TRADIÇÃO – Lavadeiras recordam “barrela” no Rio Mondego

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Em tempos não muito distantes,
uma boa parte da roupa usada em Coimbra era lavada no rio Mondego, nas
proximidade da, agora, praia fluvial dos Palheiros. Para ali convergiam
lavadeiras do Casal da Misarela, Vale de Canas, Palheiros ou das Carvalhosas. E
por ali pernoitavam, porque o processo de lavar roupa era moroso, mas também
para que ninguém roubasse a roupa ou a trabalhosa “barrela”.
Ontem foi dia de recordar esses
tempos, numa recriação do Rancho Folclórico Rosas do Mondego, em colaboração
com a Associação Desportiva e Recreativa do Casal da Misarela. A homenagem à
lavadeira, que se realizou pela sexta vez, transportou muitos dos quase 40
elementos do rancho para o século passado.
Elisa Cruz, hoje com 77 anos, não
precisou de pesquisas para saber o que era a vida de lavadeira. Durante anos
foi a sua vida e ontem ia apreciando cada movimento e tarefa das “novas”
lavadeiras. Próximo da “barrela”, lá deixou escapar que foram «tempos duros»,
ganhava-se pouco mas «com esse pouco fazia-se muito».
Um fim-de-semana a lavar roupa
dava uns 40 ou 50 escudos, 70 já eram uma festa. Mas assim se «formaram os
filhos, ajudavam-se umas às outras», observa Isabel Baptista, do Rancho
Folclórico. De vez em quando também havia desentendimentos, ou mesmo “porrada”.
Os espaços do rio não eram muitos e aquelas que tinham mais roupa acabavam por
invadir as áreas das outras, previamente marcadas. Logo, chatice da grossa. Mas
eram amigas, nota Isabel Baptista, «mes mo que depois fossem à fonte dizer mal
umas das outras».
A camaradagem, de resto, teria de
estar presente. O processo de lavar roupa no rio dura quase dois dias e tinham
de dormir por ali, a guardar a “barrela”. Ontem fizeram o mesmo, mas já sem a
preocupação de ganharem a vida ou com ladrões de “barrelas” (geralmente era
gente de fora).
Uma “barrela”, diga-se, era parte
importante da lavagem. Num caniço, de madeira, colocava-se a roupa, que já
tinha ido à água. Um lençol ficava por cima, coberto de cinza (há quem diga que
era para tornar a roupa mais branca, mas servia para que a água, sucessivamente
despejada, escorresse lentamente).
A roupa na “barrela” passava por
água fria, depois morna e finalmente a ferver. Ficava concluída quando as peças
do fundo estivessem quentes, mas a roupa ficava toda a noite a repousar. Manhã
cedo era retirada e estendida no areal para o “augar” da roupa: era encharcada
à medida que ia secando. Voltava depois ao rio, para ser lavada com sabão (azul
ou rosa), antes de ficar definitivamente a secar. Dobrada, regra geral, ao
domingo, seria entregue à segunda-feira.
Para uma recriação fiel, com
lavadeiras vestidas a rigor, lá estavam ontem as tendas, onde dormiam e ficavam
os filhos. Para o jantar havia “sopas fervidas” (uma espécie de migas) com
carne. Estava prometida animação e só não se sabia se, como antigamente, as
lavadeiras iam tomar banho ao rio.

Fotos obtidas AQUI e texto obtido AQUI