ENTREVISTA – Dj Nuka fala à PI8OITO sobre a sua carreira musical

0
6
Vive do público e para o público que o acompanha. O palco é um vício e o sorriso faz parte da festa. Falámos com Pedro Costa. aka DJ Nuka com vários Cds editados e disponíveis nas várias plataformas digitais.


Quanto estás a
tocar para uma multidão e percebes que todos estão a corresponder, o que passa
pela tua cabeça?
(risos) É bom, é bom. Acho que qualquer músico, seja
músico pop, seja rock, seja pimba, seja o que for… Esse é o principal objetivo,
é a satisfação de dever cumprido.
Consideras que
houve uma evolução nas festas ao longo destes anos e já levas bastantes?
Houve muitas alterações. Aliás, nós Portugueses
estamos em constante alteração das coisas (risos). Mas sim, houve muitas
mudanças, a gora se para melhor ou para pior o standart de bom é relativo. O
teu bom não tem que ser o meu bom nem eu vou mudar A, B, ou C.
Como surgiu o
teu interesse pela música e quando percebeste que o que querias era fazer
música?
Eu desde puto que tenho tendência para a música, não
tinha qualquer tipo de formação musical, entrei em bandas através de programas
de televisão, fui abordado por grupos de baile, mas a minha onda era o rock,
não tinha nada a ver com bailes…Isso de bailes e festas não era para mim, eu
queria era rock e tal…Mas foi na altura em que tinha acabado de tirar a carta e
precisava de dinheiro (risos) e então fui fazendo mais um ano, mais um ano,
mais um anos…Quando acabas uma época olhas para trás e dizes: “ganhei x e para o ano vou comprar isto, para o ano
vou comprar aquilo.”
Porquê DJ Nuka?
Vem da minha alcunha de miúdo, a alcunha pela qual era
conhecido – Manuka. Isso vem de uma novela que havia há alguns atrás, havia um
personagem que era parecido comigo e na escola primária ficou Manuka. Dj Nuka surgiu
um bocado como diminutivo. Eu a dada a altura quando fiz a primeira atuação e
que foi um teste. Coloquei no facebook “que nome é que vamos dar ao DJ?” Houve n cenas…Houve malta a dizer DJ Sagres
porque eu gostava de beber umas minis (risos) e depois ficou Nuka, era um nome
pequeno que no cartaz ficava grande e são só quatro letras.
Música e
personagem constroem-se juntas?
Isso é uma pergunta interessante porque muitas vezes
os músicos preocupam-se com a parte musical e não com o personagem que são duas
coisas diferentes. O Pedro (eu) é uma pessoa, o Nuka é outra, embora em vários
aspetos se complementem, ambos são simpáticos, ambos gostam de ajudar, mas
existem coisas que o Nuka faz que o Pedro se calhar não fazia (risos) mas tem
que ser feito! O próprio personagem, o próprio boneco, tu criaste uma cena que
seja aceite por todos, dos mais novos aos mais velhos e há muita gente que
gostava de ser o David Guetta, mas também há putos que gostavam de ser o DJ
Nuka e isso é fixe (risos).
Quantas
pessoas trabalham contigo e que fazem?
Trabalho com voluntários. Depende dos espetáculos, mas
sim, às vezes são alguns na montagem.
Que relação se
estabelece entre as características do teu espaço de trabalho, a natureza das
tuas músicas e os locais onde elas se materializam, onde as tocas?
Isso é outra das vertentes que a maior parte dos
músicos e DJs não se preocupam porque é evidente que tens que criar a tua
identidade. É importante mas essa identidade cria-se já num patamar mais
elevado. Se queres viver da música dentro do patamar em que estás inserido e aqui
existem duas vertentes importantes; se queres uma casa para os clientes estarem
a beber copos, a conversar com música de fundo, isso é conceito que eu chamo
mais deep house, de tech house…é um cena para estares a ouvir música soft. Se
queres festa vai lá Nuka que é diferente! São dois bons conceitos mas depende
do que queres para a tua casa. Agora é evidente que se eu estiver num festival
para juventude não posso passar o mesmo repertório que numa festa popular. Tens
que estar em constante mudança, trabalhar com o bar, perceber se o bar está a
faturar ou não, se as pessoas estão a aderir, se estão a mexer no telemóvel, se
estão distraídas, se estão de costas…Isso é uma noite e cada noite é uma noite.
Não deixas
nada ao acaso, nomeadamente a relação entre a música e o consumo feito no bar…
Sim, é importante, é a vertente comercial. Isto para
mim é um negócio, é um produto que tem de ser trabalhado. Claro que tens que
saber cativar o s líderes, as pessoas mais emblemáticas naquele determinado
sítio, que trazem mais x pessoas. Eu
por natureza sou uma pessoa acessível e gosto de falar com toda gente, sejam
ricos, sejam pobres, juízes, pedreiros, whatever…Isso é uma vantagem natural
para mim, não é uma coisa feita. Agora numa noite sim, sempre com atenção.
Sei que tens
tocado também no estrangeiro, é diferente de tocar em Portugal?
Não é igual. Os Portugueses estão em todo o lado e em
grande número. Onde tenho ido há sempre portugueses que seguem o meu trabalho
no verão quando cá estão e através das redes sociais. É emocionante reencontrar
essas pessoas e sentir o carinho que têm por mim…Sinto-me sempre em casa!
Como preparas
um set?
Não preparo! Cada noite é uma noite. Deixas-te ir em
automático (risos). Claro que tenho as armas já preparadas e ao meu dispor.
Tenho alternativa para o meio da noite, se for necessário, vira-la. Preparado
para tudo!
Descreve-me os
teus ritmos, métodos e hábitos de um dia-tipo no teu processo criativo.
É assim, nós humanos descendemos dos africanos que foi
onde nasceu o mundo e é onde eles ainda conseguem fazer mexer o corpo, porque
agora tens muito a onda do kizomba, mão o kuduro também é. Portanto isto faz
com que o corpo mexa e eu baseei-me um bocadinho nisso. O teu coração bate a x pulsações normalmente, se tu dobrares
o house music não é por acaso que tem 128 bpm, portanto isto é sempre o dobro
da batida do nosso coração e faz com que as pessoas mexam. Há quatro notas tipo
que o cérebro humano assimila melhor. Se fores analisar, todas as músicas pop
dos anos 1960 até agora, aquelas mais conhecidas, que entram, têm quatro, cinco
notas e são aquelas notas a que o nosso corpo reage melhor.
Pensas na
receção do teu trabalho no público e na sua reação? Achas que deves ter a
preocupação de explicar o teu trabalho?
Sim é importante, mas quem vais explicar o meu
trabalho é o público. Se adere é porque está bem feito, se não adere é porque
não está feito para aquele tipo de público. Existem duas coisas interessantes;
eu tenho originais em português, mais populares, baladas e coisas assim e tenho
a vertente mais electrónica de DJ, públicos alvo completamente diferentes que
às vezes são confundidos, porque existe muito aquela ideia de que o Nuka
passada baladas e depois, aparece numa cena grande a passar música electrónica
e que nada tem a ver com os meus originais….Eu dei por mim em 2015 a fazer música para
Indonésios, Canadianos e Suecos…

