MEMÓRIA – Entre cantigas e sem canseiras, recordou-se o brio das lavadeiras

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«Quem quiser pode vir para aqui
esfregar», desafiou Isabel Batista. Saia comprida já molhada, lenço na cabeça e
avental colocado, os pés na água do Mondego a amenizar uma tarde tórrida, batia
com a roupa na pedra, esfregava e voltava a passar no rio que corre limpo na
praia fluvial de Palheiros e Zorro.
A presidente do Rancho Folclórico
Rosas do Mondego, que tantas vezes ajudou a mãe na tarefa de lavar a roupa,
vestiu ontem a pele de lavadeira do Mondego e recordou esses tempos. Ela e
outras, de diferentes gerações, lavadeiras ou filhas de lavadeiras, já que era
essa a principal ocupação das mulheres de Palheiros, Carvalhosas, Vale de
Canas, Torres, Misarela, Casal e outras aldeias ali à volta: «lavar roupa para
as casas das senhoras da cidade, de Inverno ou Verão».
De máquinas fotográficas a
disparar, alguns dos que assistiam ontem à recriação da barrela até conhecem a
tradição do lavar de roupa no rio, mas ignoram as técnicas – usar cinza ou
borralho para branquear a roupa colocada numa estrutura de madeira, ferver a
água com restos de sabão para lhe deitar por cima, por exemplo – e os objectos,
como o caniço para a barrela. «Para que servia o pau», perguntava uma senhora
que se voluntariou para a experiência de lavar. «Era para bater os cobertores»,
respondeu uma das lavadeiras. Pois, «matava-se as nódoas à paulada», retorquiu
a espectadora, entrando no espírito de brincadeira que ligava as lavadeiras e
os homens que vieram, como antigamente, dar uma (pouca) ajuda.
«E dormem naquelas barraquitas?»,
continuou outra pessoa. Correcção, «são apartamentos de luxo», como é de luxo a
ementa, «batatas assadas na areia com bacalhau, sopas fervidas», que sabem aos
bons velhos tempos de trabalho mas também de convívio e amizade.

Maria Augusta foi lavadeira com carteira profissional e tudo
Outra voluntária pede mais sabão.
«Olhe que as lavadeiras eram muito pobres e se estragavam o sabão os homens à
noite ralhavam», explicava Isabel Batista. Virando-se para o “público”,
desafiava: «e amanhã podem vir desfazer a barrela e ver as lavadeiras a tomar
banho em combinação».
Neusa Vidal, de 37 anos, estava
encantada com esta autêntica «aula de história», que permite «recordar e
reviver a cultura da nossa região». «Hoje, a roupa põe-se na máquina de lavar e
pouco se sabe de tudo o que este trabalho envolvia». A amiga, Isabel Loureiro,
de 43 anos, ainda lavou bastante roupa com a mãe, «em poceiros» e lembra-se de
pormenores como as «batatas à lavrador» que comiam ao almoço.
Dali de perto, mais concretamente
das Carvalhosas, Maria Assunção diz que «cobertores, tapetes e carpetes eram
estendidos na areia até quase não haver espaço para andar, só se podiam levar
secos, por causa do seu peso».
Ontem estava calor. Hermínia Reis
e Maria Augusta Rodrigues, das Rosas do Mondego, dizem que no Inverno as
lavadeiras faziam «um “ingueiro”, uma vala no meio da areia, junto à margem do
rio, para a água ser menos fria». E cantavam: «lavadeira do Mondego, lava a
roupa sem canseira, cantando lindas canções também canta a ribaldeira…». A
barrela termina hoje na praia fluvial da freguesia de Torres do Mondego, mas
para o ano há-de repetir-se. A mostrar que as tradições não morrem esteve a
pequena Mafalda, de sete anos, a lavar roupa com brio e empenho, como diz que a
avó Otília lhe ensinou.

Andreia Trindade | Diário de Coimbra