PATRIMÓNIO – Penacova reabilita casa de António José de Almeida e ambiciona rota de museus

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Humberto Oliveira
assinou hoje o procedimento para o arranque das obras de recuperação da casa de
António José de Almeida, o 6º Presidente da República, originário do concelho
de Penacova. A data foi escolhida para coincidir simbolicamente com as comemorações
da Implantação da República, a 05 de outubro, e também com a data em que a
referida casa transitou dos seus descendentes para as mãos da autarquia, há precisamente dois anos.
Localizada em Vale da
Vinha (União das Freguesias de São Pedro de Alva e São Paio do Mondego), a
casa onde, em 17 de julho de 1866, nasceu António José de Almeida, encontra-se em estado
de degradação e em risco de ruir, o que levou a que o município decidisse
avançar com celeridade à sua reabilitação, ainda antes de o inverno começar.
Nesta primeira fase, a intervenção mais premente incidirá sobre toda a
cobertura, permitindo um posterior planeamento de obras a realizar de acordo
com a definição estratégica da utilização da casa e da sua fruição
pública
“, explica o presidente do município de Penacova, Humberto
Oliveira.
De acordo com Humberto
Oliveira, no futuro, a Casa Museu António José de Almeida juntará sinergias a
outros espaços de relevância cultural e histórica do concelho, permitindo assim
a implementação de uma rota de museus em Penacova, onde constam outros espaços
de gestão pública municipal como o Museu de Lorvão, o Museu Moinho Vitorino
Nemésio e a Casa de Artes Martins da Costa, e também outros de gestão
particular, como os Fornos da Cal (no Casal de Santo Amaro) e a Casa da Freira
(em Penacova), este último será um espaço alusivo ao rio Mondego, com
interesse de reativação programática.
Do ponto de vista
geográfico, por estar erigida no Alto Concelho, a Casa Museu António José
de Almeida permitirá uma representação mais abrangente desta rota museológica.
Humberto Oliveira sublinha a “satisfação de poder recuperar património
importante e dar-lhe sentido, mantendo com padrões de modernidade e conforto a
finalidade ancestral que a memória coletiva dos cidadãos pretende
preservar
“.
  
[Nota Biográfica]
António
José de Almeida


Nascido em 17 de Julho de 1866, em Vale da Vinha, concelho de
Penacova, António
José de Almeida foi
baptizado na Igreja Paroquial de Farinha Podre, hoje São Pedro de Alva, em 03
de Setembro de 1866, tendo, na mesma localidade frequentado o ensino primário.
Em 1880, com 14 anos, matricula-se no Liceu Central de Coimbra e, em 1889-1890,
inscreve-se no curso de Medicina, que completa em seis anos.
Desde jovem ligado ao ideário da República, escreve, durante o seu
período de estudante, vários panfletos marcadamente opositores à Monarquia e ao
conservadorismo vigente na sociedade e, nomeadamente, na Faculdade que
frequenta. Do seu período de estudante destaca-se a sua condenação em 25 de
Junho de 1890, por ter escrito o artigo “Bragança, O Último” no
folheto “Ultimatum”; o seu envolvimento na revolta de 31 de Janeiro
de 1891, no Porto; o discurso proferido por ocasião da morte de José Falcão, no
dia 14 de Janeiro de 1893, o primeiro de uma carreira de eloquente orador; a
fundação, em 1984, o jornal “O Raio”.
Em 30 de Julho de 1895 forma-se em Medicina com a classificação de
distinto, partindo para Angola em 1896 e, depois, para São Tomé, onde exercerá
a profissão de Médico. Regressa a Lisboa m 22 de Julho de 1903 e, nesse ano,
viaja para França, estagiando em clínicas de Paris. Mesmo à distância, colabora
com o jornal “O Mundo”, onde explana o programa do Partido Republicano
Português.
De regresso a Portugal, interrompe a carreira de médico, optando
pela vida política. Entre 1906 e 1910 profere inflamados discursos na Câmara
dos Deputados e, em 28 de Janeiro de 1908, após uma tentativa de Revolução, é
novamente preso. Em 1910, após a Implantação da República, é nomeado Ministro
do Interior do Governo Provisório da República, cargo que exercerá até 1911.
Deste período datam as suas iniciativas de reorganização do ensino médico, a
reforma da instrução primária e a reforma universitária, com a criação da
Universidade do Porto.
Em 14 de Dezembro de 1910 casa com Maria Joana Queiroga, de quem
terá uma filha, Maria Teresa.
Funda e dirige o jornal República em Janeiro de 1911 e, entre 1912
e 1919 lidera o Partido Evolucionista. Entre 1916 – 1917 exerce o cargo de
Ministro das Colónias. Na sessão do Congresso de 06 de Agosto de 1919 foi
eleito Presidente da República.
Destacam-se durante a sua presidência a visita dos Reis da Bélgica
e do Príncipe do Mónaco; a travessia do Atlântico por Gago Coutinho e Sacadura
Cabral; a trasladação dos restos mortais dos soldados portugueses mortos em
França e na Flandres; a revolta de 21 de Maio de 1921 e os graves incidentes de
19 de Outubro do mesmo ano; e a viagem triunfal que o levou ao Brasil por ocasião
das comemorações do 1º Centenário da Independência daquela ex-colónia.
Após ter sido substituído no cargo por Manuel Teixeira Gomes, em
05 de Outubro de 1923, continuou a colaborar com o jornal
“República”. Sofrendo de gota, passaria os últimos anos de vida numa
cadeira de rodas, falecendo em 31 de Outubro de 1929, não chegando a tomar
posse como Grão-Mestre da Maçonaria, cargo para que havia sido eleito.
Em sua homenagem, a
Assembleia Municipal de Penacova votou, por unanimidade, em 28 de Maio de 1976,
marcar como feriado municipal o dia 17 de Julho, data do seu nascimento e, em sua
memória, foi erigido, em
Penacova, um busto da autoria do escultor conimbricense Cabral Antunes,
inaugurado em 05 de Outubro de 1976.
A
sua homenagem faz-se, também, em São
Pedro de Alva, onde, em 05 de Outubro de 1997, foi inaugurada uma estátua
sua de corpo inteiro e em Vale da
Vinha, na rua
e largo baptizados com o seu nome, onde fica localizada a casa que o viu nascer
e que ainda hoje mantém, à soleira da porta, um painel de azulejos com uma
quadra, oferecido por Maria Adelaide Bastos Leal: “Na
sua aldeia há uma fonte / Que bem canta o seu destino / Inda na terra há
pegadas / Dos seus passos de menino.”
A
casa do antigo republicano, licenciado em medicina, foi adquirida por 50 mil
euros, após um período de negociação de cerca de três anos, tendo a escritura
sido assinada no dia 05 de outubro de 2014, sendo um objetivo do município o
restauro deste imóvel, de forma a preservar a sua história e perpetuar os seus
símbolos.