Guia para as eleições nos EUA

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É uma
autêntica invasão americana! Tomaram de assalto as nossas TVs e a nossa pacata
existência e bombardeiam-nos com estrelas de reality shows e esposas de
ex-presidentes que querem ocupar a vaga para aquele que é, provavelmente, o
mais importante cargo no mundo: o de Presidente dos Estados Unidos da América.

Antes de fazer uma leve análise aos candidatos é importante perceber como
funcionam as forças políticas neste país. Existem dois partidos dominantes: os
Democratas e os Republicanos. Os primeiros são mais liberais e os últimos mais
conservadores. Podemos dizer que correspondem à esquerda e à direita,
respectivamente.

Os Democratas são o partido do actual presidente, Barack Obama. São o mais
antigo dos dois partidos e aquele que tem mais membros. Baseiam-se
essencialmente em ideais de responsabilidade social: São favoráveis a um sistema
nacional de saúde público, à regulação dos mercados e a um sistema de
tributação progressivo. Defendem o desinvestimento no sector militar e tendem a
posições mais favoráveis quanto a questões como a imigração, o aborto e o
casamento entre pessoas do mesmo sexo. Ofereceram ao país presidentes como
Kennedy, Franklin Roosevelt (FDR) ou Jimmy Carter. A sua cor é o Azul e
utilizam como símbolo… o Burro.

Os Republicanos ocupam actualmente a maioria dos lugares quer do Senado, quer
da Casa dos Representantes e também possuem a maioria dos Governos Estatais (31
dos 50 Estados são Governados por Republicanos). São apologistas dos direitos individuais,
da auto-regulação dos mercados e tendem a favorecer uma tributação igual para
todos independentemente dos seus ganhos. Opõem-se fortemente ao aborto, casamento
entre pessoas do mesmo sexo e a qualquer tipo de amnistia para imigrantes
ilegais. São favoráveis ao investimento no sector militar e a um serviço de
saúde prestado por privados. A sua cor é o Vermelho e o Elefante é o seu
símbolo. Entre os seus presidentes mais famosos estão Abraham Lincoln, Teddy
Roosevelt e Ronald Reagan.

Neste momento disputam-se as primárias para estabelecer qual o candidato a
presidente pelos dois partidos. Não irei falar de todos os candidatos, apenas
dos mais preponderantes. Nos Democratas estão Hillary Clinton e Bernie Sanders
e nos Republicanos Donal Trump e Ted Cruz.


Começo
com os Republicanos: Ted Cruz é um rapaz-maravilha do partido Republicano.
Formado em Direito, é um cristão devoto e altamente conservador. Foi o mais
jovem Procurador-Geral da história do Texas e também aquele que teve o cargo
por mais tempo. É Senador por esse mesmo estado desde 2012. Isto é
particularmente impressionante porque o Texas é um estado especialmente…
conservador e Ted é hispânico, tendo ascendência cubana. Curiosamente, nasceu
no Canadá, tendo renunciado à cidadania canadense recentemente. Já por várias
vezes negou o fenómeno do aquecimento global.



Donald
Trump é a estrela desta campanha. Empresário sem “papas na língua” é movido por
uma ambição sem fim. Aos 25 anos já liderava a empresa do pai que operava
essencialmente em Queens, mas as suas ambições estavam em Manhattan. Atacou
esse mercado imobiliário e é hoje considerado um dos grandes responsáveis pela
sua regeneração económica. É um grande negociador e investidor. Já como gestor,
deixa a desejar: nos anos 90 esteve muito perto da falência total, mas soube
dar a volta, muito por causa dos incríveis acordos de isenção fiscal que
conseguiu. Regressou em força no novo milénio, não só como homem de negócios
mas também como celebridade: Teve pequenas aparições em vários filmes, uma
colaboração mais aprofundada com a WWE e até o seu próprio reality show.

Há quem diga que Donald sempre quis ser presidente. Mas as suas acções são tão
aleatórias que qualquer cenário se torna plausível. Por exemplo, vários
republicanos acusaram-no de ter financiado a campanha de Hillary Clinton para
as primárias de 2008, algo que Donald não negou. Por outro lado, as suas
palavras dificilmente são aquelas que se esperam de um candidato presidencial. Anti-imigração,
acusado várias vezes de racismo, xenofobismo e outros tipos de discriminação,
Trump ataca sem tréguas qualquer um que se atravesse no seu caminho com um
discurso populista e corrosivo. Esqueçam o politicamente correcto: Trump não
tem filtro, mas tem um objectivo e um público-alvo bem definidos. Está neste
momento na frente na corrida pela nomeação Republicana.



Quanto
aos candidatos Democratas, comecemos por Hillary Clinton. Formada em Direito em
1973 pela reputada Faculdade de Direito de Yale, casou-se com Bill Clinton dois
anos depois, tornando-se Primeira-Dama em 1993. Desde cedo abraçou causas
políticas, mas foi como Primeira-dama que teve o seu projecto mais ambicioso, o
Plano de Assistência Médica de Clinton, mas não conseguiu o apoio político que
precisava para ser aprovado. O seu casamento atravessou períodos muito
conturbados em 1998, com o escândalo Lewisnky, que custou a presidência a Bill
Clinton, mas parece ter catapultado Hillary para a ribalta. Foi eleita Senadora
por Nova-Iorque em 2000, cargo que ocupou até 2009, e concorreu para a nomeação
do partido democrata para as Presidenciais em 2008, acabando por perder para
Barack Obama. Acabou por se tornar Secretária de Estado do Governo de Obama até
2013. 

Acérrima defensora dos direitos das mulheres e empenhada na problemática da
Educação, tem sido acusada de ter tido algumas posições mais próximas do
partido Republicano, nomeadamente durante a administração de George W. Bush,
bem como de ter demasiadas ligações a corporações privadas.


Bernie
Sanders começou como outsider, mas rapidamente ganhou terreno. Bernie, como
gosta de ser chamado, define-se como Socialista e leva uma longa vida política.
Foi Mayor de Burlington entre 81 e 89, naquela que é a cidade com a maior
população de Vermont, Estado pelo qual foi eleito para a Câmara dos
Representantes em 1990, tendo ocupado esse lugar durante 16 anos. Desde 2007
que é Senador. 

Bernie adoptou causas como a igualdade de rendimentos e de oportunidades, a
luta por um sistema de saúde universal e a defesa dos direitos e liberdades
civis, dando especial destaque a questões raciais. Apesar da longa carreira
política, Bernie é membro do partido Democrata apenas desde 2015. Antes disso
concorreu sempre como independente, apesar da proximidade que sempre manteve
com os democratas.

A não ser que algo realmente peculiar aconteça, um destes
quatro candidatos será o próximo Presidente dos Estados Unidos da América. Como
é que isso nos vai afectar? Ainda é cedo para dizer. Mas tendo em conta os
efeitos da política externa dos últimos anos e a força dos Estados Unidos nas
relações internacionais, saber mais sobre os candidatos só pode ser positivo.
Rui Sancho