OPINIÃO – Acervo de talentos ignorados na mesopotâmia de Mondalva

0
5
Falar de talentos desta região é como estar a tirar cerejas de um cesto,
pois quando se pega numa logo vêm umas poucas agarradas.

Hoje vou falar de um que não nasceu propriamente na região de Mondalva, mas
sim seu pai, uma ilustre figura amiga, chamada Virgílio Ribeiro Oliveira e
Costa, nascido na Cruz do Soito (S. Pedro de Alva – Penacova). Este senhor casou com a
professora do ensino básico D. Benilde de Sousa Faria, que leccionou durante
vários anos na escola de Lufreu, ensinando mais de 50 alunos, distribuídos por
quatro classes e ainda um grupo de alunos que pretendiam prosseguir com seus
estudos e assim a D. Benilde preparava-os para o exame de admissão aos liceus,
que é como se fosse hoje uma 6.ª classe, mas que ao obtê-la um aluno sabia mais
do que hoje com o 9.º ano.
Foi aqui, quando leccionava nesta escola (hoje desactivada), que conheceu o
Sr. Vir­gílio e vice-versa.
Como já nenhum destes jovens precisava de consultar e obter autorização dos
pais para darem o passo mais importante e sagrado de suas vidas, como pessoas
muito responsáveis, deram o nó, que foi abençoado por Deus.
Os horizontes nesta terra paupérrima apresentavam-se-lhe limitados e este
jovem casal respondeu afirmativamente ao chamamento vindo da costa oriental de
África, banhada pelo Oceano Índico, mais propriamente da maravilhosa cidade da
Beira, situada na então província de Moçambique, onde permaneceram durante
vinte e oito anos – o Sr. Virgílio como conferente de primeira classe nos
Caminhos de Ferro da Beira e D. Benilde como professora.
Foi nesta cidade de além-mar que nasceram os seus cinco filhos; e, como
tantos outros, também foram vítimas do arrastão independentista e tiveram que
regressar: primeiro à Cruz do Soito, depois rumaram para Coimbra, a fim de
acompanharem seus filhos e filhas em idade de estudar.
É precisamente a vida de um dos seus filhos que me motivou a tecer esta
longa apresentação desta honrada família.
Ele chama-se ANTÓNIO VIRGÍLIO FARIA DE OLIVEIRA E COSTA.
Este insigne cidadão revelou-se sempre um estudante de Medicina exemplar,
sempre com notas altíssimas. Estava prestes a concluir a licenciatura em
Medicina, onde seria um proeminente médico, mas um dia foi chamado por Deus
para o servir.
Foi quando, acompanhado de vários colegas do curso de faculdade, foram
acampar para determinado lugar da Serra da Estrela, no mês de Julho de 1983,
lugar banhado pelas cristalinas águas do Rio Alva. O estudante de Medicina,
António Virgílio Faria de Oliveira e Costa, nadou durante horas, mesmo sob uma
tempestade de chuva, que não o molhou mais do que já estava.
Quando a chuva passou e o sol voltou, o estudante António Virgílio
continuou na água a dar mais braçadas. Os colegas retiraram-no para junto das
tendas, apenas uma aluna de História ficou junto de si, brincando na água.
Aqui, o estudante António Virgílio percebeu estar perto de cometer um pecado e
assim trair os sagrados princí­pios religiosos que lhe foram incutidos no seio
materno. Mais, entendeu que aquele momento lhe foi proporcionado por Deus, para
testar a sua fidelidade. Saiu da água e juntou-se ao grupo, que se começava a
sentar na erva molhada junto às tendas para orar. Foi ali, naquele momento, que
o futuro médico escutou o chamamento de Jesus, como quando Se dirigiu ao jovem
rico que quer mais, que quer fazer escolhas que o realizem: «Deixa tudo… vem,
segue-me” (Mc 10:20). Dois meses depois era um noviço da Companhia de Jesus!
Poucos anos após, já era um Padre Jesuíta da Companhia de Jesus.
De há trinta anos a esta parte já passou muitos períodos turbulentos, mas
também muitos de bonança. Cumpriu inúmeras missões pelo mundo em diferentes
países, relacionando-se com muita gente grada e importante da hierarquia
universitária religiosa e civil. Foi capelão em várias prisões, trabalhou em
campos de refugiados, desde ser capelão de uma universidade, ser pároco,
professor universitário e formador de jovens jesuítas, tudo tem feito para
agradar e cumprir cabalmente o chamamento de Jesus Cristo. Foi convidado por um
reitor da Universidade de Boston, na América do Norte, para ficar a leccionar
nessa universidade, mas o Padre António Virgílio não aceitou, pois os calores
africanos onde nasceu chamavam por si e era neste con­tinente que desejava
desenvolver a sua meritória acção em prol dos mais desprotegidos.
Além do que já foi enunciado, esta grada figura consta ainda do seu
currículo o seguinte: licenciou-se em Filosofia pela Universidade do Minho;
licenciou-se em Teologia na Universidade de Nairobi (Quénia); esteve três anos
a leccionar na Universidade de Berklei (Califórnia – EUA); foi ordenado Padre
Jesuíta em Santo Tirso, onde a Companhia de Jesus possui um colégio; já padre
voltou para a América do Norte, desta vez para Boston, onde fez o doutoramento
em Ética Social, sendo aqui convidado pelo reitor para ficar naquela
universidade como professor, convite que declinou, como atrás foi referido.
Quando escrevíamos este apontamento, o Padre António Virgílio estava no
Zimbabué, deslocando-se com frequência a Nairobi, no Quénia, países estes muito
carenciados e conflituosos a nível social, onde a sua mão amiga se torna muito
prestimosa.
Feliz, por o Padre António Virgílio ser oriundo desta freguesia, filho duma
excelente e grada família. Felicito-o e peço a Deus que o continue a proteger,
para poder continuar a singrar e progredir nas escolhas que fez e possa por
muitos anos praticar o bem junto dos mais necessitados, sejam eles europeus,
americanos, africanos ou asiáticos, pois o campo é imenso e está muito carente
de pessoas como o Padre António Virgílio.

Texto e foto de Alfredo Santos Fonseca