De repente vi que os Indonésios compravam mais músicas
minhas que os Portugueses e deixei-me ir na onda. Cá consegui com o primeiro CD
que setecentas pessoas ficassem com ele e no segundo CD foi um bocadinho menos,
foram seiscentas e tal.
Qual a música
que mais dinheiro te deu?
Foi uma balada, o que é engraçado…Foi “Olha para mim”
a música que mais vendeu, essa e o “Salto alto”, músicas de 2014. Se calhar não
é a música mais conhecida, porque a mais conhecida é “Só penso em ti” que
apareceu na televisão em entrevistas, que é uma coisa que eu nunca fui, mas a
música apareceu lá no fundo (risos) e foi porreiro. Uma vez foi na entrevista
da Cristina Ferreira ao Mickael Carreira e outra com a Rita Pereira, sempre com
a minha música de fundo. Vamos ver onde é que essa vertente dos originais
vai…Não está parada, está em stand-by. Este ano fiz uma pausa e não lancei nada
porque para mim este foi o ano complicado a nível pessoal.
Está associado
a alguma editora?
Não. Posso dizer-te que saiu o primeiro EP em 2013,
eram quatro músicas e que ficaram prontas no final de Outubro e só saiu para o
mercado em 15 de Dezembro porque faltava uma assinatura daquele, quando hoje em
dia tens mecanismos que em 24 horas te põem a música no mundo inteiro. Pagas,
não é muito, e compensa. Os CDs físicos é complicado porque fazes promos e não
recebes dinheiro o u se queres realmente receber dinheiro tens muita burocracia
e não justifica, a não ser que estejas num patamar bastante alto.
Como é que vês
a conjuntura actual em termos de políticas culturais em Penacova?
Nós temos aqui forças de bloqueio, não só na música,
mas também na política. Eu ligo às pessoas e vejo se elas fazem um bom trabalho
ou não. Quanto aos partidos uns arrancam da esquerda para a direita, outros da
direita para a esquerda mas os objetivos acabam por ser os mesmos. Os partidos
hoje estão bloqueados pelo poder central, não fazem o que querem, fazem o que
lhes deixam fazer e depois quem toma decisões fica limitado.
Como te sentes
sendo o Dj mais acariciado em Penacova?
Normal. Naturalmente aconteceu porque eu sou amigo das
pessoas. Claro que fiz para que isso acontecesse, é evidente, tens que lutar,
como em tudo na vida. Em Penacova tens o Rui que nada tem a ver comigo, é uma
pessoa que está na onda dele e está bem e tens o Nuka, que é para fazer festa,
e quando digo que é para fazer festa é se a festa é música brasileira música
electrónica ou outra qualquer eles é que mandam, nós estamos cá para trabalhar.
Tens ambição
de ficar referenciado para lá do teu tempos?
Sim. Aconteça o que acontecer vai sempre ficar. Já
causei muitos divórcios e muitos casamentos (risos). Nas minhas noites também
já se estragaram muitas coisas, já se fizeram muitas coisas. Criou-se aqui em
Penacova e arredores uma onda de DJs aí há 10 anos se calhar porque eu apareci
e começaram a ver e a fazer. Uns acabaram outros continuam, outros estão a
começar, é como em tudo se tu tiveres como objetivo fazer, tu fazes. Eu não sou
bom em nada, mas aquilo que digo que faço vou fazer faço, mal ou bem faço.
Como é a
convivência entre DJs em Penacova?
Pela frente é pacífico (risos). Acaba por ser normal e
a concorrência acontece na música em geral. Respeitar e saber viver com a
vitória e com a derrota também. Eu tenho noites más como toda a gente, se
calhar tenho 90% de noites boas, mas também tenho 10 % más (risos). Normal como
tudo na vida.

Originalmente publicada na edição impressa da Revista PI8 de outubro de 2016