A Floresta Portuguesa e a sua Gestão

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“Há
uma discussão muito grande sobre o eucalipto, querem-nos fazer acreditar que o
problema dos incêndios é problema dos eucaliptos e eu, que até não sou
particularmente defensor do eucalipto, acho que não faz sentido estar a
demonizar o eucalipto porque nós sabemos que uma grande parte do território não
tem eucalipto e que o eucalipto é o que menos arde, portanto, o problema não é
do eucalipto”
– Pedro Passos Coelho

Ainda o solo estava morno e foi esta a
reacção do principal líder da oposição ao coro de vozes que se levantou em
defesa de uma reforma florestal efectiva acompanhada de uma profunda reflexão
sobre a cultura de eucalipto.

Comecemos pelo mais óbvio: as mentiras. É
claro que “uma grande parte do território não tem eucalipto”, até porque a
floresta portuguesa ocupa 35,4% do território nacional, mas o eucalipto é a
espécie florestal predominante, com 25,4% da ocupação, o que equivale a 812 mil
hectares, segundo os dados do PEFC. Já quanto ao eucalipto ser o que menos
arde, basta consultar os dados do Inventário Florestal Nacional do ICNF e
verificar a relação directa entre a área ardida e o aumento da área de
eucaliptal. A título de curiosidade, a espécie é designada em algumas zonas da
Austrália como “Arvore Gasolina”.

Agora que tirámos isto do caminho, vamos
imaginar que Pedro Passos Coelho (PPC) ainda tem um pingo de credibilidade,
apesar de ser capaz de dizer duas mentiras numa frase, literalmente.

Na mesma entrevista, PPC remete para o
valor económico do eucalipto de forma brilhante, lembrando que “ainda vai
dando algum rendimento” aos proprietários dos territórios que “não
tem comparação” com outras espécies, opinião rapidamente difundida pelos
cronistas do costume.

Não há como negar o rasgo de genialidade
política com que PPC nos presenteou. Sublinhar a importância económica da
cultura para os pequenos proprietários, ao mesmo tempo que se passa uma
mensagem clara de que não há alternativa (onde é que já ouvimos isto?), não só
cria uma narrativa agradável ao ouvido do cidadão comum, como representa um
problema à malta mais à esquerda, que nunca levantaria a voz contra os
interesses dos pequenos proprietários.

A este ponto é preciso desconstruir a ideia
de que há uma perseguição ao eucalipto. Portugal tem a maior área relativa e a
5ª maior área absoluta de eucalipto do mundo, só atrás da China, Índia, Brasil
e Austrália. O Decreto-Lei nº 96/2013, assinado entre outros por PPC e Assunção
Cristas a 30 de Maio de 2013, viria a ser conhecido por Lei do Eucalipto: desde
então, os eucaliptos representam 87,4% de
todas as espécies plantadas. PPC tem razão quando diz que tem de haver uma actividade
económica cuja remuneração sustente o próprio território, mas o actual estado
das coisas não configura uma solução viável, pois o rendimento que gera não é
suficiente para justificar o investimento dos pequenos produtores na limpeza
periódica do terreno que previne os incêndios.

Não posso evitar questionar-me: é este o
limite da nossa ambição? Uma floresta pobre, monocultural e sêca, que hipoteca
o futuro recorrentemente a troco de uma esmola a cada 10 anos?

Não.

Arrancar todo o eucaliptal e proibir a
plantação não resolveria nada, mas medidas como o Decreto-Lei nº 96/2013 só
garantem a propagação descontrolada da espécie e a continuação do flagelo dos
incêndios. A alternativa? Criar unidades de gestão florestal que promovam a
agregação de proprietários de parcelas adjacentes, através de fórmula
associativa ou cooperativa. Esta solução permitiria uma gestão profissional de
áreas contínuas de floresta mais amplas, o que aumentaria a sua rentabilidade,
adoptando uma gestão respeitadora dos pequenos produtores, promotora da
sustentabilidade do rendimento, e que incentive a exploração profissional da
floresta, a sua função ambiental e ocupação do território.

Ou seja, o problema não é o eucalipto per se, mas antes a gestão irresponsável
quer do território, quer da espécie. E nesse aspecto, não há como não atribuir
responsabilidades políticas a todos os governos dos últimos 15/20 anos, com
especial destaque para o executivo de PPC, que contou com Assunção Cristas na
pasta da Agricultura. Digo isto não por uma questão de afinidade política – até
porque entendo que há também responsabilidade política por parte deste governo,
essencialmente por não concordar com a sua proposta de sociedades de gestão
florestal, bem como pela inércia relativamente à Lei do Eucalipto – mas porque
os actuais líderes da oposição, com claro destaque para a ex-Ministra, foram
rápidos a atacar o executivo, desviando assim as atenções das suas próprias
responsabilidades.

O aproveitamento político, a
auto-desresponsabilização e a consequente desconsideração demonstrada pelas
vidas humanas que se perderam, exigem um nível de psicopatia incompatível com o
desempenho de cargos públicos.

Rui Sancho