A NOSSA HISTÓRIA – Carvalho e a polémica data de 1927

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Carvalho passou para o concelho de Penacova em
1927?  Não sabemos há quanto tempo esta informação
consta
do site do município
, mas há já alguns meses que alertámos para este erro elementar de história local. É certo que esta afirmação aparece noutros
documentos que se referem a Penacova, certamente escritos por quem sabe muito
pouco sobre este concelho e também sobre o antigo concelho de Carvalho. 
Para a origem deste imperdoável e repetido
lapso apresentaremos, mais à frente, uma explicação que nos parece plausível.


Dizer que Carvalho foi anexado em 1927 induz a
que se pense que Carvalho deixou de ser concelho nesse ano! Como assim? Ao longo da história política e administrativa de Portugal verificaram-se muitas alterações, por vezes profundas, no seu mapa territorial. A mais significativa foi, de
facto, a de 1836, na sequência da Revolução de Setembro e da Reforma de Passos
Manuel. Foram extintos cerca de quinhentos concelhos, muitos deles “
pobríssimos”, de forma a “criar circunscrições municipais
maiores” e com viabilidade financeira. Aquele Decreto de 6 de Novembro de 1836
criou 21 novos concelhos em Portugal Continental, ficando a existir 351
municípios.



Com
a Carta de Lei de 3 de Agosto de 1853 há uma nova supressão de concelhos que
passam a ser 268, sendo por conseguinte eliminados oitenta e três. Vem depois o
Código Administrativo de 1867, com carácter descentralizador, mas que impunha um
mínimo de três mil fogos para os concelhos. Ora isso implicari a supressão de
104! No entanto, este Código mal chegou a vigorar. No dia 10 de Dezembro foram
reduzidos os concelhos e logo a 14 de Janeiro, na sequência da “Janeirinha”,
tudo foi declarado sem efeito. Chegamos depois a 1896, ano em que desaparecem
os concelhos de 3.ª ordem (ficando apenas a assembleia dos 40 maiores
contribuintes). Mais uma  reforma administrativa
que implicou  a extinção de vários
concelhos e consequente reajustamento de freguesias.


É
no referido ano de 1836 (faz agora 180 anos) que Penacova assistiu à “morte” de
um concelho e ao “nascimento” de outro. Referimo-nos a Carvalho e a Farinha
Podre, respectivamente. Se consultarmos os mapas publicados no Diário do
Governo daquele ano, verificamos precisamente que a freguesia de Carvalho – “menos
os povos situados ao Norte da Ribeira de Carvalho” – passou para o concelho de
Penacova, passando a figurar na coluna dos “concelhos extinctos”.  Penacova perdeu Santo André de Poiares  e Farinha Podre (que passaram a ser cabeça de novos
concelhos).  Perdeu também Travanca, Paradela
e Oliveira do Cunhedo. Por sua vez “ganhou” ao concelho de Coimbra, Figueira de Lorvão, Lorvão
e Sazes de Lorvão. O novo concelho de Farinha Podre integrou Oliveira do
Cunhedo (com excepção do Cunhedo que passou para Mortágua), Travanca, Paradela,
Carapinha (que pertencera ao concelho de Sanguinheda e que 1837 passou para
Tábua), Covelo (era do concelho de Ázere), “Cortiço” (aparece assim escrito,
mas referir-se-á a S. Martinho da Cortiça, que era até aí do concelho de Pombeiro)
e S. Paio (que antes pertencia ao concelho de Óvoa). Recorde-se que na época
Mortágua, Santa Comba Dão e Carregal do Sal, hoje do distrito de Viseu,
pertenciam ao distrito de Coimbra. Como sabemos o concelho de Farinha Podre não
sobreviveu à reforma de 1853.


Concluindo
(e resumindo): Carvalho foi anexado a Penacova em 1836. Trezentos e vinte e
dois anos depois de, em 1514, D. Manuel I lhe ter concedido Carta de Foral. Mas,
e então, porque se começou a escrever que Carvalho passou para Penacova em
1927? Pelo seguinte, cremos nós: até 1927 Carvalho teve um Cartório Notarial.
Em notas do Arquivo Distrital, a esse respeito, traça-se uma síntese histórica daquela
vila. O texto termina com o parágrafo: ”Passou para Penacova em 1927”. Ora, o
que “passou” nesse ano, se bem entendemos,  não foi a freguesia mas o seu Cartório!  


                                                                    David Almeida


Anexada ao Concelho de Penacova em 1927, a freguesia de Carvalho, tem uma área de 32 Km2. De acordo com os Censos de 2001, tem uma população de 969 habitantes”