ENTREVISTA – José da Fonte fala com a PI8ITO, nos 25 anos da sua carreira

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Esta conversa pretende ser uma homenagem aos 25 anos da obra de José da Fonte. Artista de Penacova, nasceu em 1965 e Licenciou-se em Pintura pela Escola Universitária ARCA/EUAC em Coimbra. Desde 2002 trabalha como professor de Artes Visuais” – António Alpoim.



António Alpoim: Quando percebeste que querias o mundo da arte?
José da Fonte: Não um tempo em concreto,
percebes? Claro que recordo os factos relevantes muito marcantes, nomeadamente
um prémio recebido na escola no 4º ano sobre o 25 de abril, os próprios
desenhos de escola que sempre adorei fazer, os cadernos todos rabiscados, as
minhas brincadeiras como que de arquitetura se tratasse, as pinturas com o
professor Mestre Martins da Costa nos presenteou em Educação Visual, no
3º ciclo, assim como visitas a alguns museus.
AP: Cresceste afastado das grandes cidades, não te foi difícil o contacto
com a Arte?
JF: É evidente que o meio onde cresci
não foi recheado como iniciativas na área, e daí o contacto com esse, ou este
mundo, não fosse realmente muito preenchido. Existiu na verdade um grande
vazio. Mais tarde, nos anos 90, a saída para o estrangeiro nomeadamente Suíça,
encaminhou-me para redescobrir/reencontrar o meu eu, ou seja, começar com a práctica
de desenho e pintura aguarela e gouache, sequenciado por visitas a espaços a
espaços de exposições de forma mais assídua. Foi como se algo adormecido, mas
não esquecido, mas despertasse. O conhecer o trabalho do Mestre Martins da
Costa no seu Atelier, a visita a museus nomeadamente ao museu Árpád Szenes e
Vieira da Silva, ida ARCO a Madrid, Museu Rainha Sofia, Thissen entre outros, a
realização do 1º encontro de Arte em Penacova foram também importantes em todo
este processo de crescimento/amadurecimento.
AP: Teres conhecido o Pintor Martins da Costa na vida influenciou-te?
JF: Não diria bem influenciar, mas
sim contribuir para me ajudar a crescer de certa forma.
AP: Como defines o teu local de trabalho e a relação que estabelece entre
as caraterísticas do espaço e as tuas obras?
JF: É uma resposta difícil, porque o
actual espaço é recente. Toda a obra aqui reunida e até 2013, é reflexo dos
múltiplos espaços onde trabalhei. Espaços pequenos como pouca luz, à excepção
dos trabalhos no momento da formação. Contudo, esse facto permitiu-me uma outra
forma de fazer. Quero com isto dizer que me fui adaptando, e mesmo sentindo
falta de um espaço com mais luz, as condições em que desenvolvi o meu trabalho
não inibiram a minha forma de ser, ver e fazer o mundo à minha volta.
AP: Qual a relação entre o Atelier e a sala de exposições?
JF: A sala de exposições é um palco
onde és posto à prova, és alvo de crítica e tens que saber gerir o que em torno
da mesma pode surgir, ao contrário, o Atelier é o ambiente vivido de forma
egoísta, música de fundo junto do cão ou não, podes pular e por aí adiante…é o
teu espaço. Acabam por se complementar quando dás o teu trabalho a conhecer.
AP: Que ritmos, métodos hábitos e materiais utilizas habitualmente?
JF: Ritmos, métodos, hábitos é
difícil, a rotina bloqueia e mata. Normalmente, e como acto inconsciente, vou
criando de acordo com o tempo, não descurando as minhas obrigações/compromissos.
É evidente, que muitas são as vezes em que me apetece levantar de noite e ir
para o atelier trabalhar, mas eu não
vivo só da arte e como professor tenho os meus deveres a cumprir. Relativamente
aos materiais não me fico só pela tela pelos pincéis, óleos ou acrílicos,
procuro cumpre experienciar, abordar os mais diversos materiais e técnicas, um
outro tipo de linguagem não descurando a mensagem.
AP: Um artista deve dedicar-se inteiramente à criação ou pode conciliar
essa prática como uma atividade Profissional?
JF: Na sequência do que disse
anteriormente, o tempo seria gerido de forma diferente, e os resultados
alcançados seriam logicamente também diferentes, pois tinha mais tempo para a coisa pensada, no entanto nem tudo se perde. Como professor da área, o contacto
com os alunos também me enriquece, há uma partilha.
AP: A arte é uma vocação ou uma aprendizagem?
JF: É um misto, sempre a viver
