Pós-incêndios, o que fazer?

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A calamidade dos incêndios
florestais invade ciclicamente o país de norte a sul e são cada vez mais as
vozes que evidenciam a necessidade urgente de melhor e mais eficaz ordenamento
e gestão florestais, de modo a prevenir-se tal fatalidade. Anualmente são milhares
os hectares de floresta e matos que são destruídos no nosso país pelos
incêndios, tornando mais pobres os solos, a paisagem, a biodiversidade e parte
das pessoas que vivem nos territórios ardidos.

Importa pois entender o que irá
acontecer no Pós-incêndios. Como sabemos, Portugal apresenta fundamentalmente
dois padrões em termos de dimensão da propriedade rústica: o latifúndio,
associado a parte da Beira Baixa, Ribatejo e Alentejo e o minifúndio que
predomina no resto do país. As estatísticas anuais demonstram que é nas regiões
de minifúndio onde ocorrem mais ignições e onde os incêndios são maiores em
termos de área queimada. Também as espécies de rápido crescimento, quase todas
exóticas, são as mais devastadas pelos incêndios, enquanto as espécies nativas,
arbustivas e arbóreas, são as menos afetadas.

O medronheiro (Arbutus unedo),
enquanto espécie nativa mediterrânica, é uma das plantas mais bem adaptadas ao
fenómeno dos incêndios, a par do sobreiro e de alguns carvalhos, além de ser
uma planta rústica, que tanto tolera a falta de água como o frio. A sua
existência de norte a sul do país desde há milhões de anos permitiu uma
coevolução num ecossistema em que os fogos naturais são uma realidade. Assim, à
passagem do fogo, o medronheiro é geralmente uma das espécies que mais
rapidamente recupera e regenera, rebentado desde a base do tronco ou da raiz,
contribuindo para a proteção e reabilitação do solo.

Mais recentemente o medronheiro
tem vindo a ser encarado pelos proprietários rurais de várias regiões do país,
com especial destaque para a Região Centro e Algarve, como uma mais valia
económica à qual se associa um elevado valor ecológico e ambiental. Muitos
proprietários mantêm os seus medronhais espontâneos podados e limpos,
principalmente neste período do verão, de modo a poderem fazer a colheita do
fruto a partir do mês de setembro. Outros proprietários iniciaram mais
recentemente plantações ordenadas de medronheiros, também chamados pomares, com
espaçamentos entre linhas de 4
metros
e mais, que mantém limpos durante todo o ano, com
especial incidência nesta altura do ano, de modo a salvaguardar a sua plantação
e a colheita do medronho, mal acabe o verão. Estas plantações, com áreas
variáveis entre os menos de 1ha a vários hectares, funcionam como autênticos
mosaicos/áreas de fragmentação de manchas florestais contínuas, contribuindo
por si só para a descontinuidade florestal e, como tal, para a necessária
prevenção de incêndios.

O medronheiro é uma das espécies
arbustivas que atualmente apresenta um maior potencial económico,
principalmente devido às múltiplas utilizações do seu fruto, não só para as
famosas bebidas e derivados, como também pelo seu consumo como fruto fresco,
sumo, iogurte, compotas, doces, e variadíssimos usos na gastronomia, pastelaria
e bartending, para além dos inovadores usos na cosmética, na medicina e no
nutricionismo. A Cooperativa Portuguesa do Medronho tem vindo a assumir um
papel fundamental na valorização desta espécie agroflorestal e dos seus
derivados nestas variadas áreas, através de uma integração forte e natural com
as instituições de ensino superior e de investigação que possuem trabalhos em
medronheiros e medronho (cerca de 10 instituições só em Portugal!) e com os
agentes de desenvolvimento do território, nos quais se incluem os municípios,
as associações locais e as agências de promoção territorial.

O fomento de espécies como o
medronheiro, em consociação ou não com outras espécies arbóreas e arbustivas,
representa um positivo contributo para a sustentabilidade ecológica e ambiental
dos ecossistemas mediterrânicos e para a valorização económica dos nossos
territórios e funciona, sem dúvida, como uma solução contracorrente nos tempos
pós-incêndios que se avizinham.

Carlos Fonseca – Biólogo