As legislativas e o aproveitamento político da prisão de José Sócrates

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Quando
rebentou o caso José Sócrates, Pedro Passos Coelho afirmou que não iria
comentar decisões judiciais.


A
sociedade em geral interpretou esta forma de estar como sendo a mais indicada.
Afinal, a separação de poderes é um pilar da democracia e do Estado de Direito.
Mas devemos questionar-nos: foi isto que verdadeiramente aconteceu?

Durante
os últimos quatro anos assistimos a uma demonização do governo de Sócrates.
Desde o início que o governo de coligação procurou criar uma imagem bem clara:
José Sócrates levou o país à bancarrota e agora chegámos nós e vamos pôr as
coisas nos eixos.

António
José Seguro, então líder do Partido Socialista, deixou esta ideia assentar e o
PS cometeu aqui um dos seus primeiros erros. Seguro quis afastar-se da ala
Socrática e por isso respondeu aos ataques que a direita dirigia à antiga
liderança do PS com silêncio, esperando que isto o ajudasse a consolidar a sua
própria posição no partido. O tiro saiu-lhe pela culatra quando perdeu a
liderança para António Costa.

Por
esta altura, a coligação já tinha conseguido implantar com relativo sucesso a
ideia de que a culpa de tudo tinha sido do governo de José Sócrates. Dentro do
próprio PS existia quem acreditasse nisso, como se de um momento para o outro a
história tivesse mudado e em vez da sucessão de erros, derrapes orçamentais,
PPP’s e Cavaco’s e Santana’s desta vida que marcaram a
governação nacional desde 1975 nunca tivessem existido.

Isto
é, segundo a coligação, a situação económica do país não era responsabilidade
dos partidos do chamado arco da governação.

A
responsabilidade caía exclusivamente sobre o PS de José Sócrates.

E,
felicidade das felicidades, António Costa tinha feito parte desse governo.

Desde
aí, a estratégia eleitoral da coligação foi bastante simples: colar a situação
financeira do país à governação de José Sócrates e por associação a António
Costa.

Não
sejamos ingénuos: a prisão de Sócrates, política ou não, teve e continuará a
ter implicações políticas. Conscientemente ou não, a associação está lá. E isto
aos olhos do eleitor não é indiferente.

Um
golpe de génio da máquina eleitoral da direita, se ignorarmos todas e quaisquer
implicações morais.

Rui Sancho