Freguesias dos Lorvões

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Agradeço aos meus conterrâneos do
Couto de Baixo e do Couto de Cima darem-me a honra de intervir para saudar os
nossos Amigos de Lorvão, de Penacova, onde também me incluo há mais de quarenta
anos pelo casamento, profissão de médico e pela política (só faltou ser
Presidente da Junta de Freguesia!).
Não embarquei, como a oposição
dizia em Penacova, no Rio Pavia, continuei pelo Dão e encalhei em Penacova.
Não! Foi o amor que me levou de Viseu para Penacova. E, afinal, historicamente,
estávamos tão próximos!
No século XIV, o Mosteiro de
Lorvão teve propriedades que se distribuíram desde a margem esquerda do Douro
até à margem direita do Tejo, isto é, no maior património cisterciense de
sempre, apesar da casa mãe ser o Mosteiro de Alcobaça.
É de presumir que o Mosteiro de
Lorvão, cuja fundação se considera ser provavelmente do século VI, tivesse tido
grande influência como escola e desde aqueles tempos tivesse tido grande papel
no ensinamento da Medicina, da Farmacologia, da Pintura e das Artes em geral e
da Agricultura, particularmente na transmissão de técnicas romanas de
viticultura, mormente na seleção de castas e na construção dos lagares de vara,
da pisa, da tanoaria e em todas as técnicas do fabrico de vinho, como expomos e
documentamos no livro de que somos autor, “Os Mosteiros e o Vinho”. Não é por
acaso, aliás, que nas iluminuras do “Apocalipse de Lorvão” figuram a ceifa, a
lagaragem e a vindima, por exemplo.
Couto de Baixo e Couto de Cima,
por cerca do ano de 961, isto é, século X, foram doados, sob o nome de Coutos
de Viseu de Santa Eulália, ao Mosteiro de Lorvão, por Dona Inderquina Pallas,
Senhora ligada ao Reino de Leão.
Estes antecedentes revelam-se bem,
por exemplo, na povoação do Mosteirinho e vieram até aos nossos dias. Em
6/11/1957 para “Marcha” de um antigo cortejo de oferendas a favor de
reconstrução da igreja do Couto de Baixo, constava a seguinte poesia:
 “Nós somos do MOSTEIRINHO, QUE PERTENCEU A
LORVÃO,
Vimos trazer-vos, Senhor,
Um pouco do nosso pão.
Perdoai, é poucochinho
Mas traz amor, devoção.”
Esta poesia é um depoimento
escrito que traduz o que era considerado tradicional e histórico, a respeito
dos coutos do Mosteiro de Lorvão, nestas paragens.

Portanto, conforme o poeta, não
há que reflorir o passado, há que florir o futuro e nós temos um passado que
nos aponte o caminho do desenvolvimento, acreditando no Turismo Cultural,
valorizando os recursos, as geografias, os lugares e os ambientes onde se
localizam os patrimónios naturais e os monumentos.
Há que constituir um painel de
especialistas em número e perfis adequados que se pronunciem em relação aos
Museus de Sítio, aos Eventos Culturais, ao Lazer (particularmente à Música e ao
Folclore), aos Escritores, à Arqueologia, à Arquitetura, à Natureza, ao
Ambiente, à Paisagem, ao Artesanato e Ofícios Ancestrais, como são exemplo os
Palitos, o Linho e os Apanhadores e Comerciantes do Loureiro, aos Cânticos, aos
Caminhos Tradicionais, como as Vias Romanas e as Estradas Reais, à Cartografia
Histórica e Militar, versando por exemplo as Invasões Francesas e a Guerra
Peninsular e ao Turismo Religioso (Festas e Romarias).
Trata-se de proteger, valorizar e
salvaguardar o Património material e imaterial, isto é, aquilo que é de todos
nós, que nos foi deixado e que temos obrigação de cuidar. Trata-se de criar
emprego e riqueza em todo o filão do Turismo Cultural: hotelaria, restauração,
animação, publicidade, renovação urbana e rural, conservação e restauro de
obras de arte e monumentos, organização de espetáculos, exposições e criação de
núcleos museológicos.
Já visitámos outras freguesias
com antecedentes de Lorvão, como Torredeita, Couto do Mosteiro e Sabugosa.
Neste último, senhoras com mais de oitenta anos de idade ensinaram-nos onde era
o Pelourinho, o Tribunal, a Câmara Municipal e a Cadeia e disseram-nos, com um
saudável entusiasmo e orgulho: – “Isto era dos Lorvões”.
Vamos então apostar no património
que foi de Lorvão, ou melhor, dos “Lorvões” e que agora é nosso e que temos
obrigação de transmitir aos nossos filhos e netos como lições preciosas.
A atual reforma administrativa
veio, neste caso, ao encontro dos antecedentes históricos, juntando os nossos
Couto de Baixo e Couto de Cima. A nossa terra é muito antiga. Segundo algumas
fontes, foi, até 1834, concelho dos Coutos de Santa Eulália, tendo também sido
conhecida por Couto de Rio de Asnes. Filipa Duarte, na obra “Singulares e
Eternos” (2013), p.l74, refere, a propósito de Parada de Gonta, “o local onde
se encontram os três rios: Pavia, Asnes e Ribeira de Sasse”, descrevendo-o como
um local único e singular. E se a autora, amante da natureza, sugere aos seus
leitores urna visita por estas paragens, por que não investigar se em tempos
longínquos não terá existido um mosteiro nas margens da ribeira de Asnes, nas
proximidades do atual local de Mosteirinho, tal como sugere Ferraz de Carvalho
na nota 2 que já incluímos mais acima? Entretanto, as igrejas do Couto de Cima
e do Couto de Baixo, o Pelourinho, as Antas da Lameira do Fojo e do Repilau e o
restante património, mais ou menos ancestral, como a Ponte dos Caminhos de
Ferro do Mosteirinho, esperam que se promova a sua salvaguarda.
Todos nos sentimos felizes se
esta união resultar em mais desenvolvimento das nossas comunidades, orientadas
por esse farol da cultura que foi, é e será sempre o rico e precioso património
de Lorvão que nos convida a sentirmos especial auto-estima por tudo quanto é
nosso e está nas nossas origens de gente da Beira Alta. 
Joaquim Leitão Couto 
Artigo de opinião originalmente publicado nas edições impressas do Diário de Coimbra de 30.06 e 01.07.2015