Batalha do Bussaco: Francisco António o servente do mosteiro que sobreviveu para lá do fim

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“Pouco passava das oito horas da manhã do dia 21 de Setembro
de 1810 quando Francisco foi chamado ao prior, Frei Domingues de Deus, a fim de
o acompanhar na recepção a Artur Wellesley (…) vindo de Lorvão,  onde estacionara com o seu quartel general.”

Francisco, ou melhor, Francisco António, nascera no Cerquedo em
1798. Filho de uma família numerosa de pequenos agricultores foi, certo dia, um
dos escolhidos por  frei Bernardo do
Espírito Santo, mais conhecido entre os Irmãos por Frade das Coisas Terrenas,   para ir
servir na horta e na vinha do Convento. Concretizou-se assim um desejo que
Francisco já havia contado aos pais naquele dia em que, ao guardar o rebanho
junto à Cerca dos Frades, subira ao alto do muro e vira um pouco do que se passava lá do
outro lado.
Depois de um mês à experiência, o Frade das Coisas Terrenas
voltou ao Cerquedo, agora para firmar verbalmente com os pais do miúdo um contrato de
trabalho. Uma boca a menos e a garantia de uma carreira futura ali às portas de
casa levaram a que os pais do Francisco se sentissem gratos à alma de todos os
santos e, em especial,  ao São Braz de
Cerdeira.
Chegou o Natal e Francisco, um rapaz educado e carinhoso,
depressa passou das hortas à cozinha, ao refeitório, à livraria… e ganhou mesmo um
pequeno quarto junto da hospedaria.
Mas voltemos àquele dia 21 de Setembro. Quando o Frade
informou o general do quarto que lhe reservara – o melhor da hospedaria – foi ao
Francisco que coube a tarefa de o ir mostrar. O aposento era  no interior do claustro e tinha apenas uma
entrada. Razões para ser rejeitado pelo General, em favor do quarto da
portaria, com duas portas e uma janela que permitia ver o terreiro da frente e
uma oliveira, a tal oliveira que a lenda diz que serviu para prender o seu
cavalo – a célebre oliveira de Wellington.
Mas, antes de avançarmos com o reconto destas histórias, exige a honestidade intelectual que informemos os leitores que estes relatos se devem às pesquisas de
Fernando José Ferraz da Silva, natural do Luso, plasmadas em livro no ano de 2011. “Bussaco:
 a Batalha e o Convento – 200 anos da
Guerra Peninsular” é o título da obra a cujo lançamento tivemos a honra de
assistir no dia 1 de Outubro daquele ano. Um livro de crónicas com base histórica que aconselhamos a ler. No meio de outros capítulos destacamos precisamente
aquele “Onde se fala do nascimento de Francisco António servente do mosteiro
que sobreviveu para lá do fim”.

Pela hora do meio dia, escreve Fernando Ferraz, já toda a cerca
murada estava cheia de militares ingleses. Wellesley passou o resto do dia a
percorrer a serra e a organizar as defesas, obras que se prolongaram até ao dia
26. Mandou erguer uma paliçada frente à Porta de Sula, abrir uma porta perto da
Cruz Alta e abrir um estradão militar entre este ponto e a Portela da Oliveira.
Ao princípio da tarde do dia 24 mandou abrir a Porta da
Rainha, também chamada de El-Rei, que se encontrava tapada com um muro de pedra
e cal desde 1704, altura em que passou pelo Bussaco o rei D. Pedro II e o
Arquiduque Carlos de Áustria.

A vida pacata dentro da Cerca ganhou inevitavelmente outras feições e momentos de tensão se viveram naquele espaço até ali virado para a meditação.  Passada a Batalha, logo no dia seguinte, 28 de Setembro de 1810,
aconselhados pelo Comandante Inglês, viajaram para Coimbra, aqueles que no dia 22
não haviam feito parte do grupo dos Irmãos mais velhos e doentes.  juntamente com alguns carros
cheios com a maior parte dos bens mais preciosos do mosteiro. No entanto, houve alguns
frades, Frei Gerónimo do Sacramento, Frei António da Soledade e o irmão José de
São Silvestre que resolveram ficar mais algum tempo. O Francisco António, exausto,
 havia adormecido profundamente e por ali acabou por ficar fazendo-lhes companhia. Depois da batalha ainda muitos episódios se deram por aquelas terras.
E terá sido assim que, Francisco António, natural do Cerquedo, servente
do mosteiro, sobreviveu para lá do fim”…
 Memórias da Batalha do Bussaco…

David Almeida