PATRIMÓNIO – História da Alimentação Regional – A Lampreia como forma de pagar favores da Corte

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O arroz de
lampreia guarnecido de grelos, servido em prato raso de barro, é considerado
uma iguaria gastronómica requintada da nossa região, vendida a preços bem
elevados, com especial relevância nos municípios de Penacova, Coimbra e
Montemor-o-Velho.
Nos últimos anos,
a sua fama e prestígio gastronómico cresceram ao ponto de se fazerem diversos festivais
na região em torno do célebre arroz de lampreia, leitmotiv para outros eventos de carácter lúdico e cultural,
durante a época alta do seu consumo por excelência: Janeiro-Maio.
Além desta forma
bem conhecida e apreciada nas nossas Beiras exista outra variante, a lampreia à
bordalesa guisada, cujo nome deriva de Bordéus e que é servida, especialmente,
no Minho.
O que talvez
poucos saibam é que a lampreia da nossa região, em pleno séc. XVII, já se
assumia como iguaria ou prato gourmet,
de características bem diversas da que chegou. Um importante motor económico-social,
cujas referências se retiram dos livros da Receita e Despesa da Câmara
Municipal de Coimbra onde assentam para a posteridade os pormenores dessa outra
forma, quase esquecida, de preparar a lampreia. Vamos por partes:

As lampreias eram adquiridas pelo município de Coimbra no Rio Mondego, entregando-se
a um mester a gestão do seu apanho e confecção.    Em
1608, por exemplo, compraram-se 75 lampreias por 11.720 reis ascendendo o custo
total a 13.040 reis após preparação das mesmas para consumo.

As lampreias eram assadas no forno, envoltas em azeite, cravo, pimenta,
gengibre e canela, segundo o saber e experiência de uma especialista no amanho
e de uma forneira na selecção e colocação da lenha.

Depois de assadas eram cortadas em quartos, sendo enviadas para a Corte de
Lisboa e entregues ao Escrivão do Rei, que as repartia por diverso pessoal do
Paço Régio, como forma de pagar aos Desembargadores os serviços e favores
prestados à cidade, designadamente, no despacho de petições.
Eram, realmente,
outros tempos, em que Coimbra conseguia ter poder de decisão e conquistar os
governantes nas causas de interesse público, duma forma fácil e legítima: pelo
estômago e barriga! Agora nem com arrufadas, barrigas de freira, crúzios e
mesmo leitão, a coisa lá vai…
No antigo
arquivo camarário de Coimbra podemos encontrar mais informações adicionais
sobre este particular negócio de âmbito familiar mas inserido em toda a sua
plenitude na actividade municipal: locais em que a lampreia era apanhada, usos
e costumes, instrumentos utilizados, famílias que se ocupavam do negócio,
evolução do preço por lampreia, custo e doses dos produtos.
É, também, muito
provável que em arquivos camarários vizinhos, como sejam os de Penacova ou Montemor-o-Velho
se encontrem informações valiosas complementares, que no conjunto conviria
rentabilizar, através de mais recolhas documentais e algumas experiências
laboratoriais.
Trata-se de um
caso raro em que património material e imaterial se conjuga na perfeição, capaz
de oferecer à restauração e gastronomia regional uma mais-valia que por certo a
todos deixaria satisfeitos. Resta estudá-la e potenciá-la. Eu, já despi o
casaco e tenho as mangas da camisa arregaçadas, alistando-me, desde já, no rol
dos ajudantes de campo.

João PInho – Historiador/Investigador