CIÊNCIA VIVA – Reveladas as melhores ilusões de 2017

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Desde
2005, o concurso para a melhor ilusão do ano premeia anualmente as mais
engenhosas e interessantes demonstrações de fenómenos perceptivos. Organizado
pela Neural Correlate Society (NCS), o concurso atribui prémios
monetários às três melhores ilusões do ano, votadas pelo público de entre dez
inicialmente escolhidas por um painel de cientistas. O concurso visa,
simultaneamente, a divulgação de alguns resultados das neurociências para um
público abrangente bem como fomentar e estimular a investigação científica
acerca dos processos neurofisiológicos subjacentes a fenómenos perceptivos.
Seguem-se as três ilusões eleitas as melhores de 2017.
O
título de melhor ilusão foi este ano ganho por Hedva Spitzer, Dana Tearosh e
Niv Weisman, da Universidade de Tel Aviv, pela demonstração de que o sistema
visual consegue extrair informação espacial acerca de formas apenas com base em
variações temporais num padrão de estimulação visual
. O efeito pode ser visto
no vídeo abaixo: codificada nas sequências de pixéis, que alternaram entre o
preto e o branco, encontra-se uma estrutura temporal mas nenhuma pista espacial
– não obstante, é facilmente discernida uma forma. Mais que isso, essa é
facilmente identificada como sendo, por exemplo, palavras escritas, um par de
coelhos, uma pessoa a dançar, etc.
Que
o movimento em si mesmo apresenta, para um observador, um fluxo rico em
informação sobre o mundo havia já sido reconhecido desde pelo menos 1973, com
os trabalhos de Gunnar Johansson. Este mostrou que, apenas com base em padrões
de movimentos de pontos brancos, era possível identificar de imediato uma
pessoa a desempenhar uma dada tarefa (e.g., a jogar ténis) e mesmo o seu
género, identidade e estado emocional. No caso da ilusão apresentada por Hedva
Spitzer e colaboradores, a novidade advém da ausência total de qualquer pista
espacial. De acordo com os autores, a investigação que suporta a demonstração
apresenta o potencial de abrir novos campos para o estudo dos mecanismos
envolvidos no sistema visual.
Para
o segundo lugar no concurso de 2017, foi eleita a ilusão de Victoria Skye,
ilusionista de Roswell, Georgia. Esta apresentou a sua versão da Ilusão da
Parede de Café (Café Wall Illusion), identificada originalmente por Hugo
Munstenberg em 1897 e redescoberta nos anos 70 pelo psicólogo Richard Gregory,
que a observou num padrão acidental de azulejos num café perto de St Michael’s
Hill em Bristol, no Reino Unido (e daí o nome pelo qual veio a ficar
conhecida).
Na
sua versão mais simples, a ilusão surge quando num padrão axadrezado as faixas
horizontais são desalinhadas entre si – essas aparentam então desviar-se de uma
orientação horizontal e em direcções opostas, ao ponto de nos convencer que as
linhas não são paralelas entre si. Esta ilusão parece dever-se à forma como o
nosso cérebro interpreta contrastes entre zonas claras e escuras – diferentes
grupos de neurónios respondem a secções brancas e negras e é pela interacção
entre ambos que a ilusão se manifesta. No caso da variação de Victoria Skye, a
ilusão é gerada em grande parte pelos pequenos losangos que assinalam as
intersecções do padrão em xadrez – de facto, se a imagem for desfocada (de modo
a que os losangos não sejam discrimináveis) a ilusão não se verifica.
Finalmente,
e para terceiro lugar na edição de 2017, foi contemplada a versão dinâmica da
clássica ilusão de Müller-Lyer, da autoria do italiano Gianni A. Sarcone,
do Archimedes Laboratory Project. Na sua versão original, amplamente
difundida, duas linhas com igual comprimento aparentam diferir em tamanho
quando delimitadas por ângulos com diferentes orientações.
Reportada
originalmente pelo sociólogo Franz. C. Müller-Lyer, em 1889, esta ilusão tem
sido alvo, ao longo de mais de um século, de inúmeras investigações. A versão
dinâmica apresentada por G. Sarcone consiste numa única linha, dividida em duas
secções com igual comprimento por ângulos que alternam de forma dinâmica entre
duas possíveis orientações – o resultado é que as secções da linha se parecem
expandir e contrair alternadamente. O leitor poderá confirmar, com o auxílio de
uma régua, que efectivamente as duas metades da linha permanecem inalteradas na
sua extensão. Abaixo poderá ver a variante radial da ilusão, na qual várias
figuras de Müller-Lyer são mostradas num padrão circular.
As
ilusões seleccionadas para este e anos anteriores podem ser vistas na página
oficial do concurso – illusionoftheyear.com.
Nuno de Sá Teixeira
Ciência
na Imprensa Regional / Ciência Viva
Nuno Alexandre de Sá Teixeira formou-se em Psicologia pela
Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, e
doutorou-se em Psicologia Experimental pela mesma instituição. Trabalhou como
investigador doutorado no Departamento de Psicologia Experimental Geral da
Universidade Johannes-Gutenberg, Mainz, Alemanha, e, posteriormente, no
Instituto de Psicologia Cognitiva da Universidade de Coimbra. Neste momento é
investigador doutorado no Centro de Biomedicina Espacial da Universidade de
Roma ‘Tor Vergata’, Itália. Os seus trabalhos científicos têm-se centrado no
estudo da forma como variáveis físicas (em particular, a gravidade) são
instanciadas pelo cérebro, como “modelos internos”, para suportar funções
perceptivas e motoras na interacção com o mundo. Assim, os seus interesses
partem da charneira entre áreas temáticas como a Psicologia da Percepção,
Psicofísica e Neurociências.