
relacionamento interpessoal, competências de comunicação, capacidade de
analisar problemas e de encontrar estratégias de resolução, capacidade de
liderança são alguns dos aspetos em que podem ser esperadas melhorias.
 
Aprende-se
a selecionar e utilizar melhor os recursos disponíveis. Pratica-se e
desenvolve-se o altruísmo e a solidariedade. Adquire-se uma maior consciência
social e percebe-se que se pode ter um importante papel ativo na sociedade. A
consciência de ser útil e de contribuir para a melhoria social traz felicidade
pessoal e desenvolve a autoestima.
No
exercício do voluntariado, conhecem-se pessoas, adquirem-se conhecimentos,
encontram-se novos caminhos e novas oportunidades.
O
crescimento pessoal implicado pelo desempenho de trabalho de voluntariado é
atestado pelo reconhecimento da sua importância pelas entidades patronais, que
cada vez mais o valorizam nos currículos dos candidatos a emprego.
 
Julgo
que também podemos melhorar a nossa intervenção quer no meio familiar quer no
meio escolar no sentido de incentivar a juventude desde cedo a iniciar uma
prática de uma atividade de voluntariado escolhida por cada um deles.
A
sociedade contemporânea está a caminhar a passos largos para o abismo palavras
como generosidade, afetividade, entreajuda parece-me estarem a ser substituídas
por ganância, frieza, individualismo, não era este o futuro que se imaginava
para os nossos jovens.
Ainda
deve estar na nossa memória as palavras do Papa Francisco intrinsecamente
conotadas com o espírito dos bombeiros, recordo-vos DESCULPE, POR FAVOR ,
OBRIGADO,
palavras com este significado só podem ser ditas por quem tudo dá e nada espera
em troca, talvez um simples gesto, sorriso ou afeto seja suficiente…
A
nossa juventude foi educada para ter melhores condições de vida do que a nossa
ou dos nossos pais, que tudo sonharam para os seus filhos. Se esta é a geração
que mais espera da vida é talvez a que, pela primeira vez, menos preparada está
para enfrentar as dificuldades.
Habituados
a ter tudo sem qualquer esforço, acostumados a que os pais resolvam todos os
seus problemas e satisfaçam todos os seus caprichos, à globalidade dos jovens
faltam armas essenciais em períodos de dificuldade: resistência à frustração,
iniciativa, autonomia, capacidade de definição e reformulação de objetivos de
curto, médio e longo prazo e acima de tudo, perseverança na luta pela sua
obtenção.
 
Tudo
isto, na minha perspetiva, não os torna culpados, como por vezes tenho,
injustamente, ouvido ser sugerido. São, pelo contrário, o fruto de uma educação
que, querendo poupá-los a sofrimentos, não os preparou para as dificuldades.
Considero
fundamental que, neste contexto, as famílias repensem os seus princípios
educativos. O valor e o uso da palavra “não” foi-se perdendo, sendo
ela tão importante em
educação. Não
se pode satisfazer todos os caprichos da
juventude, que precisam de distinguir limites e de aprender a adiar
gratificações, a lidar com frustrações, a lutar pelos seus objetivos.
 
Não
é eliminando todos os obstáculos que se preparam para a vida. O aproveitamento
de oportunidades de formação é também importante. A formação da escola é
essencial, mas não chega. Vivemos num mundo global em que a capacidade de
iniciativa e de resolução de problemas bem como a adaptação a novas situações
são cruciais.
O
alargamento de horizontes culturais, geográficos e de conhecimento ajuda à
preparação para este mundo de incertezas.
Em
tom de incentivo e apelo, afirmo que vale a pena, por isso, participar em
projetos de voluntariado e contatar com outros jovens e outras realidades,
olhar para o mundo que nos rodeia, largar as Play Station, os computadores a
internet e outras «vicissitudes», acima de tudo vale a pena sentir-se útil.
 
O
mundo de sonho que idealizámos para os nossos jovens está a transformar-se num
outro em que, com revolta, ouço muitos decisores de politica nacional e
internacional confundirem Direitos Humanos com regalias, ou o desemprego, a
fome e a perda de dignidade humana tratados de forma mercantilista como uma
mera e simples “gestão de recursos”.
 
As
perspetivas não se afiguram favoráveis. Mas é nossa responsabilidade, enquanto
diretores associativos, encontrar formas de melhor acolher e de preparar as
gerações jovens para o mundo real.
 
Se,
como referi, culpabilizar os jovens é injusto, desresponsabilizá-los também não
é o caminho. Eles precisam de ser pró-ativos na construção do seu projeto de
vida.

Quem semeia colhe. Por isso, dessa colheita beneficiarão todos e beneficiará o
país.


E
pensemos acima de tudo que a iniciação no voluntariado pode ajudar a resolver
uma boa parte desta problemática.

Paulo Dias – Presidente da Direção do Bombeiros Voluntários de Penacova