aprendendo. Como dizia Albert Enstein “Eu tentei 99 vezes e falhei, mas na
centésima tentativa eu consegui…” Ou seja, não desisto dos meus objetivos mesmo
que estes pareçam impossíveis, nem que seja na última tentativa consegue-se o
que se quer.
AP: Existe um artista dentro de cada um de nós?
JF: Depende da área, anda por aí cada artista (risos). O talento não se compra na farmácia. Contudo a crítica,
cria em cada um de nós um artista, embora não fazedor. Por outras palavras,
quando algo é exposto por outros é visto é sempre alvo de críticas, o que é
normal. A diferença está entre a crítica e o acto de fazer. Somos artistas nem
que seja na arte de criticar (risos).
AP: Um artista tem que trabalhar sozinho?
JF: Não necessariamente, é sempre
enriquecedor a partilha, o comungar de momentos sejam de trabalho, diálogo, por
aí….
AP: É difícil viver Profissionalmente da Arte em Portugal?
JF: Depende dos lobbies. No meu caso,
se não tenho participado em alguns concursos, o meu trabalho hoje não era
reconhecido. É muito importante ter um suporte, de quem saiba ou perceba. Em
qualquer área por muito bom que se seja, se o teu trabalho não é visto continuas
no anonimato, não quer dizer que seja o suficiente para se afirmar, contudo
quem não aparece é esquecido. Por outro lado, como eu digo muitas vezes, em
qualquer parte do mundo qualquer obra de arte tem um potencial comprador.
Quando tirei o Curso foi sempre
meu objectivo viver da arte, mas para que tal acontecesse era necessário ir ao
encontro de outros mercados que passavam muito pelo estrangeiro. O mercado em
Portugal só reconhece quem entende. Ou seja, só se afirma quem vive em grandes
meios ou tem alguém que acredite e posteriormente promova. E depois há outras
coisas…. Nem todos são filhos do mesmo pai, aliás isso não se passa só no mundo
da arte.
AP: Concretamente, como é que o contexto da crise em afectado o teu
trabalho?
JF: Tem passado ao lado, sinto que as
pessoas estão sempre mais reticentes em adquirir, mas sempre foi assim. Por
vários factores. Se já tive potenciais compradores em poder de compra, já tive
eventuais compradores com bom poder de aquisição e que “vou pensar”, “depois
passo por cá mais tarde”, ou outro tipo de desculpa serve de pretexto para que
o negócio não ocorra. Tive várias situações em que “se esta obra não tivesse
sido já adquirida, comprava-a”, o que vale é que eu já conheço essa ladainha.
Alguns ainda me conseguem “enganar”.
Justificações, “não combina com
os cortinados”, também é giro. Enfim, é o que temos. Eu também apesar das
paredes “preenchidas”, por vezes apetece-me adquirir, mas se não posso
lamento-me. Contudo já adquiri alguns trabalhos referenciados.
AP: O Artista deve ter a preocupação de explicar o seu trabalho?
JF: A minha visão sobre tal, incide
da não preocupação da dita explicação. Todos nós adquirimos coisas, umas mais, outras
menos por necessidade. A aquisição de uma obra de arte, ou é porque se gosta,
se tem possibilidade e se aposta no artista ou por outro motivo qualquer. A
explicação é o mais importante.
AP: A obra de arte tem que ter a mão do artista?
JF: Claro, é por demais evidente que
tal ocorra, nem que seja no processo inicial. A dimensão da obra pode implicar
algum trabalho que não o do próprio, mas no seu cerne a “mão” do artista tem
que lá estar.
AP: Confundimos o ensino pela arte com o ensino das Artes?
JF: Essa questão encaminha-me para
questionar a procura de algo que nos preencha. Somos insatisfeitos por natureza
e no processo de aprendizagem, aprendemos muito como os outros, contudo
processamos informação de diferente forma e isso é sempre bom. O Mestre João
Dixo ensinou-me muito e não foi por isso que me aproximei da sua linguagem .
Recebi sempre com contentamento, o mais e o menos agradável. Quando obtive um
dezanove a Pintura, esse foi o culminar de perceber que é muito bom ouvir por
vezes até aquilo que não se gosta. Quando recebemos só palmas, paira no ar uma
questão interior, não de insegurança, mas de desconfiança. Importante é
acredita no nosso valor e não desistir.
Originalmente publicada na edição impressa da Revista PI8OITO – Edição de Outono de 2015

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