Somos Portugueses, somos Campeões!

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de Julho de 2016 vai ficar na história como o mais brilhante dia da história do
desporto português. E não estou a falar só de futebol: Portugal dominou o dia
no Europeu de Atletismo. Sara Moreira é a nova campeã europeia da
meia-maratona, tendo Jéssica Augusto alcançado a medalha de bronze. Estes
resultados, juntamente com a qualificação de 12º lugar da atleta Dulce Félix
(que já conquistou uma medalha de prata também), culminaram na medalha de ouro
para Portugal na Taça da Europa de distância, um prémio que é atribuído pela
primeira vez e para o qual contam os 3 melhores registos das atletas de cada
país. Tsanko Arnaudov, que pelo nome não parece, mas é português, conquistou a
medalha de bronze no lançamento do peso. Ainda nos destaques individuais, Rui
Costa foi segundo lugar na 9ª etapa da Volta à França em bicicleta. Nas
selecções, o voleibol masculino conquistou a medalha de prata na Liga Mundial e
a selecção de basquetebol feminino sub-20 foi Campeã da Europa.
Não
posso ser hipócrita e dizer-vos que estava frente à televisão a ver atentamente
cada detalhe e cada vitória. Não vibro com atletismo, não como espectador, mas
isso não me impede de reconhecer a importância destas conquistas e creio que
esta é mais uma grande oportunidade para percebermos, enquanto sociedade, que o
desporto em todas as suas variedades é vital, particularmente para os nossos
jovens. O desporto praticado desde a infância ajuda ao desenvolvimento físico e
psicológico das crianças, traz imensos benefícios para a saúde, transmite bons
valores de ética, disciplina, empenho e – talvez o mais importante – cria laços
entre as pessoas, emoções, aquilo que nos faz, enfim, humanos.  Pôr os
filhos a fazer desporto deveria ser uma prioridade para os pais, sempre que
exista essa possibilidade.
Todos
estes feitos são importantes, mas nenhum brilha com a intensidade da conquista
do Campeonato Europeu pela selecção portuguesa de futebol.
O
que se passou em Paris foi o zénite da verdadeira epopeia que foi o percurso da
comitiva lusitana por terras gaulesas. Recordemos.
A caminhada
A
convocatória foi, como sempre, pouco consensual. Alguns como Cedric, ou
Moutinho pouco tinham mostrado esta temporada, outros como Ricardo Carvalho e
Bruno Alves não prometiam o andamento de outros tempos, e de Renato Sanches –
parem de lhe chamar Sanchez por favor – dizia-se estar muito “verde” para estas
andanças. Quando a bola começou a rolar, o empate com a Islândia, país sem
tradição futebolística e que participou pela primeira vez num Europeu, foi uma
desilusão para os portugueses e motivo de chacota pela comunidade
internacional. O empate a zeros com a Áustria fez aparecer o nervoso miudinho,
bem patente no olhar e sorriso irónico de Ronaldo, e o empate com a Hungria, um
jogo electrizante de parada e resposta, assegurou a sobrevivência da nossa
selecção, mas assemelhou-se ao cantar do cisne. Portugal enfrentava a Croácia
no primeiro jogo a eliminar e parecia que ficaríamos por aqui.
Mas
não. Recusámo-nos a morrer. Quaresma empurrou a bola para o fundo da baliza e
Portugal estava nos quartos-de-final e nesse jogo deu-se o ponto de viragem.
Portugal sofreu cedo, lutou, marcou e levou a vitória nos penalties.
O
resto do mundo perguntava-se como é que nós chegávamos às meias-finais. Olharam
para a nossa equipa com desdém, chamaram o nosso futebol de nojento, atribuíram
a nossa performance à sorte e até havia alguma raiva pelo simples facto de
termos afastado a Croácia, a selecção que melhor jogava, diziam.
Mas
a verdade é que os sinais positivos sempre estiveram lá, nós é que temos
tendência a olhar para as coisas más.
Não houve nenhuma selecção que se tenha destacado pelo bom futebol. Vimos embates entre grandes selecções, como o Itália-Alemanha que foram desilusões do ponto de vista do espetáculo. Apesar de não ter apresentado um futebol positivo, Portugal esteve naquele que, para mim, foi o melhor jogo do torneio: o 3-3 contra a Hungria, ainda não perdeu um único jogo oficial desde que Fernando Santos assumiu a liderança e foi também uma das melhores defesas do campeonato, tendo sofrido apenas 1 golo, contra a Polónia, na fase de jogos a eliminar.
O
célebre episódio do “dégueulasse” serviu para unir ainda mais o grupo e toda a
gente à sua volta. Em campo deu-se a mais fantástica metamorfose: Ronaldo.
Aquele jogador maniento, com tiques de vedeta e que exalava frustração em tudo
o que fazia de mal mudou aparentemente do dia para a noite. Fez-se um jogador
solidário, capaz jogar com a equipa e para a equipa. E a equipa reconheceu-o.
Tornou-se efectivamente no Capitão da Selecção Nacional. O jogo da semi-final
foi uma mera formalidade, Portugal atingiu aí a sua maturidade competitiva.
A Final
E
que final épica! Portugal entrou com a tenacidade de sempre, fez das tripas
coração quando o seu capitão e melhor jogador caiu no relvado no jogo mais
importante da sua vida, teve fé nas luvas de Rui Patrício e o quando o Eusébio
encarnou no patinho-feio da selecção deu-se a merecida explosão de alegria:
Éder recebe à entrada da área com o central nas suas costas, aguenta a carga e
corta para o meio, ainda procura o melhor equilíbrio, mas o momento é aquele.
Num movimento técnico irrepreensível atira de longe para o fundo das redes
francesas. Portugal é Campeão Europeu!
O que fica?

muita coisa que vai mudar no seguimento deste campeonato. A percepção para com
certos jogadores, com Éder à cabeça por exemplo. Mas interessa constatar aquilo
que fica, aquilo que aprendemos e que se pode extrapolar para além do desporto.
Talvez o mais importante seja a ideia de que uma liderança forte pode fazer
toda a diferença. Fernando Santos fez uma demonstração exemplar de liderança,
um discurso confiante sem ser exacerbado, a capacidade para criar uma
verdadeira equipa, maior que a soma dos indivíduos, e a crença no esforço
honesto, a capacidade de errar, pensar e ter a coragem de voltar a tentar.
A
todos vós, Campeões, o meu muito obrigado!
Rui Sancho