ENTREVISTA – Rodrigo Carvalho, fala à PI8 acerca de uma vida ligada à música.

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Licenciado pela Escola Superior de Educação de Coimbra, no Curso de Professor de Educação
Musical do Ensino Básico e Mestre em Ensino de Música, variante de Canto, pela
Universidade de Aveiro, Rodrigo Carvalho é director artístico do Coral
Magister, do Coro Vox et Communio de Penacova e do Coro Misto da Universidade
de Coimbra. Integra ainda a direção artística do Coro Sinfónico Inês de Castro.
Para além do trabalho enquanto maestro, apresenta-se regularmente como solista,
tendo já atuado com a Orquestra Clássica do Centro e a Orquestra do Norte – 
António Alpoim
  

Lembra-se da altura da sua vida em que
se começou a interessar pela música? Que idade tinha? Qual o primeiro
instrumento que aprendeu?
Tudo
começou aos 8 anos numa escola de música em Travanca do Mondego. A escola foi
fundado em 1983 pelo Padre Veiga e tinha como professor o Celestino Ortet. Foi
com ele que iniciei os estudos tendo sido uma pessoa muito importante na minha
formação. Comecei por estudar órgão, embora mais tarde tenha mudado para piano.
Quando percebeu que a música poderia
ser um modo de vida? Não sei bem. Houve um momento em que percebi que o meu
futuro teria de estar relacionado com a música.
Na
altura estudava Engenharia Informática sem grande motivação… Mudei de curso e
fui estudar para a Escola Superior de Educação na licenciatura para Professor
de Educação Musical do Ensino Básico. Simultaneamente continuava a estudar
piano no Conservatório de Música de Coimbra e cantava em dois coros. Apesar de
gostar de cantar nem sequer me imaginava como cantor ou maestro. Também não
pensava em ser professor, queria apenas tocar piano e dedicar-me à
improvisação… No entanto, as oportunidades começaram a surgir e aos poucos o
percurso mudou de rumo. Quando estava no terceiro ano de curso surgiu a oportunidade
de dirigir um coro e apesar das dúvidas sobre a decisão que devia tomar,
arrisquei e ainda bem que o fiz! Comecei nessa altura a estudar canto e o
percurso mudou drasticamente…
Ensaia com que frequência?
De
setembro a junho, tenho ensaios todos os dias. Entre o trabalho na escola e o
trabalho com os coros ou outros projetos pontuais, não sobra nenhum dia livre.
Mas não me queixo… Para a formação de um músico é importante estudar numa
escola do ensino vocacional artístico e prosseguir estudos no ensino superior,
mas isso por si só não é suficiente. A rotina do ensaio, a repetição e a
experiência que daqui advém são muito importantes. Por isso cada ensaio é uma
oportunidade para evoluir!
Que músicos ou bandas foram
inspiradores na sua carreira?
Ao longo dos anos as referências foram
mudando. Lembro-me que até aos 18 anos gostava muito de Queen. Quando estudei
improvisação gostava muito de ouvir Keith Jarrett, Pat Metheny, Mario Laginha e
Bernardo Sassetti. Hoje em dia tento ouvir um pouco de tudo, de Sinatra a
Dietrich Fischer-Dieskau, de Snarky Puppy a Tom Jobim. Na música coral aprecio
muito o trabalho de compositores como Eric Whitacre, Ola Gjeilo, Eric Esenvalds
ou Eurico Carrapatoso. Felizmente há muita boa música para ouvir!




