PATRIMÓNIO – Apocalipse do Lorvão pode vir a ser reconhecido pela Unesco como Memória do Mundo

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Apocalipse do Lorvão pode vir a ser reconhecido pela Unesco como memória do mundo, por ser um dos mais belos da civilização medieval ocidental.


Esta história pode contar-se em quatro datas. Há quase 2 mil anos,
Jesus terá pedido ao apóstolo João para escrever sobre a luta
entre o bem e o mal, dando origem ao Apocalipse, último livro do Novo Testamento, destinado a mostrar que, depois de todas as
perseguições aos cristãos, o Império Romano seria derrotado por
Cristo.


No ano 786, nas Astúrias (território da actual Espanha, um padre
(Beato de Liébana) escreveu em latim um comentário a esse texto,
para o tornar de mais fácil compreensão.


Em
1189, Egas (ou Egeas), um monge beneditino no Mosteiro do Lorvão, Penacova, a
20 km de Coimbra, copiou um dos outros 22 exemplares conhecidos do
comentário do padre asturiano e ilustrou-o com 66 desenhos, pintados
a amarelo e laranja, que parece algo avermelhado nalgumas das
gravuras, talvez devido ao envelhecimento.



Em 1853, o historiador Alexandre Herculano calcorreou os principais
conventos e bibliotecas para recolher os documentos mais importantes
da História de Portugal. Foi ele que levou o manuscrito ilustrado
sobre o Apocalipse para a Torre do Tombo, em Lisboa, para assegurar
que ficaria bem conservado. Segundo Anne de Egry, autor do livro O
Apocalipse do Lorvão e a Sua Relação com as Ilustrações
Medievais do Apocalipse, no interior da capa Alexandre Herculano
escreveu: “O valor deste códice está principalmente nas suas
bárbaras iluminuras, onde se encontram muitos espécimes autênticos
de trajos, alfaias e arquitectura do século XII, raros em Portugal.
Obtive-o das freiras de Lorvão”


Espera-se que haja uma quinta data a juntar história: em Julho de
2015, este documento pode vir a ser reconhecido pela UNESCO como
pertencente à Memória do Mundo, um selo criado para distinguir os
documentos mais extraordinários do universo, equivalente ao de
Património Mundial, para os monumentos, ou de património imaterial,
onde já se encontram por exemplo o fado e o cante alentejano.


Estes
manuscritos são os mais belos produzidos pela civilização medieval
ocidental, se na proposta de Candidatura, apresentada em conjunto,
entre a Torre do Tombo, a Biblioteca Nacional (que possui uma cópia
do Apocalipse do Beato de Liébana feita no Mosteiro de Alcobaça) e
os arquivos e as bibliotecas de Espanha, para que 11 exemplares
também sejam reconhecidos.



No
fim do manuscrito do Lorvã
o,
além da data, surge a nota do autor:

“Já
o livro está escrito. 
O
que escreveu seja bendito

Eu,
Egas, que este livro escrevi, se
nalgum
ponto me afastei do caminho direito, que a caridade, que tudo
supre, mo perdoe. Amen.”