Os coitadinhos

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Sempre
que o fogo se transforma numa ameaça e se prolonga por diversos dias, ouvem-se logo as vozes do Povo a
considerarem os bombeiros voluntários uns
coitadinhos! Detesto encará-los dessa forma, porque tenho imensa estima e respeito por eles e porque tenho a certeza que eles não o são e nem o querem ser. São homens e mulheres, são pais, mães, filhos, netos e irmãos.
São médicos, enfermeiros, mecânicos e engenheiros, pedreiros, padeiros,
pintores, bancários e carpinteiros. Em suma, os Bombeiros Voluntários são todos
aqueles que, com profissão, dispõe do melhor do seu tempo para ajudar a tratar, acarinhar,
aconselhar o outro e até morrer para o salvar. Mas sempre assim foi e nunca
veio mal algum ao mundo por isso, bem pelo contrário.
Desde
que me lembro, tudo se resolvia com o esforço e com a boa vontade de cada um desses
voluntários, da disponibilidade, sua e do patrão, e com a tolerância, quase sempre forçada, da sua própria família, mas sempre num espírito voluntário de entre
ajuda, de entrega e de missão, sem pedir nada em troca. Quando a sirene tocava,
tudo o resto ficava em segundo lugar. O objetivo era chegar o mais depressa e da melhor maneira possível, ao local onde fosse necessário socorrer
e proteger.
Hoje
em dia, apesar das exigências a que estão sujeitos serem cada vez maiores, o
“modelo” de gestão dos corpos de bombeiros mantém-se praticamente inalterado. Desde
se conhece o voluntariado, neste conspecto, pouco se evoluiu. Continuam a depender em demasia da
disponibilidade e da boa vontade de cada um, tornando assim impossível, por
muito esforço que exista, a obtenção dos resultados que todos esperamos. Seria necessária
uma adaptação mais ousada a esta nova realidade, não por parte do equipamento, que
esse abunda, tanto em qualidade como em quantidade, mas por parte da “massa humana”
que abnegadamente continua a servir as corporações de voluntários.
Não
tenho dúvida alguma acerca da excelência da formação e muito menos da eficácia dos
nossos bombeiros em aplicar no terreno, tudo aquilo que aprendem e apreendem
nas constantes e exigentes formações a que estão obrigados. Considero até que o
nível de qualificação exigido a todo o bombeiro é bastante elevado, ou não
fosse a sua área de atuação bastante arriscada e exigente, daí acreditar, que
só alterando o “modelo” e adaptá-lo às novas realidades é que será possível
deixarmos de pensar nos bombeiros como os “coitadinhos”,
que de facto ainda são.
Arriscaria
a dizer que um modelo assente na profissionalização dos corpos de bombeiros
(voluntários) traria um novo fôlego a estas instituições tão emblemáticas, tão
próximas e tão nossas. Estou convencido que este século nos trará uma nova
realidade. Não creio que possa demorar muito mais tempo até que sejam criados de
corpos de bombeiros profissionalizados, exclusivos e não divididos pelas mais
diversas profissões e, principalmente, com toda a disponibilidade (física e
mental) para socorrer.
Dessa
forma, essa nova realidade contribuiria para fortalecer as condições em que
trabalham os “soldados da paz”.
Dar-lhes-ia mais segurança, mais garantias, uma perspetiva de carreira, melhor remunerada, e mais saúde, para si e para os seus.
Mais tranquilidade e sobretudo mais tempo para se dedicarem à sua profissão e à
sua família. Pelo menos sabiam que durante aquelas horas, fossem de menor ou maior
aflição, estariam sempre sob a responsabilidade de uma só direção e de um só “patrão”.
Não estariam, portanto, com o coração num lado e o pensamento no outro. Seriam
profissionais a tempo inteiro e de corpo inteiro.
Sabendo
de tudo isso, das implicações que teria esse novo paradigma em que o bombeiro voluntário
deixaria de ser considerado “o
coitadinho
”, é que alguns encaram essa nova trajetória com uma grande
risco, sobretudo para os seus interesses e talvez por isso mesmo, não querendo
mudar, por mero egoísmo ou despotismo, é que impedem que eles deixem de o ser. 



Pedro Viseu