Que parte do seu trabalho é menos
interessante?
O
facto de a cada ano lectivo poder ter o mesmo coro mas com diferentes
pessoas… Por exemplo, o Coro Misto da Universidade de Coimbra é composto
essencialmente por estudantes. Todos os anos o coro muda bastante devido à
entrada de novos coralistas e pela saída daqueles que, ou por prosseguirem
estudos noutro local ou por ingressarem no mercado de trabalho já não conseguem
participar nas atividades do coro. Se por um lado se assiste a uma evolução
notória ao longo do ano letivo, em setembro, quando se iniciam os ensaios, não
há continuidade. Esse é o lado menos interessante, porque a vontade é sempre
fazer mais e melhor.
Qual a importância da música na
educação?
O
que aconselharia a alguém que quer começar uma carreira musical? O ensino da
música no contexto do ensino regular, deveria ser obrigatório. Os benefícios
para o desenvolvimento cognitivo e da sensibilidade para a arte assim o
justificam. A vivência comunitária da música pode contribuir em muito para o crescimento
artístico de uma criança, mas também para a sua formação cívica e humana! Hoje
em dia a sociedade valoriza demasiado o talento em detrimento do trabalho. São
vários os programas de televisão que em pouco tempo transformam um anónimo
talentoso na nova estrela nacional. No entanto, na evolução de um músico o
trabalho é muito mais importante do que o talento. Tal como dizia Thomas
Edison, “a genialidade resulta de 1% de inspiração e 99% de
transpiração”. O caminho é longo e duro, mas é apaixonante… Por isso, se
querem ter uma carreira musical, tentem aproveitar todas as oportunidades para
evoluir e nunca deixem de estudar.
Têm alguma preocupação em explicar ou
contextualizar a música quando têm públicos menos conhecedores?
Confesso
que durante um concerto não gosto de falar, embora reconheça a importância de o
fazer perante um público menos conhecedor. Procuro, durante as aulas ou
ensaios, contextualizar e explicar o que se está a cantar, pois só assim se
poderá expressar melhor o que está na partitura.
Quais os momentos mais marcantes da sua
carreira até agora?
Lembro-me
do primeiro concerto em Penacova enquanto maestro por ser o momento da minha
estreia, ainda por cima na minha terra! Lembro-me da estreia do Coro Vox et
Communio, também em Penacova e do primeiro concerto enquanto solista com
orquestra, em Dezembro de 2010 com a Orquestra Clássica do Centro, assim como
do concerto no Grande Auditório do Centro Cultural de Bélem em 2014, por ser
uma sala tão emblemática. Por fim, a primeira vez que dirigi coro e Orquestra,
em Dezembro de 2016 foi também um momento muito especial, pela estreia na
direção orquestral e por ter juntado em concerto dois coros que me são
especiais, o Vox et Communio de Penacova e o Coro Misto da Universidade de
Coimbra.
Houve algum momento em que se tenha
“esquecido” de que estava a dirigir um concerto?
Apesar de frequentemente me esquecer de muita
coisa isso nunca aconteceu… Todos os concertos são diferentes, mas alguns
conseguem ser mais especiais que outros. Consegue-se por vezes criar uma
ligação entre os músicos que permite gerar um ambiente único e irrepetível.
Nesses momentos, pouco importa aquilo que nos rodeia, pois somos apenas nós e a
música. Se isso é um esquecimento, então sim, já aconteceu várias vezes!
Considera
que existe uma desproporção entre a formação de públicos e a formação de
músicos? Portugal tem mercado para tantos e tão bons músicos?
Julgo que neste momento o panorama musical
está a mudar. O investimento no ensino artístico permite a formação de melhores
músicos e, ao mesmo tempo, de um público mais conhecedor e exigente. É óbvio
que nem todos os que estudam música se tornarão músicos profissionais, mas
estamos no bom caminho para musicalmente, termos um público mais culto.
Sente
que estamos um país diferente daquele do tempo em que estudou?
Sim, o ensino da música massificou-se. Nos
últimos 20 anos surgiram muitas academias de música, muitas escolas… Hoje em
dia a oferta é vasta e diferenciada, permitindo desenvolver um percurso semelhante
ao do ensino oficial dos Conservatórios, como ter um percurso alternativo e
adequado aos interesses e possibilidades de cada um. Nesse sentido, o panorama
é muito mais favorável que há duas décadas atrás.
Acha fundamental um músico estudar no estrangeiro?
Eu
não tive essa experiência, mas todos aqueles que conheço que o fizeram relatam
os benefícios dessa experiência. Mas, mesmo não tendo a oportunidade de estudar
no estrangeiro, hoje em dia o contacto com aquilo que se faz lá fora é mais
fácil. Há vários professores conceituados que vêm regularmente a Portugal fazer
masterclasses, e no sentido inverso, com a facilidade com que hoje se pode
viajar, também é possível ir lá fora estudar por curtos períodos de tempo.
Enquanto maestro, quais têm sido os
seus projetos?

O
meu tempo divide-se entre quatro coros. Num deles, o Coro Sinfónico Inês de
Castro, sou um dos elementos da direção artística e ensaiador do naipe dos
baixos. O coro canta regularmente com orquestra, tendo já atuado com a
Orquestra do Norte, com a Orquestra Clássica da Madeira, entre outras, o que
permite realizar um trabalho aliciante. Nos outros três, o Coral Magister da
Mealhada, o Coro Vox et Communio de Penacova e o Coro Misto da Universidade de
Coimbra sou o diretor artístico. Cada um deles coloca-me desafios diferentes,
pelas suas características próprias, mas tenho encontrado em todos novos
desafios. Os últimos dez anos de trabalho permitiram gravar dois cds, fazer
concertos em Espanha, Alemanha e Itália, conhecer novas pessoas e fazer muitos
amigos.

Originalmente publicada na revista PI8 de janeiro de 2017