GENTE COM HISTÓRIA: José António de Almeida (1819-1901)

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Na galeria de personalidades que
marcaram a história do nosso concelho deverá constar, com todo o merecimento, o
nome de José António de Almeida (1819-1901). No site da Câmara Municipal encontramos um separador com a designação “Gente
com História”. Consideramos que este espaço  se encontra muito incompleto, esquecendo
eminentes figuras do mundo da política, das letras e da acção social e
humanitária. Referir apenas – como acontece – António José de Almeida, Vitorino
Nemésio, Teresa, Sancha e Mafalda, Emídio da Silva, Raúl Lino, António Marques,
Aniceto Simões, Eugénio Moreira, Marquês de Pombal, Arthur Wellesley e os
Duques de Cadaval é, de facto, muito pouco. Penacova tem na sua história muito
mais de uma centena de individualidades que, com todo o mérito e justiça
deveriam aí (ou noutro canal de divulgação) constar e desse modo serem
conhecidas de todos os penacovenses.

E uma delas, como já referimos, é
José António de Almeida. Não apenas pelo facto de ser pai de António José de
Almeida, mas principalmente porque foi presidente da Câmara e desempenhou
outras tarefas ao serviço do bem público. Apesar de ter morrido nove anos antes
da implantação da República, as circunstâncias da sua adesão ao republicanismo,
em 1890, são a manifestação do seu carácter, que naturalmente terá transmitido
aos seus oito filhos, mas de um modo especial, àquele a quem havia dado o nome
de António José em 1866. José António de Almeida, desiludido com a Monarquia que
sempre servira, apresentou, em 1890, na reunião da Câmara de Penacova, uma
declaração que merece ser transcrita:


”Senhores Vereadores: Ractificando
o protesto com que assinei a acta da sessão de sete do corrente e apoiado na
decisão do Ex.mo Senhor Governador Civil deste distrito, venho novamente
apresentar-vos a declaração seguinte:

Nunca tinha pensado que na idade
de setenta anos e que tendo empregado na maior parte deles as minhas forças na
sustentação e defesa da monarquia e liberdades pátrias, me havia de fazer
Republicano!

Realizou-se, porém, este pacto
desde que, no dia vinte e cinco de Junho último, vi que uma sentença
injustificadamente rigorosa condenava em três meses de prisão o meu filho
António José d’Almeida, arrancando-mo dos braços e aferrolhando-o na cadeia
pública; acrescendo para maior mágoa minha, o espectáculo altamente condenável
da polícia civil de Coimbra acutilar barbaramente a generosa e patriótica
academia e o nobre povo daquela cidade, quando acompanhavam e faziam uma
calorosa manifestação de simpatia àquele meu filho.

Convenci-me então que era um alto
dever de consciência, deixar para sempre, de prestar o meu apoio a uma
instituição em que há leis que permitem o atrofiamento da liberdade de
expressão do pensamento e maltratar impunemente quem, na melhor ordem, prestava
generosa homenagem a um rapaz cujo único crime era manifestar as suas ideias
num momento em que Portugal passava por uma crise angustiosa.
Conheci desde então que é ao
partido Republicano que devo consagrar o meu pouco valioso, mas espontâneo
esforço; porque é ele o único que pode salvar da vergonha de nos afundarmos no
descrédito e na desonra. Pertenço hoje a esse partido altivo e nobre e com isso
me honra; trabalharei para a sua prosperidade e é esse o meu dever; lutarei o
pouco que puder para o seu triunfo e com isso me darei por satisfeito”.
Nesta declaração, José António de
Almeida, apresenta também o pedido de demissão do cargo de Presidente da
Câmara. No entanto, a vereação não aceitou essa intenção, mantendo-o na
presidência até 1892, ano em que terminou o mandato.
Nasceu a 13 de Janeiro de 1819 no
lugar da Venda Nova, junto à actual localidade de Silveirinho. Com apenas 9
anos de idade foi para Évora onde serviu como caixeiro. Aos 17 anos regressou à
terra natal, montando uma fábrica de destilação de álcool na Raiva.  Foi capitão no Movimento da Maria da Fonte em
1846. Enfrentou o célebre João Brandão contando-se que, certo dia, próximo de
S. Pedro de Alva, foi ameaçado de morte por aquele “assassino”, para
uns, “herói”, para outros. Filiou-se no Partido Histórico, pelo qual
foi pela primeira vez eleito vereador da Câmara de Penacova. Militou mais tarde
no Partido Progressista “com uma dedicação exemplificante”. Colaborou
com as presidências camarárias do dr. Joaquim Correia de Almeida, do
Conselheiro Alípio Leitão e de Alberto Leitão. Foi presidente da Câmara em três
vereações  (1887 a 1889).” – refere o Jornal de Penacova.  
No entanto, de acordo com apontamentos
recolhidos  nas actas camarárias, terá
exercido o cargo até 1892. Sucedeu a Alberto Leitão, embora à data, a presidência
fosse,  em regime de substituição,  assumida por Joaquim Pitta d´Eça Aguiar.  A José António de Almeida sucedeu Joaquim
António da Silva Tenreiro.
E prossegue o Jornal de Penacova: “Durante dezoito
anos serviu o município, como vereador e presidente. Mesmo com as dificuldades
dos maus caminhos, poucas vezes terá faltado às reuniões. Exerceu funções de
Juíz Ordinário do antigo Julgado de Farinha Podre. “Inteligente e
erudito” – refere o periódico – “apesar de não ser bacharel”
assinava jornais de jurisprudência e dava consultas aos amigos e vizinhos.”
Pessoa muito estimada na região, contou
com  cerca de duas mil pessoas no seu
funeral. As cerimónias foram presididas pelo Dr. Alípio Barbosa Coimbra, que, à
beira da campa, e em nome do filho, António José de Almeida, que na altura se
encontrava em S. Tomé, usou da palavra salientando “o ponto mais característico
da sua individualidade: as arreigadas convicções liberais”.
Sobre a formação do carácter dos
seus filhos – refere o Jornal de Penacova
– soube imprimir-lhes  “o rumo
nobilitante do trabalho e insinuar-lhes a tenacidade que triunfa, quando
sustentada no caminho da honra.”
Casado com Maria Rita das Neves Almeida,
teve oito filhos: José António de Almeida Júnior, comerciante; Maria Rita das
Neves Almeida e Sousa (casada com Jerónimo Duarte Ferreira de Sousa); Joaquim
António de Almeida (falecido em S. Tomé); Virgínia das Neves Almeida e Coimbra
(casada com José de Almeida Coimbra, comerciante no Porto); Albertina das Neves
Almeida e Silva (casada com Eduardo Pedro da Silva, farmacêutico); Francisco
António de Almeida;  António José de
Almeida ( à data da morte do pai, Juíz da Relação de Luanda e médico em S.
Tomé, respectivamente). Por último, João António de Almeida, proprietário.
Morreu na sua casa de Vale da
Vinha, vítima de pneumonia, no dia de Todos os Santos.
Na sessão de 5 de Novembro de
1901 (faz hoje 114 anos),  a Câmara
Municipal,  presidida pelo Padre Dr. José
Albino Ferreira aprovou um “voto de sentimento” pela morte do “último
representante dos velhos filhos da Casconha” – nas palavras de Alípio Barbosa proferidas
no final do elogio fúnebre – “que deram a esta terra brazões de honra,
fidalguia e trabalho”.
David Almeida
Fontes:
Jornal de Penacova
Penacova e a República na Imprensa Local / David Almeida
António José de Almeida / Luís Reis Torgal