À mesa com Portugal

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Arroz carolino, sal marinho e flor de sal da Figueira
da Foz
, arroz de lampreia e enguias da
Ereira, pastéis e 
queijadas de Tentúgal,
queijadas de Pereira, 
chanfana do Senhor da
Serra, lampreia de Penacova, 
nevadas e outras gulodices de Lorvão, leitão da Bairrada, bolo
de Ançã
. Qual rota gastronómica do Mondego, mais do que sabores, são
territórios onde o sabor criou histórias no passado com a mesma fome que quer
escrever histórias para o futuro. Não sabemos onde e como nasceram esses
sabores, essas são conclusões que ficam para o tempo mítico das origens, para a
história que se conta para vender o produto. Sabemos sim que nasceram pelas
mãos de alguém e que, esse alguém, o fez por amor.


Amor à vida, primeiro que tudo, para não morrer à fome, tendência natural
do homem que sempre soube fugir ao infortúnio da falta de alimento. Amor ao
outro pela necessidade de agradar a quem tanto se quer. Por amor à família,
qual dona de casa que põe na panela e na masseira os afetos que a fazem dar o
melhor de si à mesa, no aroma de um cozinhado do dia-à-dia ou de um dia de
festa. Por amor à divindade numa grata resposta à dádiva. Estas são as
histórias do passado que se escreveram na transformação do que foi o sabor ao
longo da nossa história.

O futuro quer-se cheio de histórias novas. Quer-se repleto de novidades
que nos ajudem a descobrir estes sabores para além das que já nos foram
contadas. E isso passa por os olharmos não com a certeza de que eles são
nossos, da nossa aldeia, vila ou cidade mas com a vontade de que sejam de
todos, que sejam de Portugal. Para isso, precisamos saltar o nosso território,
ou o nosso “territoriozinho”, não fazer da sua promoção o slogan “o melhor de todos”, mas a parte que
constrói o todo, que faz parte da ementa. Sempre o homem correu para a
diversidade, sempre soube e quis integrar à mesa a pluralidade alimentar, por
isso desafiámos o mar de cara firme contra o vento salgado que nos esculpiu na
pele as aventuras do nosso povo tão atlântico. Fizemos da dificuldade
oportunidade para dar ao mundo tanta coisa boa. Porque havemos agora de apelar
apenas aquilo a que estamos habituados, como se fosse difícil perceber como
existimos na complementaridade?

Ganharíamos tanto mais se soubéssemos aliar todos os produtos e fazer a
festa dos sabores. Não direi mais um festival gastronómico onde a programação
de um é a cópia do outro. Digo uma planificação estratégica entre Câmaras
Municipais, associações de produtores, associações culturais de defesa do
património que fizessem da nossa riqueza gastronómica uma verdadeira
oportunidade de futuro para as terras em que vivemos, num calendário e numa
geografia bem definida. As respostas já foram encontradas, basta olhá-las com
vontade e oportunidade. É chegada a hora de fazermos mais do que dizermos que
temos produtos únicos como se de filhos únicos se tratassem. Todos estes
sabores são filhos do mesmo povo, filhos da mesma vontade, filhos da mesma mãe
que foi a fome que na sua penúria nos fez encontrar a singularidade de produtos
que, juntos, serão sempre melhores.



Olga Cavaleiro – Presidente da Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas